Incrível

Uma endocrinologista, com anos de experiência, respondeu algumas perguntas sobre os hormônios e contou sobre os exames que não têm muita utilidade

Marina Berkovskaya é médica endocrinologista e nutricionista. Formou-se com honras na Universidade de Medicina Sechenov, na Rússia, e mais tarde defendeu sua tese de doutorado. Agora, Marina dá aula na própria universidade onde se formou e atende pacientes em seu consultório em Moscou. Recentemente, ela decidiu compartilhar informações bastante úteis sobre saúde e sua experiência médica em sua página no Instagram.

Incrível.club não perdeu a oportunidade e decidiu fazer 9 perguntas à Dra. Marina. Agora já aprendemos como, por exemplo, podemos emagrecer e superar a vontade excessiva de comer doce. Descobrimos, também, como combater a fadiga constante e as melhores formas de lidar com a TPM. Achamos que no texto abaixo você também vai encontrar ótimas dicas para melhorar seu dia a dia e seu bem-estar. Confira!

1. O que é o “desequilíbrio hormonal” e é realmente necessário fazer exames hormonais com frequência?

Não existe um diagnóstico chamado “desequilíbrio hormonal” na medicina, e não é necessário verificar todos os hormônios no sangue, urina, saliva e outros fluidos biológicos. Na endocrinologia, como na medicina em geral, trata-se do paciente, e não do resultado de seus exames.

As doenças endocrinológicas, em regra geral, têm um quadro clínico bastante evidente, e os diagnósticos são muitas vezes feitos, como dizem, “a partir do limiar”. Naturalmente, há exceções, como o hipotireoidismo com suas “máscaras” e, por isso, os especialistas verificam o nível do hormônio estimulante da tireoide, ou TSH (do inglês, thyroid-stimulating hormone), em quase todos os pacientes. Mas seria somente o TSH nesse caso, e não exames para verificar de 10 a 15 hormônios diferentes. Há indicações clínicas para qualquer análise hormonal, e a sequência correta de ações é a seguinte: análise das queixas, do histórico médico e quadro clínico — prescrição de um exame apropriado — tratamento.

Portanto, se você não tem problemas com o ciclo menstrual, perda de pelos ou infertilidade, por favor, não faça testes para os esteroides sexuais (hormônios sexuais). Se você é magro e tem níveis normais de glicose no sangue, não há necessidade de verificar a insulina. Não faça exames desnecessários. Evite o uso dispensável dos materiais laboratoriais e das células nervosas (suas e do seu médico).

2. Como lidar com a TPM?

As recomendações oficiais, em casos mais complicados, dizem para “desligar” os ovários (usando contraceptivos orais combinados e adesivo de estrogênio na segunda fase) e tomar antidepressivos e ansiolíticos. Se as dores estiverem muito fortes, por favor, não se automedique. Encontre um bom ginecologista e faça o tratamento com acompanhamento médico.

Na maioria dos casos, é possível tratar a TPM em casa mesmo. Em primeiro lugar, precisa ocorrer uma reeducação alimentar. Retire da sua dieta os carboidratos simples, estipule um limite no sal, e se estiver com ansiedade, corte o café. Aumente o consumo de proteínas, da gordura “boa” e não deixe de se alimentar regularmente.

Em segundo lugar, pode ser preciso mudar seu estilo de vida. Há muito o que fazer nesse caso: frequentar a academia; às aulas de yoga; ir a piscina ou ao salão de beleza; às compras; acupuntura; massagem e até é possível recorrer ao tão amado chocolate. O foco principal é que você sacie suas vontades e mantenha seu bem-estar, evitando assim “descontar” sua TPM em pessoas próximas e na família.

Além disso, é recomendado tomar suplementos.

3. Tenho dificuldade para dormir e não consigo perder peso. Qual pode ser o motivo?

Talvez a responsável por isso seja a melatonina — o hormônio do sono, da harmonia e da juventude. Além disso, é também um poderoso antioxidante e conhecido como o “hormônio do relaxamento”. Alguns dos sinais mais evidentes de deficiência de melatonina são os seguintes: dificuldade para dormir; acordar várias vezes durante o sono; cansaço excessivo pelas manhãs; pesadelos; dormir e acordar tarde; baixa tolerância a mudanças de fuso horário.

Mas não saia correndo para a farmácia ainda; não é como comprar uma aspirina. Para começar, tente normalizar a melatonina produzida pelo próprio corpo: vá para a cama no máximo até as 23:00, não ligue os aparelhos eletrônicos diretamente nos olhos à noite e não coma demasiadamente antes de dormir.

Se isso não ajudar, comece com pequenas doses de melatonina sintética, aumentando-as gradualmente de acordo com sua tolerância individual. Se conseguir pegar no sono intensamente depois de tomar melatonina, mas estiver acordando no meio da noite com o coração batendo rápido, com ansiedade, transpiração e dificuldade para voltar a dormir — isso indica que você está tomando uma dose muito elevada do medicamento.

Gravidez, lactação e doenças autoimunes são contraindicações para o uso de melatonina. Tenha em mente, também, que o uso prolongado só é possível sob supervisão médica.

4. Como perder peso?

Muito mais importante do que perder peso, é manter uma massa corpórea baixa. Aqui estão as principais dificuldades do porquê as dietas não vão ajudar nesse quesito. Você terá que mudar a sua atitude em relação aos alimentos, reduzindo gradualmente o teor calórico da sua dieta. Você precisa comer em paz, devagar, sem TV e sem Internet à sua frente.

Como se deve comer? Que estilo de alimentação devo escolher? Não se preocupe, isso não é tão importante. Foi provado há muito tempo que qualquer dieta funcionará se for criado também um déficit calórico. Isso é simplesmente a lei de conservação de energia; não adianta querer trapacear.

Devo comer duas refeições por dia ou 5 vezes ao dia? De um modo geral, também não importa. Para certas pessoas, comer duas vezes ao dia é suficiente, e evita que elas pensem constantemente em comida. Para outros, é mais confortável a alimentação fracionada na qual você se sacia em pequenas porções durante o dia. Você precisa encontrar aquilo que funciona melhor para você individualmente.

Vale a pena manter uma dieta baixa em carboidratos, com baixo teor de gordura ou vegetariana? É sabido que a saúde do sistema cardiovascular, assim como a expectativa de vida, é mais beneficiada pelas dietas mediterrânica e DASH (Abordagem Dietética para Parar a Hipertensão). Além dessas, o peschetarianismo (uma ramificação do vegetarianismo que permite o consumo de peixes e mariscos), também influencia positivamente na saúde dos vasos sanguíneos.

5. Quais exames devem ser feitos quando se tem cansaço constante?

Doenças graves podem estar “escondidas” por trás da clássica fadiga, de modo que o diagnóstico de “astenia” (síndrome da fadiga crônica) é feito por exclusão, ou seja, quando não é detectada nenhuma outra doença mais séria. É uma questão um pouco complexa e controversa e, por vezes, é necessário um trabalho contínuo com uma equipe de especialistas. O mínimo que prescrevo para queixas de fraqueza excessiva é o seguinte:

  • Exames clínicos de sangue (incluindo leucócitos e taxa de sedimentação de eritrócitos).
  • Análise geral da urina.
  • Análise bioquímica do sangue.
  • Teste de gravidez ou β-HCG do sangue.
  • TSH, T4 livre.
  • Teste para infecções: HIV, sífilis, hepatite B e C. Vários especialistas sugerem que a doença de Lyme também deve ser excluída.
  • ECG.
  • Radiografias pulmonares (ou fluoroscopia, tomografia computadorizada de baixa dose — a critério do médico).
  • Os exames de ginecologia, pelve e ultrassonografia mamária também são recomendados para as mulheres, e os exames de sangue para diagnóstico de câncer de próstata (PSA) são recomendados para os homens.

6. É verdade que o leite pode provocar o desenvolvimento de acne?

Acredita-se que os laticínios, especialmente os desnatados, estimulam a secreção de insulina ou contêm fatores de crescimento, o que leva a um aumento do efeito dos hormônios androgênicos na pele e aumento da produção de sebo, ou seja, o desenvolvimento e progressão da acne. No momento, existem vários estudos que concluíram que há um leve aumento na intensidade da acne quando há um aumento no consumo de produtos derivados do leite. Mas esses dados não são suficientes para serem base de recomendações oficiais.

O que podemos fazer? A minha opinião mantém-se a mesma: se não há problemas — consumimos laticínios normalmente (não desnatados). Queremos perder peso — consumimos laticínios à tarde, de preferência com legumes. Queremos tratar a acne — excluímos os doces, bebidas gasificadas, substâncias artificiais, e se não funcionar, cortamos o leite também. Não se esqueça, aliás, de visitar um gastroenterologista, porque é possível que você esteja com problema no intestino.

7. Existe algum exame que é perda de tempo fazer?

Existem 7 exames que eu nunca prescrevo, mas cada vez mais tenho que analisá-los e acalmar os pacientes que estão nervosos com as “anormalidades” indicadas nos exames. São eles:

  • Cortisol no sangue em fundo puro. Frequentemente, vejo exames com valores elevados, mas isso não significa nada, na verdade.
  • Insulina, peptídeo C e leptina em pessoas com glicose normal e sem obesidade. Aqui eu preciso esclarecer a normalidade de ambos os valores, tanto os elevados quanto os baixos.
  • 17-ON-progesterona em mulheres sem infertilidade e quando há partos bem-sucedidos no histórico médico.
  • Níveis dos hormônios androgênicos e prolactina durante a gravidez.
  • Tiroglobulina. A única situação em que ela precisa ser controlada é durante a observação de um paciente após radical tratamento para câncer da tireoide.
  • Aldosterona na ausência de hipertensão arterial.
  • Progesterona no sangue.

8. Como lutar contra a vontade excessiva de comer doces?

Para superar o desejo patológico por doces, você precisa entender primeiramente as causas desse vício — estresse, depressão, estado emocional afetado, insatisfação consigo mesmo. Esses são alguns dos motivos pelos quais buscamos os doces, que é nada mais que o desejo por endorfina, ou o hormônio do “bem-estar”. O que fazer em tais situações? Devemos procurar as endorfinas em lugares menos “doces”. Podemos começar com:

  • Atividades físicas regulares. Acredite em mim, é como uma droga, e as endorfinas serão liberadas pelo menos na mesma quantidade.
  • Equilibre sua dieta. Podem estar faltando carboidratos complexos e proteínas.
  • Não vá dormir depois das 23:00, e levante-se por volta das 7:00. Até mesmo nos feriados. Caso contrário, você terá um desequilíbrio de cortisol, somatotropina e melanina; o que pode resultar em excesso de peso, exaustão física e mental etc.
  • Não faça dietas rigorosas demais, porque são um caminho direto para o estresse crônico e para o colapso nervoso. Se você comeu meio quilo de balas ou doces, não precisa cortar tudo de uma vez e comer só brócolis. Faça o processo gradualmente.

9. O que é melhor: suplementos de iodo ou sal iodado?

Em muitos países, há 2 tipos de sal que são vendidos: com iodo e sem iodo. De acordo com estimativas de peritos, 75% da população na Rússia sofre de deficiência de iodo em vários graus. Para combatê-la, foi introduzido um processo de iodização obrigatório no sal de cozinha. Tal solução não é um exagero ou estratégia de marketing, mas sim a forma mais simples, barata e eficaz de proteger as pessoas da deficiência de iodo.

Muitos acreditam que o sal marinho é uma melhor fonte de iodo do que o sal de cozinha. Mas não é o caso. Há apenas quantidades residuais de iodo no sal marinho, principalmente na forma de iodeto, que tem sua maior parte evaporada durante o cozimento. Em contrapartida, o sal iodado (de cozinha) contém iodato de potássio, que tem uma estrutura mais estável. No entanto, certas marcas de sal marinho têm uma certa quantidade de iodo adicionado para suprir essa deficiência. Preste atenção na embalagem e nos componentes do produto.

Suplementos alimentares com “iodo orgânico” não tem nenhuma vantagem significativa sobre os produtos convencionais de sal iodado ou dos iodetos de potássio. Basta prestar atenção em qual forma molecular está o iodo no produto escolhido e em qual dosagem.