Trabalho em um zoológico e vou contar o que acontece lá dentro

Animais
há 11 meses

Alguma vez você já se perguntou sobre o lugar para onde a polícia enviará um crocodilo resgatado com o qual turistas foram fotografados em uma praia, ou qual será o destino de um filhote cuja mãe foi morta por caçadores? Estes animais não são mais capazes de sobreviver por conta própria na natureza, sendo um zoológico ou uma reserva ambiental o local apropriado para cuidar deles. Nas últimas décadas, muitas coisas mudaram neles: agora são centros onde as pessoas criam espaços naturais e biossistemas protegidos, tratando bichos doentes e afetados, aumentando assim a população de espécies raras ou ameaçadas de extinção.

Sou autora do Incrível.club e no meu tempo livre trabalho como voluntária em vários zoológicos do mundo. Depois de ter aprendido como tudo é organizado e de ter conversado com os funcionários, quero compartilhar com você alguns fatos e histórias sobre por que devemos reconsiderar nossa atitude em relação a esse tipo de lugar.

O que é um zoológico na atualidade

  • Um bom zoológico é um lugar onde cada animal tem um grande espaço para levar uma vida ativa, assim como cantos isolados para a solidão, recebe cuidados individuais, atenção médica, alimentação especial, entretenimento e a oportunidade de se comunicar com outras espécies. Há contato mínimo com bichos, que recebem o máximo de atenção.
  • As reservas naturais não garantem uma vida boa aos animais. Não há veterinários, a fauna não se alimenta nos períodos de “fome”, não há proteção contra incêndios e inundações e as crias que perderam seus pais ou os espécimes feridos são condenados à morte. Além disso, pode haver caçadores.

  • A tarefa dos zoológicos hoje é salvar, preservar e aumentar o número de animais de espécies raras e ameaçadas de extinção, além de educar as pessoas a viver em harmonia com a natureza.
  • As reservas ambientais onde os animais são protegidos toda a sua vida são muitas vezes financiadas pelos próprios jardins zoológicos ou fazem parte deles, participando juntamente com estes em programas de reabilitação e reprodução. Não são coleções de bichos, circos ou zoológicos criados exclusivamente para a diversão do público e lucro, onde ninguém se importa com a saúde e o conforto dos animais.

Como se organiza a vida dos habitantes de um zoológico

  • Cada habitante de um zoológico recebe atenção de uma pessoa especial: um encarregado ou tratador. Ele alimenta e cuida do animal. Para este “guardião do zoológico”, seu pupilo é um amigo próximo com quem estabelece uma relação especial. Onde está o segredo? Não há punição física em absoluto, apenas amor, paciência e respeito, para que mais tarde, pouco a pouco, o animal o aceite, apesar das diferenças entre eles.
  • Se necessário, o tratador pode estabelecer contato físico, como acariciar o animal. Mas a prática padrão é não interferir. Os bichos não devem ser domesticados.
  • Às vezes, os zoológicos precisam literalmente “lutar com os instintos”. Por exemplo, a fêmea de um demônio-da-tasmânia dá à luz 20-30 filhotes. Em condições naturais, apenas quatro sobreviverão, porque esta é a quantidade de tetas que a mãe tem, o que significa que este é o número de filhotes que ela pode alimentar. No zoológico, o resto destes pequeninos ficará a cargo do guardião, alguns até podem ser enviados para viver em um ambiente natural. Essa abordagem ajuda a recuperar a população de espécies raras e ameaçadas de extinção.

  • Tanto na natureza quanto no zoológico um bicho pode não manifestar seu instinto maternal. Por exemplo, uma fêmea de orangotango pode dar à luz quatro vezes, mas somente na quinta mostrará interesse por seu bebê, alimentará e o criará, enquanto na sexta mostrará indiferença novamente. Na natureza, seus descendentes simplesmente morreriam, mas em zoológicos eles serão responsabilidade do tratador. Por sinal, esses animais poderão viver com sua mãe e até estabelecer uma relação de amizade.

  • Ao escolher seu parceiro, os mamíferos e as aves também avaliam a aparência, o método de sedução e, principalmente, a harmonia na comunicação. Se suas personalidades “não se encaixam”, é improvável que o instinto de reprodução se manifeste.
  • Muitos permanecem fiéis ao seu parceiro pelo resto de suas vidas, porque valorizam muito o “trabalho em equipe”, pois este dá a ambos os parceiros vantagens para a sobrevivência. No zoológico, casais também são formados. Acontece isso e o contrário, quando cada animal precisa criar seu próprio refúgio porque não se encaixou ou entre eles surgiu um conflito insuperável.

  • Quando perdem o parceiro, os bichos também sentem angústia e dor e as manifestam à sua maneira: se recusam a comer, uivam, mudam seu comportamento. Só o tempo pode ajudá-los e, por vezes, a relação com o tratador ou com outro habitante do zoológico.
  • Todos têm sua própria rotina: alguns dormem durante o dia, outros a cada 2-3 horas. Mas se você quiser ver quase todos os animais, vá de manhã, das 8h ao meio-dia, quando 90% dos habitantes do zoológico estão ativos e quase não há visitantes.
  • Estando em um zoológico, não faça barulho nem bata no vidro ou nas jaulas ao ar livre, nem dê comida, pois pode ser prejudicial aos animais.
  • Os zoológicos preparam a comida para seus habitantes por conta própria. Eles têm uma cozinha, às vezes até mesmo uma fazenda, bem como cozinheiros que, juntamente com os veterinários, elaboram uma dieta. Mas os visitantes continuam a alimentar os animais porque eles “pedem”. Alguns bichos manipulam as pessoas para sua própria alegria, enquanto outros, como cavalos, simplesmente não se sentem satisfeitos e comem até que acabam se sentindo mal.
  • Acontece que os visitantes jogam bananas para os macacos, embora a maioria dos primatas não se sinta bem com este tipo de alimento. Mesmo as bananas não são recomendadas como guloseima, por isso essas frutas são substituídas por outras nos zoológicos. Por exemplo, os saguis comem carne moída na hora com prazer; os lêmures, alho-poró; e os gorilas adoram ervas frescas.

  • Todos os predadores têm o seu “dia de jejum”. Na natureza, eles se movimentam demais e muitas vezes passam fome, mas em zoológicos e reservas ambientais não sofrem com a escassez de alimentos, o que pode desencadear sérios problemas de saúde. Assim, uma vez por semana comem apenas frutas e legumes de baixa caloria, enquanto os funcionários constantemente inventam novos entretenimentos para eles. Por exemplo, soltam carpas vivas em uma piscina de ursos, a fim de ensinar os predadores a nadar e a caçar embaixo d’água, como seus pares o fazem na natureza.

  • Cisnes e patos morrem se forem alimentados com pães ou bolos. Eles vão comer tudo com apetite, mas você vai para casa sem ver como no dia seguinte um desses pássaros vai morrer. E se isso acontecer aos olhos dos visitantes, estes vão acreditar que a culpa é porque os pássaros “estão desnutridos ou foram torturados pela equipe do zoológico”.
  • Se você acha que o animal parece estar abandonado, pode ser a fase em que ele troca de pele. Antes da hibernação, os guaxinins ganham muito peso. Já os camelos ou os lobos, durante a muda, parecem muito magros e em más condições, enquanto o pelo de um tigre se transforma em verdadeiros dreadlocks. Os veterinários monitoram todos estes processos com muito cuidado: se o animal “não consegue lidar” sozinho, acaba sendo tosquiado. Mas esta é uma medida extrema, uma vez que tal procedimento requer anestesia e gera um forte estresse no animal.

A aranha não está morta, simplesmente mudou sua pele.

  • Às vezes acontece de o aspecto não fotogênico de um animal ser um sintoma de velhice. Afinal, o humano não pode aparentar 80 anos como se tivesse celebrado recentemente sua maioridade.
  • Em bons zoológicos, os bichos têm uma expectativa de vida mais longa do que em condições naturais, já que têm acesso garantido durante todo o ano a uma dieta balanceada e atenção constante. Sempre há a possibilidade de curar um animal antes que sua doença se torne crônica ou comece a representar um sério perigo. Na natureza, mesmo algo mínimo como uma inflamação das gengivas pode custar a vida de um indivíduo jovem.
  • Para que os animais sejam felizes, fisicamente desenvolvidos e inteligentes, foi desenvolvido um treinamento especial para eles. Enquanto a maioria das escolas para humanos ainda usa o sistema de pontuação e até punições, em zoológicos o aprendizado se torna um entretenimento para seus habitantes.
  • Por exemplo, as guloseimas para os guaxinins são enterradas e escondidas em buracos de árvores. Nos recintos dos felinos, são plantadas árvores para esses predadores afiarem suas garras e mastigarem folhas. Para os macacos, os corvos, lobos e ursos, são construídos quebra-cabeças com algo saboroso dentro. Os cachorros-vinagre são encorajados a aprender a nadar incentivados por guloseimas extras deixadas na água. Brincando à vontade e sem submissão, qualquer ser vivo rapidamente aprende algo novo e, consequentemente, se desenvolve. Em alguns casos, o treinamento consiste em aulas completas com o cuidador, como jogos e natação com leões-marinhos, o que permite inspecionar melhor seus dentes e barbatanas.
  • Muitos animais aprendem coisas novas através da observação. Por exemplo, aos pandas e macacos são mostrados vídeos com seus pares se acasalando. Há especialistas que realizam oficinas educativas além do vídeo. Por exemplo, penduram uma maçã como uma guloseima em um fio para que o urso se levante em suas patas traseiras e a pegue. Isso fortalece os músculos do quadril e prepara o corpo dele para um esforço físico sério, a fim de continuar com a procriação.
  • Na natureza, a falta de exemplos de comportamento pode levar o animal a não se reproduzir.
  • As pessoas gostam de imaginar que outros seres vivam de maneira semelhante. Mas na natureza, cada espécie tem modelos de comportamentos diferentes. Por exemplo, o elefante macho fica sempre sozinho, enquanto a fêmea vive com seus filhos e, se ela tiver um elefantinho macho, aos 8-9 anos ela o convida a deixar sua família para levar uma vida independente. Já os pandas moram sozinhos e só uma vez por ano, durante alguns meses, estão dispostos a se tolerar em um território comum, sempre que haja simpatia mútua, porque apenas o instinto de reprodução não é suficiente.
  • Mesmo o modo de vida do gorila não é tão semelhante ao do ser humano. Uma família comum desses primatas consiste em um macho e um grupo de fêmeas com filhotes. Os machos adoram “dançar”, mostrando sua força, batendo no peito e gritando, mas até o fim evitam o conflito, mesmo que o destino de todo o “harém” esteja em jogo. E quando eles atacam, limitam-se a uma mordida. As brigas em um grupo quase sempre surgem apenas entre fêmeas que não dividiram algo.
  • A quarentena é aplicada em qualquer zoológico. Quando um novo habitante é trazido, por um mês ele vive em uma área separada dos outros. O animal se acostuma a um novo lugar e seus cheiros, enquanto os veterinários observam seu estado de saúde.
  • Nos zoológicos é proibido fumar. Para mamíferos e aves, a fumaça do tabaco é mais perigosa que para os seres humanos. Se você fuma em casa, está simplesmente envenenando seu pet.
  • Os animais, com grande prazer, aproveitam os benefícios da civilização humana: alguns adoram dormir em cestas de vime, os macacos sempre se sentem felizes com tapetes e trapos, ursos se encantam com cones de borracha e os felinos, os chacais e até os pandas podem passar horas brincando com caixas.

Por que os zoológicos modernos não devem ser fechados

  • A expansão do ser humano levou ao fato de que agora em zoológicos de todo o mundo vivam mais animais raros e ameaçados de extinção do que na própria natureza. Para muitos deles, esta é sua última esperança: um lugar onde têm a oportunidade de sobreviver e se reproduzir.

A cria de um panda vermelho. A espécie está classificada como em perigo de extinção, uma vez que existem menos de 2.500 espécimes no mundo.

  • Algumas espécies de animais praticamente não permanecem mais na natureza. Por exemplo, os hipopótamos-pigmeus se reproduzem bem em zoológicos, mas em seu habitat natural estão em perigo de extinção desde 1993. Os caçadores os matam, os clandestinos destroem seu habitat e a situação se agrava com as constantes guerras civis.

  • Nos zoológicos, projetos significativos são introduzidos para a restauração da diversidade biológica no planeta. Por exemplo, em 2018 o último macho de rinoceronte-branco do norte morreu devido a uma doença grave e, para salvar esta espécie da extinção total, só é possível com a inseminação artificial das fêmeas de rinoceronte branco do sul, que vivem em zoológicos e reservas naturais protegidas.

  • Ecologistas, biólogos, estudantes e voluntários ajudam os zoológicos. Por exemplo, coletam pinhas secas, escondem nozes e borrifam água para que as pinhas “se fechem”. Elas são dadas aos macacos com uma guloseima dentro, o que serve tanto como uma recompensa quanto como algo semelhante a um bom quebra-cabeças para o seu desenvolvimento. Um brinquedo semelhante pode ser feito também para um gato doméstico ou um papagaio.
  • É proibido a qualquer pessoa que não trabalha no zoológico entrar nos recintos dos animais, tocá-los e até mesmo limpar seus excrementos e qualquer contato com eles é excluído na quarentena. Isto também se aplica aos visitantes: você não deve acariciar cavalos em zoológicos, porque para eles você pode se tornar uma fonte de doenças. E vice-versa.

  • Quase todos os zoológicos têm programas de voluntários para crianças e adultos. Esta é uma boa oportunidade para descobrir como tudo funciona por dentro, ajudar os habitantes locais não com palavras, mas com ações, e até aprender alguns truques que lhes serão úteis se você tiver pets. Algumas pessoas fazem isso com frequência, outras, uma vez por ano. Tudo é muito pessoal, assim como as possibilidades de ajudar, desde a coleta das caixas com as quais fazem os brinquedos para os animais até a participação na organização de eventos e observações científicas.

Às vezes, algo útil também pode ser feito fora do zoológico, como alimentar os pássaros no inverno ou plantar flores no quintal que atraem as abelhas. Conte-nos: de que maneira você ajuda a natureza?

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