Dia da Família nas escolas: uma nova proposta para crianças e jovens que não têm pai ou mãe

Psicologia
há 11 meses

Você conhece alguma mãe ou pai que cria os filhos sozinho, sem um parceiro presente? Imagine como pode ser confuso ou triste para essas crianças quando, na escola, os amigos comemoram o Dia dos Pais ou das Mães e elas não. Então, vamos conversar sobre a importância da criação do Dia da Família nas escolas e como isso pode nos afetar. Também, reunimos dicas para pais e mães solo evitarem a frustração dos seus filhos nessas datas.

Em 2022, a Arpen (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais) fez um levantamento considerando os registros de crianças desde 2016. O resultado mostra que, no Brasil, cerca de 500 documentos são emitidos por dia sem o nome do pai. Há casos em que o pai é ausente, mas também existem aqueles que se recusam a reconhecer o filho ou a filha. Esse número corresponde a 5% dos registros feitos no país.

É pensando nessas crianças que muitas escolas fazem mudanças nas suas agendas de comemorações, para evitar que elas se sintam excluídas dos colegas que fazem atividades no Dia dos Pais ou Mães. Não apenas essas, mas também aquelas que têm apenas um pai ou mãe, por serem separados, viúvos ou solteiros. Ou ainda, aquelas criadas por avós, tios, madrinhas, duas mães ou dois pais. As possibilidades são tantas que essas escolas viram a necessidade de pensar melhor no Dia das Mães e dos Pais.

Sendo assim, muitas escolas decidiram incluir no calendário o Dia da Família, uma nomenclatura que pode ser adotada e comemorada por qualquer criança, não importando com quem ela mora. A decisão é tomada ao perceber a carga de estresse emocional que crianças órfãs ou abandonadas, principalmente as menores, passam nessas comemorações. O objetivo das escolas é evitar a exclusão de alguns alunos e contemplar os variados arranjos familiares que cada uma encontra em casa.

Claro que as escolas não têm a intenção de deixar ninguém triste em dias de comemorações, por isso as soluções são variadas. Algumas delas, como uma escola de Anápolis (GO), adotam o Dia da Família sem deixar de comemorar o Dia das Mães e o dos Pais. Segundo o diretor dessa escola, Albert Andrade: “É uma data para todos os familiares”, em que os alunos podem homenagear quaisquer parentes que desejem.

No entanto, essas comemorações não precisam ser apenas para parentes. Os homenageados podem ser todos os envolvidos no crescimento da criança, seja emocional ou intelectual. Assim, as escolas desenvolvem atividades recreativas e culturais para que os alunos tenham um dia agradável na companhia daqueles que amam.

A psicóloga do Colégio Santa Inês, de Porto Alegre (RS), Bianca Sordi Stock, pontuou que, nos eventos do Dia da Família, muitos adultos conversam entre si e dividem suas angústias e alegrias. “Ser pai e mãe, em qualquer tipo de família, é algo muito solitário nos dias de hoje. Cada vez mais, a gente nota esse isolamento, porque às vezes não se tem familiares por perto, não se conhece os vizinhos, etc. Esses pais e mães precisam de um espaço de compartilhamento.”

Um exemplo, que já contamos em outro artigo, é o do ator João Fernandes, na foto acima. A mãe do seu filho, Nicolas, faleceu quando o menino tinha menos de 2 anos. Desde então, João precisou descobrir sozinho como cuidar do filho e educá-lo. “Muitas vezes, você se olha no espelho e se pergunta se é um bom pai, se está fazendo as coisas certas. Filho não tem manual”, desabafou. Pessoas como João se beneficiam do contato com outros pais na mesma situação.

As opiniões entre profissionais sobre a escolha pelo Dia da Família são muitas. Por exemplo, para Paula Saretta, psicóloga e doutora em Educação pela Unicamp, deve haver uma efetiva comunicação entre a escola e os pais. Assim, pode-se garantir que o resultado seja positivo, especialmente para os alunos. Ela ainda acrescentou que as discussões não devem ser sobre comemorar ou não a família, mas, sim, refletir sobre o que essas práticas representam e que sugestões podem aperfeiçoá-las.

Já a pedagoga e psicopedagoga Lisandra Pioner apoia a decisão com todo o entusiasmo. Para ela, as mães e os pais poderiam ter mais compaixão pela realidade das famílias e abrir mão das suas fantasias maternais. “Temos de mostrar às nossas crianças que a vida vale a pena por termos alguém para amar, para nos cuidar, para compartilhar momentos, seja esse alguém quem for. É disso que é feito os relacionamentos, de sentimentos, não de nomenclaturas.”

O psicólogo especialista em família, Alexandre Coimbra Amaral, opina que as escolas são, sem perceber, moralistas e segregadoras quando comemoram o Dia das Mães ou dos Pais sem considerar as crianças que não os têm. Para ele, as escolas estão sendo muito rígidas quando dizem que “o normal é ter um pai e uma mãe. Dessa forma excluem muitas famílias que têm outros arranjos, mas que dão certo. São famílias que têm crianças sendo bem criadas, sendo autoras da própria vida”.

Alexandre Coimbra ainda acrescenta: “Famílias são como peças de LEGO, que você pode montar com todo tipo de cor, e que o mais importante é que todos sintam que são parte desse castelo montado, em que todos sintam que são protegidos, amados e sendo úteis uns para os outros”.

Então, que tal descobrir como algumas escolas estão aderindo a essa nova celebração? Estas são algumas escolas brasileiras que adotaram o Dia da Família ou comemorações similares:

  • Colégio Dom Bosco, de Porto Alegre (RS): adotou o Dia de Quem Cuida de Mim, após observar um grande estresse nas comemorações do Dia das Mães e dos Pais. Antes disso, já havia um cuidado especial para evitar frustrações de crianças órfãs nessa data. A nova festividade amplia a homenagem a outras figuras afetivas dos alunos no ambiente escolar.
  • Escola Estadual Professor Alvino Bittencourt, de São Paulo (SP): não festeja o Dia das Mães desde 2015, nem o Dia dos Pais desde 2018. Em seu lugar, comemora o Dia de Quem Cuida de Mim. A vice-diretora da escola explicou que, nesse dia, não há presentes, mas sim, a oportunidade de os alunos mostrarem aos seus cuidadores o que estão aprendendo na escola.
  • Colégio Santa Inês, de Porto Alegre (RS): aderiu ao Dia da Família, sem abandonar o Dia das Mães e dos Pais. A comemoração envolve atividades recreativas para quaisquer parentes ou pessoas que os alunos sintam carinho e queiram convidar. São também um espaço de apoio e troca de experiências entre pais, parentes e cuidadores.
  • Escola Infantil Zigue Zar, de Brasília (DF): incluiu o Dia da Família no calendário escolar desde 2013. A administração da escola afirma que a decisão foi muito bem recebida, principalmente por famílias que têm dois pais ou duas mães.
  • Escola Estadual Professor Vítor José de Araújo, em Goiânia (GO): adotou o Dia da Família em 2016. A coordenação pedagógica da escola afirmou que o objetivo foi atender aos diferentes perfis de famílias, já que a administração não pode ignorar a realidade da comunidade escolar e da sociedade.
  • Colégio Agostinho São José, em São Paulo (SP): instituiu o Dia da Família em 2016. A intenção da administração escolar foi adaptar as datas comemorativas para contemplar as crianças nas mais diversas situações pessoais.
  • Colégio Marista da Glória, em São Paulo (SP): começou a comemorar o Dia da Família em 2018. As comemorações propõem atividades recreativas para toda a família.

Para finalizar, se você é uma mãe ou um pai solo, seja qual for o motivo, ou uma pessoa cuidadora de crianças sem pais e a escola dela não tem o Dia da Família, temos algumas dicas. É possível tomar algumas atitudes para diminuir o sofrimento e a frustração das crianças. A seguir, Mariana Zanotto, especialista em cuidados infantis e assessora familiar, reuniu cinco dicas para ajudar crianças sem pais a lidar com a frustração no Dia das Mães ou dos Pais.

1. Deixe que ela escolha um “pai” ou uma “mãe”

Para que a criança não se sinta excluída nas comemorações da escola, por não ter um pai ou uma mãe presente, sugira que ela escolha alguém especial para esse papel. Pode ser parente, vizinho, amigo, qualquer pessoa que ela goste e que sinta que pode ser homenageada.

2. Converse com ela sobre diversidade

Explique para a criança que nem sempre os pais têm o mesmo sangue que os filhos. Também, mostre exemplos de outras famílias que não têm um pai ou uma mãe, porque os perderam ou por abandono, e de pessoas que adotaram filhos. Mostre como isso tudo é normal.

3. Ouça o que ela tem a dizer

Estimule a criança a falar sobre seus sentimentos, sem a ansiedade de vir com uma resposta rápida e pronta. Se você mostrar interesse pelo que está causando incômodo à criança, ela se sentirá naturalmente acolhida.

4. Dê respostas adequadas à idade

Pode acontecer de os adultos responderem de uma forma que a criança não está preparada para compreender. Na dúvida, o melhor é devolver a pergunta à criança de um jeito que a faça refletir e chegar às respostas do jeito dela.

5. Respeite a individualidade de cada criança

As pessoas são diferentes e reagem às situações de formas diversas. Com crianças é o mesmo. Elas podem mudar o seu comportamento quando as datas festivas chegam. Cabe ao adulto observar essas alterações e estar preparado para ampará-las e acolhê-las, fazendo-as se sentirem seguras.

Enfim, como ressaltou o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, não importa se a família é formada por um pai e uma mãe, só uma mãe, só um pai, dois pais, duas mães, avós, tios, primos... O que realmente faz diferença para a criança é ter suporte emocional de um adulto.

Para ele, o importante é se ele ou ela “consegue atender às angústias do desenvolvimento deste bebê e desta criança, se consegue apresentar uma cultura, socializar, ofertar pertencimento a um grupo familiar e proteger essa criança das violências da vida o máximo que for possível. E isso pode ser feito por qualquer adulto”, conclui o psicólogo.

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