Incrível
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Quem foram Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo — mulheres cuja vida pessoal parecia ser mais turbulenta que suas próprias carreiras

Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo são conhecidas por lutarem pelos direitos das mulheres — estimulando o movimento feminista e a criação do Dia Internacional da Mulher. Apesar de suas conquistas profissionais e o legado deixado para as gerações futuras, seus relacionamentos pessoais não foram dos mais estáveis.

Nós, do Incrível.club, reabrimos os arquivos antigos e percebemos que a vida pessoal de grandes mulheres revolucionárias pode ser mais turbulenta do que se imagina. Acompanhe!

Clara Zetkin

sobrenome de nascimento de Clara era Eisner. Ela nasceu em 5 de julho de 1857, na Saxônia, em uma família de professores. Inteligente por natureza, Clara queria seguir os passos de seu pai. Ela se formou em Pedagogia, em Leipzig, onde também participou de uma reunião de jovens idealistas e conheceu o imigrante russo Ossip Zetkin, que chamou muito sua atenção. O rapaz falava de uma forma tão inspiradora sobre igualdade e fraternidade, que conseguiu conquistar a jovem Clara, de 18 anos.

Após um dos encontros, Ossip foi deportado da Alemanha, em 1880. Clara, então, passou dois anos procurando o seu amado e o reencontrou em Paris. Por conta de uma doença, ele não podia trabalhar integralmente, por isso Clara se empenhou em ajudá-lo com a mesma energia vigorosa, tão perceptível em seus discursos públicos. A propósito, foi a partir daí que ela ganhou o apelido de “Clara, a Selvagem”.

Ossip Zetkin.

O casal nunca registrou o relacionamento, pois Ossip considerava o casamento um produto da burguesia. Portanto, Clara apenas tomou o sobrenome do marido e deu à luz seus dois filhos, Maxim e Konstantin. Nessa época, ela trabalhava muito: além de governanta na casa de uma família rica, também foi lavadeira e dava aulas particulares.

Clara Zetkin com seus filhos, 1895.

Ossip fazia bicos com traduções e, no início de 1889, ficou seriamente doente. Em junho do mesmo ano, faleceu. Em seus 32 anos, Clara parecia muito mais velha fisicamente: cabelos grisalhos, mãos ásperas, coluna curvada. O trabalho duro e o pesar, pela perda de seu amado, esgotaram suas forças.

Mais tarde, Clara e seus filhos retornaram à Alemanha, sua terra natal. Aos 42 anos, Clara conheceu seu futuro marido — o artista e pintor Georg Zundel — enquanto trabalhava para o jornal Equality. Embora ele fosse 18 anos mais jovem, os dois se casaram. Zundel passou a receber muitos trabalhos e seus honorários permitiram ao casal, alguns anos depois, comprar a casa própria. Eles também conseguiram adquirir um dos bens mais caros da época: um automóvel.

Quinze anos mais tarde, em 1914, o pintor alemão anunciou que deixaria Clara por outra mulher. Após a separação, a ativista direcionou todo seu esforço à luta pelos direitos das mulheres. Foi nessa época que se tornou amiga de Rosa Luxemburgo. Aliás, Clara passou muitos anos tentando se vingar do marido e não deu seu consentimento para o divórcio. A separação foi oficializada somente em 1928, quando Zundel finalmente pôde se casar com Paula Bosch, sua amada de muitos anos.

Rosa Luxemburgo

Rosa Luxemburgo aos 12 anos.

Rosa Luxemburgo nasceu em Zamość, hoje território polonês, em uma grande e próspera família judaica (ela era a quinta e última criança). Aos 5 anos, Rosa teve um problema no quadril e precisou ficar de cama por um ano. Embora tenha conseguido superar a doença, uma de suas pernas cresceu mais do que a outra, e isso a deixou manca para o resto da vida.

A baixa estatura, a desproporção corporal e o passo manco foram alguns dos motivos para a garota desenvolver muitos complexos. Ela tentava esconder os traços físicos com longos e largos vestidos, além dos chapéus com abas. Até sua mãe, que a amava muito, dizia à Rosa, desde a infância, que ela deveria confiar apenas em si mesma e no seu potencial, pois, era pouco provável que se casasse.

Rosa estudou em Varsóvia, onde ficou fascinada pelas ideias de igualdade social, uma novidade na época. Sentiu-se acolhida pelos membros do movimento clandestino que valorizavam sua inteligência, habilidades oratórias e não ligavam para suas “imperfeições” físicas. De Varsóvia, ela se mudou para Zurique, onde defendeu sua tese. Rosa era vista por muitos como alguém especial, por ser uma das poucas mulheres no mundo com um Doutorado.

Desde criança, ela nunca esperou se casar. No entanto, após conhecer Leo Jogiches, Rosa se apaixonou loucamente pelo rapaz. Ela se abriu e lhe contou seus sentimentos, inclusive estar disposta a deixar sua carreira de lado, para ficar com ele.

Como resposta, Jogiches disse achar o casamento algo do passado, mas gostava de receber atenção de uma mulher tão respeitada por seus colegas. E ele demonstrou sentimentos recíprocos, mas deixou claro que queria um relacionamento aberto. Rosa, por outro lado, declarou em muitas cartas seu desejo de construir uma família.

“Oh, querido, meu amor, se ao menos você cumprisse sua promessa! Um pequeno apartamento próprio, uma biblioteca, passeios conjuntos, viagem de um mês para alguma vila a cada verão, sem nenhum trabalho. E, quem sabe, uma pequena, pequenina criancinha... Será que nunca terei esse prazer? Nunca? Ontem, em Tiergaten, uma criança de uns 3 ou 4 anos brincava aos meus pés. A primeira coisa que me veio à mente foi: pegá-la, correr para casa e mantê-la como se fosse minha. Ah, meu amor, será que nunca terei um filho?”

Leo Jogiches quando jovem, 1880.

Em suas cartas, Rosa repreendia seu amado por ser frio e preocupado demais com o trabalho. Eles não tiveram filhos. Os 16 anos de seu relacionamento foram marcados por ciúme e angústias, até o momento em que ela decidiu terminar a relação.

Em abril de 1897, a ativista se casou com Gustav Lübeck, filho de um amigo antigo, com o objetivo de conseguir a cidadania alemã. Eles nunca viveram juntos e se divorciaram oficialmente após cinco anos. E foi na Alemanha que Rosa conheceu Clara Zetkin.

Rosa, de 36 anos, acabou se aproximando do filho de 22 anos de Clara, Konstantin. Certa ocasião, o rapaz assistiu a uma das apresentações de Rosa com a mãe e ficou encantado. Apesar da diferença de idade, o romance deles durou oito anos. Nessa época, a relação das duas amigas ficou um pouco abalada.

Rosa Luxemburgo e Konstantin Zetkin, 1909.

O relacionamento com Konstantin Zetkin, de uma certa forma, acabou “matando a vontade” que Rosa tinha de ser mãe: ela muitas vezes o chamava de “pequeno Konstantin”. Após certo tempo, o rapaz conheceu outra mulher e se casou com ela. Depois disso, Rosa não teve outro relacionamento sério e passou a se dedicar exclusivamente às atividades sociais. E embora seus romances tenham terminado, ela manteve contato com Konstantin e Leo.

Amizade para a vida toda

Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo retomaram a amizade após se libertarem dos seus respectivos relacionamentos e, assim, decidiram se dedicar inteiramente à luta pelos direitos das mulheres. O lema principal das duas tinha como base suas experiências de vida: se quiser felicidade e respeito, vá em frente e lute para alcançá-los! Rosa era considerada por muitos uma feminista, como hoje o termo é compreendido, pois, considerava a emancipação das mulheres e a igualdade de gênero, partes integrantes dos fundamentos de uma sociedade saudável.

Clara viveu 14 primaveras a mais que Rosa. Em seus últimos anos de vida morou na Rússia e sempre se lembrava de sua amiga. No dia em que faleceu, Clara já estava com dificuldade para falar, mas, acredita-se que uma de suas últimas palavras tenha sido “Rosa”.

Na sua opinião, a vida pessoal dessas mulheres incríveis acabou influenciando o legado deixado por suas carreiras? Comente!

Imagem de capa Unknown / Wikipedia
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