Incrível
Novo Popular
Inspiração
Criatividade
Admiração

Um fotógrafo compartilhou histórias sobre casamentos e ensaios (e alguns são verdadeiros roteiros para um filme de comédia)

7-32
12k

O dia do casamento é um dos dias mais importantes na vida de uma pessoa, por isso é tão significativo fotografar tudo para ficar eternizado em forma de foto. A internet está cheia de registros desses momentos, com a natureza de fundo e famílias unidas em belos cenários. Mas poucas pessoas sabem o que acontece por trás das fotos perfeitas. E apenas estando por trás das lentes é que você pode entender quanto vale esse momento.

Nós, do Incrível.club, estávamos interessados na arte dessa profissão tão difícil de fotógrafo. Por isso, convidamos o fotógrafo profissional, Alexander Fairuzov, para compartilhar os bastidores e histórias sobre casamentos e ensaios fotográficos.

Sobre clientes exigentes

Um casal me contratou para o casamento, e desde o começo ficou bem evidente que todo o processo de organização do casamento era controlado pela noiva. Durante a reunião, o noivo ficou o tempo todo sentado em silêncio, enquanto a futura esposa falava que ele estaria livre o dia todo para o ensaio fotográfico. Antes de ir para o cartório onde o casamento seria realizado, tínhamos 6 horas livres para fazer as fotos. Eu disse que era muito tempo, e que 3 horas seriam suficientes, mas qualquer um que tentasse reduzir o tempo do ensaio receberia a mesma resposta da noiva “quero muitas fotos”. Não ia ter filmagem do casamento, então a noiva disse que esperava pelo menos 2.000 fotos minhas.

No dia do casamento, tiramos fotos em todos os pontos designados. Já tinham se passado 3 horas, todo mundo já estava cansado e o noivo sugeriu pausarmos para comer algo e tomar um café. Todo mundo concordou, menos a noiva. Continuamos por mais uma hora, e o noivo já não queria mais posar para as fotos. Para piorar, nesse dia fazia 29 °С. Quando mais uma vez o sujeito concordou com relutância em posar, a noiva começou a ficar histérica: “Por que você está tão preguiçoso?” “Para quem eu organizei isso tudo?” “Você não quer fotos bonitas?” “Por que pagamos tanto dinheiro ao fotógrafo, se você não se importa?” O ataque histérico da noiva, trouxe o noivo de volta à vida.

No penúltimo cenário que ela escolheu, o cara disse que não estava mais a fim de tirar foto. A mulher teve outro ataque de nervos, mas dessa vez não funcionou. Aqui um breve diálogo que eles tiveram:

Noiva: “Você não quer ser fotografado?”

Noivo: “Não”.

Noiva: “Tem certeza disso?”

Noivo: “Sim. Estou cansado”.

Noiva: “Então podemos não ir ao cartório também?! Já que você está cansado”.

Noivo: “Não vamos, então”.

E o cara se virou e saiu. Estavam com a gente, uma amiga da noiva e um amigo do noivo, que correu atrás dele, mas depois não vimos nenhum dos dois. A noiva ficou com tanta raiva que foi andando até o cartório, não pelo casamento, mas pelos convidados da festa. Todas as tentativas de contatar o noivo ou amigo falharam. Chegando lá, ela mentiu para os convidados dizendo que o noivo estava doente, mas todos entenderam que ele tinha deixado o casamento. Eles resolveram não cancelar a festa e o banquete. No início, parecia um velório, mas o carisma e profissionalismo do anfitrião e o álcool trouxeram as pessoas de volta ao humor de celebração. A noiva e o noivo nunca se casaram, e no fim ela ainda não queria me pagar, mas eu tirei mais de 2.000 fotografias.

Sobre pedidos incomuns

É bem difícil eu me ofender por algo, mas não impossível. Isso aconteceu em uma das reuniões com potenciais clientes. Aceito minha aparência, eu me considero gordo e frequentemente brinco com isso. Como você deve imaginar, apenas pessoas gordas têm o direito de fazer brincadeiras sobre estar gordo. É como pessoas negras que brincam entre si, com pessoas gordas é a mesma coisa. Com isso, você já deve imaginar que a história gira em torno da minha cintura nada esbelta.

Tudo começou com uma ligação: “Gostei das suas fotos, queremos que você faça nosso casamento. Os preços são bons, vamos nos encontrar”. Um dia depois estávamos sentados em um café discutindo os detalhes; falei sobre o ensaio, e no final, perguntei se eles tinham alguma pergunta. A garota hesitou por um longo tempo, mas no fim perguntou: “Tudo está perfeito e combina comigo, mas há um pedido. Você poderia perder peso para o nosso casamento?” Olhei para o namorado dela, que escondeu o rosto de vergonha; tentei rir, mas a garota continuou séria. Aparentemente ela é uma treinadora fitness, talvez quisesse fazer uma permuta. E ela continuou: “teremos apenas pessoas magras no nosso casamento, e não gostaria de ver um homem gordo”. Eu arrumei minhas coisas, e sugeri a eles que arrumassem um fotógrafo magro e fui embora.

Poucos minutos depois, recebi uma ligação do namorado dela, pedindo para eu voltar, que eles estavam satisfeitos com o preço e a qualidade das fotos. Ele pediu desculpas pela situação e disse que estavam bem com o meu peso. Respondi que não me importava em fotografar o casamento dele, mas tinha um pedido: ele devia mudar de noiva. Desliguei o telefone e coloquei os dois números na lista negra.

Sobre clientes incomuns

Um cliente me ligou e pediu para eu tirar fotos de uma família. Ele me falou que eles moravam em uma vila, e que seria a primeira vez que seriam fotografados. Os clientes eram mãe e filho; tentei dar alguns conselhos sobre fotografia, mas vi que não ajudaria em nada. O valor acordado foi transferido para a minha conta, e no dia marcado, fui para o local combinado. A vila não era muito longe, cerca de 40 km, logo na entrada vi uns locais interessantes para usar de cenário.

Cheguei, um homem veio me receber e disse que a família estava esperando no campo. Sem problemas, entrei na caminhonete dele e ele dirigiu até o local. No lugar, não havia ninguém além de um rebanho de vacas. Perguntei onde estava a família que eu iria fotografar, e ele me levou até uma vaca e um bezerro. “Aqui está”, ele disse, “mãe e filho”. Fiquei em silêncio por um longo tempo. Depois perguntei o porquê de ele precisar de um fotógrafo profissional para isso, se eles podiam usar uma câmera normal ou um celular. Os camponeses disseram que precisavam de fotos profissionais para uma campanha publicitária, mas por alguma razão, os fotógrafos se recusavam a tirar fotos de vacas ou exigiam muito dinheiro quando ouviam a palavra “publicidade”. Eles tinham poucos recursos, porque obtiveram empréstimos para começar a criação e não havia fundos extras.

Eu não me recusei a fotografar. Depois da sessão de fotos, eles me deram todo tipo de comida. Os criadores gostaram tanto do trabalho, que depois ainda fiz outros trabalhos com eles várias vezes. No entanto, desde então, eles sempre especificam se vou trabalhar com pessoas ou não. E agora sempre pergunto aos meus outros clientes também.

Sobre ensaios fotográficos gratuitos para conhecidos

Em um belo dia de primavera, uma jovem me telefonou e disse que um parente meu tinha dado meu número e que ela precisava de um fotógrafo para o casamento dela. Fico sempre feliz em atender aos meus clientes; descobri a data (eu estava livre) e falei o meu preço com um pequeno desconto. A garota ficou surpresa e disse: “Você não me ouviu? Sua amada tia que me falou de você. De que dinheiro você está falando?” E nesse momento, eu que fiquei surpreso e perguntei o que foi prometido pela minha tia. Ela garantiu que a filmagem e as fotografias seriam totalmente gratuitas, porque eu sou um bom garoto e comi muitas panquecas na casa dela na infância.

Eu recusei, e ela não aceitou muito bem. Uma hora depois, minha mãe me ligou rindo, dizendo que minha tia ligou para ela e perguntou: “Como assim, seu Sasha cobra para tirar fotos? Como isso é possível? A filha do meu amigo ficou muito aborrecida”. Minha mãe respondeu que “Meu filho não fotografa de graça; esse é o trabalho dele”. Desde então, eu e minha mãe somos considerados ingratos e não é recomendável entrar em contato conosco para pedir ajuda.

Sobre a relação com cerimonialistas

Um dia tropecei acidentalmente nas cortinas enquanto fotografava um casamento. Essas cortinas eram tradicionais e luxuosas, e não só cobriam as janelas, mas caíam pelo chão. Não podíamos nem tocar nelas. Se alguém pisava na cortina, a cerimônia era interrompida e uma reclamação era feita. Não tive muita sorte, estava dando uns passos para trás enquanto fotografava e pisei nessa cortina, derrubando uma das argolas. O cerimonialista falou raivosamente: “tenha cuidado!” Pedi desculpas, e disse que viria depois consertar a cortina. Então, em um sábado, fui lá e fiz tudo que prometi.

Um mês se passou, e eu tive mais um casamento nesse mesmo cartório. Entramos no salão, fomos recebidos pelo mesmo cerimonialista. Quando me viu, ele disse que não poderia entrar no salão principal porque ele já tivera um incidente comigo. Caso insistissem, não haveria casamento. Tentei conversar com ele, mas não adiantou nada — ele manteve sua posição.

Os convidados e os noivos, depois de ouvirem minha versão da história, ficaram do meu lado. E somente após a intervenção do chefe do cartório, foi que fui permitido entrar. Ouvi a conversa entre o cerimonialista e o chefe através da porta, e ele disse: “Nós precisamos bani-lo daqui”, e o chefe respondeu: “Você percebe que estaríamos violando a lei”. É claro que estragou o clima e desperdiçou nosso tempo, mas depois, os noivos até brincaram que foram fotografados por um criminoso. Já trabalhei com esse cerimonialista várias vezes. Ele não me cumprimenta e já interrompeu outra cerimônia porque eu estava andando pelo corredor e eu deveria voltar ao local “permitido” por ele.

Sobre fotografar em Paris

Quem não sonha em ganhar uma viagem? Eu tenho uma lista de lugares que fotografaria de graça se os clientes assumissem todos os custos: Paris, Roma, Viena, Nova Iorque entre outros. Uma vez uns clientes me pregaram uma peça, e funcionou.

A noiva me ligou dizendo que eles iam se casar em Paris. Eu já estava pronto para viajar, e até falei que faria de graça, só precisavam pagar os custos. Combinamos de nos encontrar. Fiquei muito feliz, imaginando que em breve publicaria fotos incríveis da capital francesa no meu portfólio e isso aumentaria o número de clientes. Além disso, já estava com meu passaporte pronto, só precisava fazer a mala. No dia da reunião com os clientes, eu falei imediatamente que eles não precisariam se preocupar com o visto, e eles ficaram perdidos. Para que visto? São só 300 km, daremos dinheiro para gasolina e providenciaremos uma cama na casa dos nossos parentes.

Aconteceu que o casamento não seria na cidade de Paris, na França, mas sim em uma vila de mesmo nome, onde os noivos moravam. Não tinha muito o que discutir, ele falou apenas Paris, mas não especificou que seria na França. E na região que eu moro, realmente existe uma vila com esse nome. Eu não recusei fazer o casamento, pedi apenas um hotel em uma cidade próxima. O casamento foi perfeito, mas depois disso eles me falaram que perceberam que eu tinha entendido que era a capital francesa em vez da vila, mas que queriam tentar a sorte. E conseguiram.

Sobre uma experiência tocante

Uma garota me ligou pedindo para trabalhar no casamento de um amigo. Pelo telefone, ela avisou que seria um casal incomum. Combinamos de nos encontrar em um café, ao chegar lá, vi três pessoas. Eu cheguei, cumprimentei todos e entendi que o casal de noivos era cego. Então, a menina que me ligou levantou e explicou toda a situação. Fiquei em silêncio por um tempo — simplesmente não sabia o que dizer. Seria minha primeira experiência fotografando pessoas cegas.

O silêncio embaraçoso foi quebrado pela noiva. Ela disse que se chamava Anna e o noivo Peter, e sua amiga Lena, com quem eu conversei por telefone, que havia me escolhido. Ela me explicou que as fotografias seriam necessárias, primeiramente, para seus futuros filhos, para que eles vejam o casamento dos pais. Eles confiavam na amiga, que me selecionou entre vários fotógrafos. O problema maior seria minha habilidade de trabalhar com pessoas cegas; seria um desafio. Anna e Peter me pediram para não colocar o trabalho no meu portfólio, porque eles não queriam publicidade, e muitos fotógrafos pediram uma taxa adicional por esse serviço. No final, Anna brincou dizendo que se alguma coisa acontecesse, eles não ficariam chateados, porque não veriam meu fracasso.

Conversamos por mais de duas horas, eles ficaram felizes com tudo e fecharam o contrato comigo. Foi realmente um casamento difícil e desafiador. A cada momento que íamos fotografar durava mais que o normal, mas tive uma experiência muito tocante em como explicar para eles o que eu quero obter deles. Cometi algumas gafes — quando trabalho com casais, muitas vezes peço que olhem um para o outro ou para algum outro lugar — esquecia das condições deles e imediatamente começava a me desculpar, mas Anna e Peter tiravam sarro de mim e me deixavam mais tranquilo. Eu tive muita ajuda dos pais deles e da Lena, que ajudaram em todos os aspectos no ensaio. Eles gostaram de tudo. Nós trabalhamos juntos várias vezes. Eles têm uma filha linda e uma família feliz.

Sobre um presente de aniversário inesperado

Estava fazendo fotos em uma escola, e um garoto veio até mim perguntando quanto custava uma hora de trabalho, falei o valor e ele ficou chateado. Ele me contou que sua mãe iria fazer aniversário, e ela tinha o sonho de fazer fotografias da família, então ele pensou que poderia dar um ensaio de presente a ela, mas não tinha dinheiro suficiente. Perguntei quanto ele tinha, e ele tinha juntado 1.200 rublos (aproximadamente 76 reais). O desejo do menino era comovente, então concordei em tirar as fotos. Pedi o número da mãe dele, mas ele tinha uma condição: não contar nada a ela, era surpresa.

No dia marcado, fui ao endereço, liguei para o garoto e ele correu para a abrir a porta da entrada. Nós entramos no apartamento, e ficou claro para mim que era uma família simples. Em uma mesa grande, estava toda a família e os parentes que olharam surpresos para o estranho e o menino. O garoto anunciou que eu era o presente para a mãe. Todo mundo ficou sem entender nada, principalmente o pai. Então falou que a mãe sonhava em tirar fotos da família, e ele comprou uma sessão de fotos para ela.

A mulher ficou emocionada, e os parentes elogiaram o menino. Depois disso, resolvemos que iríamos para a praça perto da casa, onde tirei fotos de todos. O garoto manteve sua palavra: no final da sessão de fotos, ele me entregou o dinheiro. Não aceitei, embora a família quisesse me pagar o valor integral pelo trabalho. Eu disse para o garoto comprar flores para a mãe. Não existem muitas histórias em que crianças realizam os sonhos dos pais, então me senti comovido com a deles.

Quem você acha que sofre mais durante o processo de fotografar o casamento, os noivos ou o fotógrafo?

7-32
12k