Incrível
Incrível

Por que acredito, ao contrário dos meus pais, que tirar só as melhores notas na escola pode ser prejudicial

Muitos pais sonham que seus filhos sobressaiam nos estudos: que os professores tenham orgulho, que os colegas de classe os respeitem, que os parentes os admirem. No entanto, não se fala muito sobre o que significa viver uma vida “nota 10”. Não é apenas ter habilidades brilhantes, uma ótima memória e espírito de competitividade, mas também acumular muito estresse, ter medo de cometer mínimos erros e sustentar um profundo sentimento de desespero.

Meu nome é Olga e, especialmente para o Incrível.club, quero compartilhar com os leitores as dificuldades pelas quais passei ao ser uma aluna exemplar.

“Se estudar mal, não conseguirá um bom emprego”

Eu sempre fui uma das melhores alunas. Do 1º ao 11º ano. De forma geral, sempre tive muita facilidade com os estudos e, rapidamente, percebi que tinha mais interesse nas matérias de humanas. Então, no 4º ano, pela primeira vez fiquei com 9 no meu boletim em informática. Quando cheguei em casa e dei essa “ótima” notícia à minha mãe, ela suspirou fundo e, com a voz bastante irritada, disse: “Se estudar mal, não conseguirá um bom emprego”. Naquele momento, senti que havia decepcionado a todos, e isso teve um grande impacto na minha autoestima. Passei o resto dos anos escolares chorando por conta de pequenos erros em provas e pensando que não conseguiria nenhum trabalho de alto nível no futuro.

Não há margem para erro

Sendo sincera, alunos “nota 10” não veem erros como forma de aprendizado. Para eles, tirar uma nota baixa é como um assinar um atestado da própria estupidez e incompetência. É ainda mais difícil não pensar dessa forma quando, em resposta a uma nota ruim, seus pais e professores jogam as mãos para o ar e balançam a cabeça: “Nossa, mas você é tão inteligente e tirou essa nota?! Como pode?! Por que não se esforçou mais?”

Alunos estudiosos não têm muita margem para erro, especialmente nas matérias em que se consideram melhores. Quando eu estava no 8º ano, escrevi uma letra errada durante um ditado. Então a professora riscou o papel com caneta vermelha e escreveu em letras garrafais: “Vergonhoso!” Fiquei com tanta vergonha na hora de voltar para casa que fiquei sentada no pátio por algumas horas antes de sair e depois joguei o caderno no lixo. Preferi mentir que o havia perdido a confessar e mostrar o meu fracasso.

Notas já não são uma prioridade para mim, mas ainda tenho medo de cometer erros: não só nos estudos, mas também no trabalho e na vida. Qualquer falha me causa um sentimento de vergonha e autocondenação. A sensação de ser “medíocre” e um “fracasso” é tão insuportável, que, muitas vezes, fujo dos meus medos e entro na procrastinação. Por conta disso, começo imediatamente a me culpar.

De “ótima aluna” para “daqui a pouco vai reprovar” é um pulo

No 10º ano, comecei a ter sérias dificuldades com física, com todos aqueles problemas de “corpos” abstratos, “bolas” suspensas no ar a certa altura, fótons, elétrons... Esse tema ainda é bastante incompreensível para mim. Não importava o tempo que passasse estudando, eu não conseguia entender nada. No máximo, era capaz de memorizar fórmulas e parágrafos do livro.

O problema é que era impossível convencer minha mãe de que eu não digeria a física. “Você só não quer se esforçar, está com preguiça”, dizia ela com tom reprovador. Quando tirei duas notas medianas em sequência, houve um escândalo em casa: “Daqui a pouco, vai ser reprovada! Ficará sem emprego e só terá más companhias”. Para me proteger, confrontei meus pais, saí bufando de casa e não fui à escola. Na verdade, eu não queria nem faltar às aulas, nem sair vagando por lugares estranhos. Mas os sentimentos de culpa e impotência eram tão grandes que realmente precisei liberar aquelas emoções.

De alguma forma, consegui ajeitar minhas notas depois. Minha professora de física, uma vez, notou a minha dificuldade e veio falar comigo: “Você está tentando se formar com honras, certo? Posso lhe dar uma nota boa, mas prometa que irá se esforçar nas outras matérias, tá?” Então, posso afirmar que uma das minhas notas no boletim não foi muito justa.

Não há “quero” ou “não quero”, mas apenas “preciso”

Em sua maioria os melhores alunos da minha turma, assim como eu, não faziam ideia do que iriam fazer profissionalmente após a formatura. É difícil descobrir sua paixão quando, a julgar pelo boletim, você se destaca em todas as matérias. Os anos de estudos para tirar boas notas atrapalham nossa habilidade de ouvir a nós mesmos: “Gostando ou não, é preciso estudar”. No 11º ano, eu me sentia tão farta de conhecimento que só queria deitar no sofá sem fazer nada nas horas vagas. Mais tarde, entrei para a universidade não porque estava morrendo de vontade de estudar algo profundamente, mas apenas porque tinha de fazê-lo. Tinha, e pronto.

O hábito de passar por cima dos meus próprios sentimentos para fazer o que “devia”, mesmo não querendo, ainda está presente na minha vida hoje. Isso se aplica tanto ao trabalho quanto às relações interpessoais. Mesmo que os deveres e as interações sejam exaustivos, parece que se você for paciente e fizer um pouco mais de esforço, tudo dará certo. Contudo, na vida adulta, essa lógica não funciona. Felizmente, o corpo reage a essas influências imediatamente, causando problemas de saúde ou induzindo à procrastinação.

Tudo que é valioso é obtido por meio de esforços

Hoje em dia, as pessoas dão muito valor ao estereótipo de que “tudo que vem com esforço, tem mais valor”. Com base nisso, seria preciso se esforçar e penar regularmente: no trabalho e nos estudos. Somente as pessoas mais negligentes e preguiçosas se dariam o direito de viver a vida levemente e sem preocupações.

Desde os anos escolares, eu tinha o hábito de direcionar meus esforços para aquilo que tinha mais dificuldade: a prática faz a perfeição, não é? Durante muito tempo, essa mentalidade me impediu de encontrar um emprego de que eu realmente gostasse. Afinal, se uma atividade me traz felicidade, e o processo satisfação, então não seria um trabalho, mas sim uma diversão. Na realidade, porém, uma verdadeira vocação não deve causar resistência interna nem sentimento de culpa. Eu só entendi isso após anos trabalhando com algo de que não gostava, e só de relembrar essa época já sinto aversão.

Ser a melhor aluna significa fazer parte da minoria

Muitos alunos estudiosos têm problemas de socialização. Em vez de conversar com os amigos ou brincar no pátio, muitas crianças passam a maior parte do tempo fazendo as lições de casa e estudando mais um parágrafo do livro para a tarefa do dia seguinte.

Por sorte, eu não tive esse problema. No entanto, sempre sentia que, para meus amigos, eu era uma espécie de Wikipédia ambulante. Durante as provas, todos se sentavam ao meu lado para copiar as respostas e, assim que o sinal tocava iam embora rapidamente. Após me formar, mantive apenas poucos amigos de verdade. Mas até hoje me lembro daquele sentimento amargo — de quando se aproximam de você por interesse próprio, e não por sinceridade.

É preciso merecer para ter bons relacionamentos

As notas altas eram recebidas como de se esperar, mas os “oitos” e “setes” eram vistos como um desvio da norma. Minha mãe acreditava que se me elogiasse pelas boas notas eu relaxaria e não me empenharia mais. Com o tempo, criei um reflexo: prestar atenção apenas nas observações negativas e ignorar qualquer palavra de incentivo. Na fase adulta, ainda não sei receber elogios e nem me encorajar por uma conquista.

O desejo de ser “a melhor” aos próprios olhos e aos alheios me instigou o hábito de querer atender às expectativas dos outros. Na maioria das vezes, da minha mãe (subconscientemente): “Não me importa que os outros tiraram notas baixas. Minha filha não é como todo mundo”. Após me formar com honras na escola, ainda não consigo parar de me importar com a opinião externa e me permitir errar. Era muito difícil compreender que as pessoas podiam ser amadas por nada e que não era preciso ser a mais inteligente, produtiva, prestativa, eficiente.

É claro, há vantagens em ter excelência escolar. Graças às clássicas “decorebas”, tenho uma ótima memória, os livros que li me ajudaram a expandir meu vocabulário e talvez eu tenha mais inclinação de alcançar meus objetivos, pois estou acostumada a aplicar esforços desumanos. Porém, definitivamente não incentivarei meu filho a agir da mesma forma e não o assustarei com ameaças infundadas por conta dos estudos. A única motivação para estudar bem é a vontade própria, não o desejo de agradar aos pais ou o medo de se tornar um fracassado.

E como você estudava na escola? Sabe qual foi o destino que tomaram seus colegas mais estudiosos? Compartilhe com a gente!

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