Incrível
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“Mãe, não preciso disso”, um texto sincero sobre como eu cumpria todos os caprichos do meu filho, mas algo deu errado quando ele cresceu

Existem opiniões controversas sobre se ceder aos filhos é uma postura correta e sobre como ensiná-los a administrar o dinheiro. Alguns acreditam que é possível evitar vários problemas fazendo a criança andar na linha, outros estão confiantes de que dar liberdade ao pequeno e satisfazer todas as suas vontades é a melhor decisão que os pais poderiam tomar.

Ksenia, autora do blog “Rabo do gato” e mãe de três filhos, faz parte do segundo grupo. Segundo ela, dizer o famoso “não” pode ser mais prejudicial do que saudável para a vida de uma criança. Com sua permissão, o Incrível.club publica suas reflexões sobre os frutos e desafios do caminho que ela escolheu para criar seus meninos.

“Se ele te pedir um iPhone e um carro, você também vai comprar?” Essa pergunta, que aparentemente deveria me fazer repensar os meus conceitos, eu ouço toda vez que alguém descobre o meu costume de dar aos meus filhos tudo o que querem. Meus gestos de generosidade me causaram apenas um problema, que não tem nada a ver com a crença de que eu “estrago” os meus garotos. Pelo contrário, eu simplesmente não sei mais quais presentes dar a eles. Sendo honesta, se existem recursos financeiros, não vejo problema em comprar outro carrinho de brinquedo, por exemplo, nem que seja de aparência ridícula e igual aos outros 100, comprados recentemente.

Meu filho mais velho, Stas, vai completar 15 anos daqui a duas semanas. Quando ele era menor, eu o buscava no jardim de infância e a gente ia para uma loja de brinquedos todos os dias, para comprar tudo o que o pequeno queria. Normalmente eram carrinhos de brinquedo. Stas tinha uma coleção deles, mas sempre pedia mais. E o pedido dele era uma ordem.

Me lembro de uma grande Lamborghini verde de controle remoto que comprei para ele porque seu colega havia se gabado de ter um brinquedo parecido. Depois, Stas recebeu um console de presente quando estava internado no hospital. A única coisa que eu queria era animar seus dias cinzentos com um mimo. Outro dia, em uma festa natalina no jardim de infância, ele ganhou doces e perguntou se a família do meu marido, que estava lá, queria alguns. Depois de um “sim”, ele disse: “É só pedir ao Papai Noel” e escondeu seu presente.

A partir dos 10 anos, seu comportamento mudou. Cada vez mais ele abre mão de coisas caras, não importa o quão forte seja sua vontade de comprá-las. Me lembro de ouvir um sermão do meu próprio filho por ter comprado um cinto caro demais para ele. Só que eu nem tinha olhado o preço, apenas queria um cinto com buracos suficientes para poder prendê-lo em um adolescente tão magrinho que dava para ver os ossos. Mas isso não é tudo. Desde aquela época, o garoto vem com uma resposta pronta quando pergunto o que ele quer ganhar de presente no aniversário: “Mãe, não preciso de nada, já tenho tudo”. E é aí que está o problema.

O aniversário de 15 anos dele está chegando, mas eu não faço a mínima ideia do que comprar de presente. O pior é que não sou muito criativa. Se o aniversariante me disser que não preciso dar nada, não vou dar nada mesmo. Minha família e amigos sabem disso, por isso não esperam surpresas de mim. Enfim, faz duas semanas que o Stas está pensando no que gostaria de ganhar; por enquanto, sem sucesso. Ao contrário do que muitos pensam, ele não quer um iPhone nem um carro. Quando me vê quebrando a cabeça com o meu carro falhando várias vezes por semana, sempre diz: “Por que não vende o carro e anda de ônibus?” O que o Stas mais quer no momento é aprender japonês. Estou disposta a pagar suas aulas, mas não sei se isso seria um bom presente de aniversário.

“E você não quer começar a guardar dinheiro? Pode ser que o meu celular quebre, daí você vai poder comprar um novo para mim”, disse ele ontem. Perguntei se o seu celular estava dando problemas. “Não, mas nunca se sabe quando pode acontecer”, respondeu. “A gente vai comprar um celular novo quando o seu quebrar e ponto. Guardar dinheiro não é um presente de aniversário”, comentei. Em seguida, ouvi um suspiro: “Bem, não preciso de nada então, já tenho tudo”.

Enfim, algo deu errado no meu método de criação. Em vez de crescer um adolescente caprichoso, meu filho, mimado na infância, virou um garoto que procura economizar dinheiro. E deixar o menino sem presente pelo terceiro ano seguido já é demais até para uma pessoa avarenta como eu.

A pergunta é: o que dá para comprar de presente para um jovem que vai fazer 15 anos? O que seus filhos queriam ganhar de presente quando tinham essa idade?

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