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“Se eu competisse com o meu enteado, iria perder.” A história da madrasta que encarou as próprias limitações e construiu uma linda relação com o enteado

A figura da madrasta na sociedade é cercada de estereótipos e preconceitos. Diversas mulheres e crianças sofrem por não saberem ao certo seus lugares na vida um do outro, mas, com paciência e apoio, madrastas e enteados podem construir um relacionamento sólido, único e cheio de amor, que transcende os papéis familiares tradicionais. Hoje, trazemos a história de uma madrasta e seu enteado que ganharam os corações um do outro e construíram um relacionamento muito especial. Confira!

Juntos há 14 anos, Raquel Charchat e o marido compartilham quatro filhos, sendo o mais velho, Gabriel, enteado de Raquel. Ela afirma que o papel de mãe e madrasta são os mais importantes de sua vida, e credita parte do sucesso que teve em seu relacionamento com Gabriel à sua mãe: “Minha mãe me disse, quando soube que meu namorado tinha um filho: ’Não entre numa de competir com ele: você vai perder’”.

Raquel, com 24 anos na época, percebeu bem rápido que precisava se conformar com o segundo lugar em seu namoro e que perderia mesmo muita coisa se competisse com Gabriel. Logo, ela foi percebendo que o menino, aos 5 anos, lidava melhor com frustrações do que ela e começou a sentir a necessidade de mudar: “O Gabriel veio na minha vida para me ensinar muito”.

Raquel fala sobre as dificuldades de ser madrasta: “É um papel ingrato, especialmente quando você mora com seu enteado. Você não tem como ficar à parte da educação da criança totalmente, mas também não pode tomar a educação dela para si. Você acha que vai ter o fim de semana todo com o seu marido porque seu enteado está com a mãe, e ele liga no sábado à noite pedindo para voltar para casa”.

Apesar dos desafios que enfrentou no início, Raquel afirma que tudo vale a pena: “Eu não perdi. A força do afeto tem me ganhado todos os dias”. Hoje, como mãe de três, Raquel encara diversas coisas diferentes do que costumava, e o amadurecimento a fez alcançar um entendimento muito mais amplo das demandas e necessidades de uma criança. Nossa equipe conversou com ela sobre os altos e baixos de ser madrasta. Confira!

Raquel Charchat / Arquivo Pessoal

1 — Você sempre quis ter crianças em sua vida?

Sim, eu sempre quis ser mãe. Eu não era daquele tipo de pessoa supermaternal desde pequenininha, mas sempre gostei de crianças e não ter filhos nunca foi uma possibilidade.

2 — Você convivia com outras mães ou madrastas quando começou a se relacionar com o seu marido? Teve ajuda no processo de se tornar madrasta?

Na época, eu tinha 24 anos e não me lembro de ter sequer uma amiga que fosse mãe, muito menos madrasta. Então, as mães com as quais eu convivia eram mulheres mais velhas, como minha própria mãe e minhas tias. A única referência de madrasta que eu tinha era de uma namorada que meu pai teve por muito tempo, mas com quem ele não chegou a casar. Eu tinha convivência com os padrastos das minhas primas (meus tios).

Da namorada do meu pai, eu me lembrava como não proceder com uma criança (não por ela ser má ou algo assim, mas porque ela era muito distante). Dos meus tios, eu aprendi que essa relação poderia ser maravilhosa. Eles eram muito envolvidos com as minhas primas, e elas tinham (e têm) muita consideração por eles. E era assim que eu queria ser.

Mas a ajuda do dia a dia, de resolução de situações que apareciam, veio mesmo da minha mãe. Ela me chamava à realidade na maioria das vezes. Os conselhos e conversas com ela foram essenciais.

3 — Como foi sua relação com o seu enteado no início?

Sempre foi uma relação muito boa. Na primeira vez que ele me viu, me deu a mão para passear e ganhou meu coração. Ele não tinha nem 4 anos nesse dia. Digo que minha relação tão boa com ele é mais mérito dele, do que meu. Ele sempre foi muito tranquilo (até hoje, aos 17 anos), e isso facilitou muita coisa.

Claro que houve momentos mais difíceis, em que precisei ter sabedoria e gerenciar meus sentimentos. Mas o problema nunca era nada que ele fazia de errado, mas o simples fato de ser uma criança, que, obviamente, tinha demandas que necessitavam ser atendidas.

Raquel Charchat / Arquivo Pessoal

4 — Se tornar mãe impactou o seu relacionamento com o seu enteado?

Quando minha primeira filha nasceu, eu entendi muitas coisas que aconteceram anos antes ou que ainda aconteciam na época. Eu entendi posicionamentos do meu marido, conselhos da minha mãe, comportamentos da mãe do meu enteado e, ao longo dos anos, fui percebendo que vários comportamentos que ele tinha que me desagradavam eram comuns a todas as crianças, inerentes à idade e à imaturidade delas. Aí, ficou mais fácil exigir menos dele.

5 — Você enfrenta desafios hoje em dia como madrasta?

Hoje, meus desafios como madrasta são mínimos. Sou madrasta do Gabriel há 14 anos, já o conheço muito bem e já moldamos nossa relação. Ele é um adolescente que não dá trabalho nenhum, de verdade. As coisas que me incomodam nele são as que todo mundo enfrenta com adolescentes: a bagunça no quarto, não colocar objetos no lugar certo, dizer que vai fazer alguma coisa e acabar não fazendo.

Mas isso não representa sequer um desafio. O maior desafio mesmo é como nossa sociedade vê a figura da madrasta. No início, eu sentia que todos estavam aguardando para ver como eu me comportaria com meu enteado. Eu tomava muito cuidado para não fazer nada que a família do meu marido pudesse interpretar como prejudicial ao Gabriel. Eu tinha bastante medo de errar e estragar tudo. Mas o tempo foi mostrando as minhas intenções com ele e depois eu já não me sentia assim.

6 — O que você diria para outras mulheres que se tornaram madrastas recentemente?

Que elas tenham sabedoria. Que elas consigam entender que existe uma criança ou adolescente que depende daquele pai, que necessita dele emocionalmente, financeiramente, para buscar/levar, para comer, para brincar... sejam aliadas de seus companheiros nessa jornada, e não um peso. Portem-se como as mulheres adultas que são e vocês ganharão a admiração de seus companheiros e o amor de seus enteados.

Parentalidade é algo fluido e, hoje em dia, existem diversas configurações de família e nenhum papel deveria ser menosprezado ou invisibilizado. Madrasta não é mãe, mas sua figura é muito importante na vida das crianças, sendo essencial que madrastas e seus enteados sejam encorajados a desenvolver seu relacionamento único sem barreiras criadas por outros parentes, ou por eles mesmos.

Se você precisa de ajuda para lidar com sua criança, seja ela sua filha ou não, busque apoio profissional ou em alguém que você confie, e estude. Hoje, existem diversos materiais educativos disponíveis acerca de criação de filhos. Lembre-se que o adulto é você, e é você que precisa ter autocrítica e proatividade quando se trata de nutrir um relacionamento saudável com a sua criança.

Imagem de capa Raquel Charchat / Arquivo Pessoal, raquelcharchat / Instagram
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