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Como optei pela “educação familiar”, e por que não recomendo o mesmo para todas as crianças

Nos últimos 3 anos, na Rússia (onde moramos), o número de crianças que passaram a estudar em casa aumentou em quase 3 vezes. Você tem curiosidade de saber o que passa na cabeça de uma mãe ou pai que decide tirar sua criança da escola e ensiná-la em casa?

Oi, meu nome é Julia e eu sou uma dessas “mães educadoras”. Estou pronta para dividir com os leitores do Incrível.club minha experiência, como eu decidi tomar essa decisão e quais as conclusões que posso tirar depois de um ano educando meu filho em casa.

“Você se lembra de como tudo começou?”

Há 7 anos, eu nem sequer pensava na possibilidade de ter uma “escola” em casa. Colocamos nosso filho na “nossa” escola. A mesma escola que eu e minha irmã mais nova estudamos quando éramos pequenas, e que foi um lugar onde criamos muitas memórias lindas.

A escola não era difícil para a criança, mas para mim sim. Desde os primeiros dias eu notei que se meu filho quisesse obter êxito em seus estudos, ele precisaria de controle constante. As exigências dos professores eram tão altas que seria impossível para qualquer criança passar sem a ajuda dos pais. Por isso, nós (incluindo a vovó e o vovô) tínhamos que ajudar a fazer os trabalhos. Como aquilo me irritava! Nós passávamos noites fazendo artesanato, colando fotos, e corrigíamos a caligrafia nos finais de semana. Além disso, havia brigas constantes no grupo dos pais do Whatsapp, normalmente por causa de dinheiro. Reclamei com meu marido sobre isso, e ele deu a ideia de pagarmos por um professor particular. Claro, a melhor época de fazer isso é no começo das aulas.

No início do 4º ano não estava totalmente satisfeita com o andamento do aprendizado. Estava ponderando o que eu devia mudar: sala, escola, abordagem. Mas, então, algo inesperado aconteceu: em uma das aulas de educação física, meu filho se machucou gravemente e ficou internado no hospital por um mês. Depois que teve alta, ele precisou usar um tipo de “espartilho” durante 6 meses.

Sobre a educação em casa

Crianças que não podem frequentar a escola durante muito tempo, devido ao seu estado de saúde, são incluídas em um sistema de “educação em casa”. Na prática, isso significa que você precisa mostrar os atestados médicos e a escola faz uma programação especial, o que é acordado com ambos os pais, para que os professores possam ir até sua casa algumas vezes na semana. Imaginando que teríamos 4-5 aulas por dia, 5 vezes na semana, eu achei que iria enlouquecer. Por sorte, no entanto, para compensar o tempo perdido e terminar o ano junto com os outros alunos (faltavam 2 bimestres), foi suficiente ter 2-3 horas de aula com o professor, e ainda tínhamos 1 dia livre na semana.

Durante esse sistema especial, meu filho passou a estudar menos em casa, mas teve resultados muito melhores. O tempo que ele passava em uma aula particular com o professor era muito mais produtivo do que na escola. Com os trabalhos de casa também ficou muito mais fácil: eu só precisava revisá-los, pois meu filho conseguia fazer a maior parte sozinho. Foi nesse momento que me veio a seguinte dúvida: será que realmente precisamos ir à escola? Eu não cheguei a nenhuma conclusão naquele momento e continuei a observar como seria o progresso no ano seguinte.

“E novamente a luta continuou”

Estávamos novamente fazendo os trabalhos até tarde da noite: meu filho passava 5-6 horas na escola, almoçava lá, fazia atividades em grupo, e à noite notávamos que ele não tinha mais forças para fazer nada. Dormia depois da meia-noite e acordava de manhã pálido e sem energia para ir às aulas.

Uma noite eu não aguentei. Por causa da escola, minha vida estava virando de cabeça para baixo. Eu só pensava nas aulas, desisti dos meus passatempos, comecei a levantar a voz para meu filho, além de conversar com meu marido somente sobre problemas escolares. E a coisa mais importante foi que depois de passar um grande tempo com os livros escolares e materiais didáticos, eu notei que estava estudando com meu filho aquilo que ele já deveria ter aprendido na sala de aula.

Chega!

A ideia da “educação familiar” começou a reverberar na minha cabeça diariamente, como um pica-pau fazendo seu buraco na madeira. Eu trabalho de casa, tenho uma formação em pedagogia e já gasto muito tempo ensinando e fazendo os deveres de casa com meu filho. Então, o que me impedia? Eu estava com medo.

Eu estava fazendo minha pesquisa sobre a educação em casa e atormentava meu marido frequentemente com minhas dúvidas. E a socialização? E se pularmos alguma coisa importante? E as provas? E se eu simplesmente estragar a vida do meu filho? Nossa, que difícil!

Ao mesmo tempo, eu via mais e mais crianças nas redes sociais que estavam passando por educação familiar e tinham resultados muito positivos. As mães comentavam dos êxitos dos filhos, de como isso tinha sido melhor para a vida delas, e comecei a comparar com a minha realidade.

Depois disso, eu olhei para a pilha de livros sobre História do Mundo Antigo que não tivemos tempo de ler, por termos perdido muito tempo com outro livro, respirei fundo e decidi buscar os documentos na escola.

Ensino flexível

De acordo com uma lei federal, você pode tirar seu filho da escola para educá-lo em casa a qualquer momento sem ter que dar explicação a ninguém. Tudo o que você precisa fazer é se dirigir às autoridades competentes e, a partir do dia seguinte, você estará encarregada da educação do seu filho.

E depois? Eu sabia que meu filho não estava pronto para o estudo independente, e eu também não estava preparada para imergir no processo completamente, visto que o programa do 6º ano era bastante extensivo. Por isso, eu comecei a pesquisar diferentes escolas que ofereciam ensino a distância e, assim, resolvi me afiliar à uma das plataformas online mais populares de ensino.

Todos souberam da nossa “saída” da escola. “Como é a educação em casa?” — os amigos sempre perguntavam. Eu ficava quieta, pois não podia contar que não fazia ideia de qual seria o resultado, visto que ainda estava muito cedo para tirar conclusões. Meu filho começou a dormir melhor e eu cessei as idas à farmácia para comprar sedativos para conseguir dormir à noite. Até mesmo o cachorro parecia estar se sentindo melhor. Mas, claro, não foi somente para isso que fizemos a mudança.

Quais foram os “efeitos colaterais”?

Trocamos a escola física por uma virtual, e meu filho ficou encantado. No começo. Depois de certo tempo, a novidade virou rotina, e a necessidade de estudar não diminuiu. E em vez dos amigos, ele passou a ter sua mãe ao lado, que era a diretora da “escola” em casa. Ele não podia mais dizer que “foram os professores que não explicaram direito”. Meu filho começou a perceber que na escola ele podia, de alguma forma, escapar da mira dos professores, mas, em casa, a situação era totalmente diferente, pois ele era o único centro de atenção.

Um obstáculo preocupante foram as aulas de matemática: pelo cronograma da escola online, essa disciplina era estudada estritamente de acordo com o programa didático, e os deveres de casa eram mínimos. Ao mesmo tempo, a Álgebra era o ponto forte do meu filho. Antes de perdemos um pouco o foco, ele tinha conseguido até ganhar olimpíadas de matemática na escola. Depois, no entanto, ele passou a seguir o sistema de “fez o dever, pode esquecer”, e assim não estudava adicionalmente nas horas vagas que tinha.

Eu comecei a perceber que estávamos um pouco limitados no programa da escola online. Em algumas aulas, meu filho simplesmente ficava entediado, e eu era obrigada a concordar com ele, pois também assistia às aulas: chatas demais! Comecei a notar que existiam outros materiais, livros e aulas muito mais interessantes nas redes sociais e em canais do YouTube. Foi então que o problema realmente começou: não renovamos nossa matrícula na escola online para o ano seguinte.

E agora?

Durante as férias, eu resolvi criar um programa de estudo para seguirmos, assumindo a responsabilidade com História e Literatura, e meu marido seria encarregado de ensiná-lo Inglês. O resto das matérias foram selecionadas de acordo com as capacidades e a recepção do meu filho. Física, por exemplo, ele aprendia em uma determinada plataforma; já Biologia e Estudos Sociais, em outra. Álgebra e Geometria ele tinha aulas com um professor particular. Às vezes, ele chorava e reclamava, talvez por preguiça ou cansaço, mas assumiu a responsabilidade e achava a maioria das aulas interessantes.

Se me arrependo de alguma coisa, é somente de ter hesitado por muito tempo. Se tivéssemos começado essa educação em casa mais cedo, teríamos nos estressado menos. Ao ouvir as histórias das outras crianças, que estudavam com meu filho, e o que seus pais contavam do andamento escolar, me deixava feliz de saber que eu não fazia mais parte daquilo. Mas eu aconselharia todos a fazer o que nós fizemos? Com certeza absoluta que não. Explicarei o porquê.

  • Como eu escrevi acima, eu sou formada em pedagogia (eu trabalhei em escola por alguns anos) e tinha bastante tempo livre por conta do meu trabalho. Eu sei o que é a política nacional de educação, método de ensino, as diferenças entre competências, habilidades e conhecimento. Se você pensa em começar a educação familiar para seus filhos, mas não está pronta para imergir no processo de ensino, você precisará confiar em algum programa de alguma escola online. A boa notícia é que hoje há diversos programas muito bons de ensino.

  • Eu tenho a possibilidade de verificar o progresso do meu filho sem atrapalhar o meu trabalho. Eu vejo quando ele está distraído pelas inúmeras tentações da casa: dormir um pouco mais, fazer o dever de casa descuidadamente, assistir às aulas com o desenho animado ligado na TV. Se você não pode ou não tem ninguém com quem deixar seu filho durante o “estudo”, então será preciso confiar na responsabilidade e motivação pessoal dele, qualidades as quais não são muito comuns em crianças.

  • É possível matricular seu filho em escolas públicas, que oferecem ensino gratuito. A educação em escolas particulares, assim como em casa, necessita de um investimento grande dos pais. As escolas online não são baratas, assim como os professores particulares, livros e outros materiais didáticos. E são poucas as regiões onde você pode receber alguma compensação financeira por não frequentar a escola.

  • Socialização. Se a criança não tem um hobby, atividades, aulas extras, aulas com seus amigos, e só encontra com outras crianças para “brincar”, ele não vai aprender a construir relações profissionais e de parcerias com outras pessoas no futuro.

Eu acredito que é possível educar seus filhos em casa, mas somente se você tiver certeza que poderá oferecer a ele o mesmo ou até mais do que ele receberia na escola.

O que você acha da educação familiar? Teria coragem de escolher essa forma de ensino para seu filho ou filha? Comente!