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Por que algumas mulheres têm esperado mais tempo para ser mães e quais as consequências dessa escolha

Certa vez, o Dr. Drauzio Varella relatou que, quando ainda era um estudante de Medicina, grávidas com mais de 26 anos eram identificadas na ficha médica como “idosas”. Na época, considerava-se que a idade ideal para engravidar fosse entre os 18 e os 25 anos. Mas os tempos são outros e muitas mulheres decidem ser mães até depois dos 40. Mas por que elas têm tomado essa decisão um pouco mais tarde?

Incrível.club trouxe artigos científicos e até relatos de mães que explicam os motivos mais comuns que as levaram a ter filhos tardiamente, quando comparadas com as gerações anteriores.

A mulher atual assume mais responsabilidades na casa e é considerada, na maioria dos casos, a “chefe da família”

Antes de falar sobre os motivos que levam as mulheres a engravidar mais tarde que suas mães e avós, é preciso entender o novo papel feminino na sociedade e, principalmente, na família. Afinal, aquela separação entre os papéis masculinos e femininos em uma família já não condiz com a realidade. Nas últimas décadas, muitas mulheres, que antes se limitavam a cuidar da casa e dos filhos, estão saindo para conquistar suas próprias carreiras profissionais.

Inclusive, por vezes, há uma inversão total de papéis, em que a mãe sai para trabalhar, enquanto o pai cuida da casa e dos filhos. Não só para trabalhar, pois as mulheres geralmente também estão buscando estudar mais, para se especializar e conseguir melhores posições de trabalho. Esse novo papel feminino mudou a estrutura familiar, dando a elas mais voz nas decisões da família. Inclusive, sobre qual é o momento ideal para ter uma criança.

Incrível.club pediu para Cintia Santos, que foi mãe aos quase 39 anos, para nos dar uma visão pessoal sobre o que a levou a tomar essa decisão. E ela começou o seu relato falando justamente sobre como os seus pais defendiam uma formatação familiar diferente da dela. O seu pai preferiu que a esposa não trabalhasse, para se dedicar completamente à casa e à família. Já Cintia, apesar de ter casado cedo, aos 21 anos, tinha outras prioridades na vida ao lado de Marcel, seu marido.

1. As mulheres, em geral, têm foco em conseguir um trabalho, ser valorizadas por isso e crescer profissionalmente

Uma pesquisa realizada em 2014 com mulheres casadas, de 35 a 40 anos, e sem filhos, revelou que elas ocupam a maior parte do seu tempo com o trabalho. Mais do que isso, elas costumam investir mais tempo no trabalho, ainda que isso signifique sacrificar tempo para elas mesmas, como ir à academia, ao médico ou ter um pouco de lazer. Essas mulheres se sentem recompensadas por ajudar outras pessoas com seus trabalhos, por aprender coisas novas e tomar decisões por conta própria.

Assim, trabalhar e ter sucesso profissional é, para essas mulheres, uma prioridade maior do que formar uma família. Em sua visão, a sociedade valoriza mulheres que têm um trabalho fora do lar. Elas mesmas se valorizam por isso, já que o sucesso no trabalho traz satisfação pessoal e está ligado à liberdade financeira. Dessa forma, a maternidade não está no primeiro plano para essas mulheres.

2. O crescimento profissional exige que as mulheres estudem mais, o que é mais um motivo para adiar a maternidade

Geralmente, as pessoas que almejam desenvolvimento profissional procuram fazer cursos, faculdade, etc. Isso tem levado muitas mulheres a estudar e se especializar constantemente, em busca de uma posição de destaque onde trabalham. Até porque, dados do IBGE indicam que, ainda que as mulheres tenham conquistado mais espaço no trabalho, ainda há desigualdade na distribuição de renda. Por isso, mais uma vez, a família dá lugar à busca por melhor colocação profissional das mulheres.

3. Muitas mulheres preferem estabilizar-se financeiramente antes de engravidar pela primeira vez

Até esse ponto, o adiamento da maternidade para algumas mulheres é justificado pela busca por sucesso profissional — seja trabalhando por muito tempo ou conciliando com estudos. Essa busca ainda leva a outro motivo, a estabilidade ou independência financeira. Para elas, é importante estabelecer uma condição econômica sólida com o companheiro, antes de incluir uma criança na família. Uma vez que essa situação é conquistada, elas se sentem mais confortáveis com a maternidade.

Lembra da Cintia? Na nossa conversa, ela relatou que tomou justamente essas decisões antes de engravidar do Lucas, seu primeiro filho. “Casei jovem, com 21 anos, e priorizei meus estudos e minha carreira. Quando o Marcel e eu atingimos uma certa estabilidade e concluímos nosso doutorado, repensamos nossa dinâmica de vida e a questão dos filhos.”

4. Para muitas, a decisão de adiar a maternidade é consciente, confiando na medicina avançada

Algumas mulheres entrevistadas para a pesquisa de 2014 relataram que não estão apenas colocando outras coisas como prioridade, mas sim planejando ter filhos no futuro, ainda que “tardiamente”. Elas sabem que a maternidade tardia hoje é uma possibilidade aceitável, que só foi possível com os avanços tecnológicos da medicina em conjunto com as mudanças sociais já mencionadas. Assim, as mulheres se veem como diferentes de suas mães e avós, conscientes dos seus desejos e direitos de escolha.

A atriz Mônica Martelli tinha o sonho de ser mãe, e a primeira gravidez aconteceu aos 33 anos. Infelizmente essa gestação foi interrompida, assim como as duas seguintes, com um pequeno intervalo entre elas. Então, ela decidiu esperar uns anos e curtir o sucesso profissional. Até que, aos 40, planejou fazer uma viagem e, na volta, iniciar um tratamento para engravidar. No entanto, retornou grávida da pequena Julia, se sente realizada e sem planos para ter outra criança.

5. Há ainda uma parcela de mulheres que adiam a maternidade por não se sentirem preparadas

Enquanto algumas mulheres estão sempre adiando a maternidade — “Serei mãe aos 25; ou melhor, aos 30; agora, acho melhor aos 35” — outras simplesmente não pensam nisso. São as mulheres que não se sentem preparadas para assumir a responsabilidade por uma criança que dependerá delas para tudo. Algumas delas relatam ter medo dessa responsabilidade, outras, dizem preferir construir relações e vínculos com pessoas que não dependam tanto delas e não exijam que sacrifiquem sua liberdade.

A apresentadora Eliana teve dois filhos — Arthur, aos 38 anos, e Manuela, aos 44. Ela adora crianças e famílias grandes, tanto que confessou ter se arrependido por não ter mais herdeiros. “Se eu tivesse pensado um pouquinho mais cedo, eu não teria pensado tão tardiamente nisso. Eu queria estar com um monte de criança correndo aqui dentro de casa.” Eliana ainda acrescentou, rindo: “Pelo menos uns quatro estava bom”.

6. Uma parte das mulheres se sente insegura em ter um filho por não ter um relacionamento que considere estável

Por fim, depois da instabilidade financeira, outro motivo que leva algumas mulheres a adiar a gestação é a instabilidade do seu relacionamento. Algumas mulheres demoram para se casar — pelos mesmos motivos citados antes, ou seja, foco no trabalho, estudos, etc. — e isso impacta diretamente na decisão de engravidar. Ou, se casam, preferem esperar até ter plena confiança no parceiro para repartir a responsabilidade pela criação de um filho.

A atriz Alessandra Colasanti é um exemplo disso. Mesmo em uma idade que é considerada arriscada para engravidar, ela não tinha desejo de ser mãe, mas congelou seus óvulos mesmo assim. Até que conheceu o Lucas, mais jovem que ela, com quem começou um relacionamento. Após um tempo, ele manifestou o desejo de ser pai. Como eles moravam juntos e o relacionamento já era sólido, ela se abriu para essa possibilidade. Alessandra engravidou naturalmente aos 45 anos e hoje é mãe de Nuno.

Algumas mulheres se sentem pressionadas para ter filhos e até julgadas

Você já deve ter presenciado uma pessoa fazer aquela famigerada pergunta a uma mulher recém-casada: “E os filhos, quando vêm?” Pois, para a Cintia, a mesma sociedade que trouxe liberdade, também coloca cada vez mais peso sobre as mulheres, como “ser casada, ser mãe, ter estabilidade financeira, estudos, ser realizada profissionalmente, viajar, dar conta de tudo. Muitas mulheres se veem adiando a maternidade para se estruturar primeiramente em outras áreas”, pontuou.

Cintia foi casada por 17 anos antes de se tornar a mãe do Lucas e pôde perceber cobranças nesse sentido durante todo o tempo. Para ela, ser mãe é uma questão de escolha, não uma imposição. “Não me arrependo do meu percurso, mas compreendo que se cada pessoa fizesse sua parte, inclusive na criação dos filhos, nós, mulheres, teríamos outra dinâmica, outra projeção”. Ela ainda é grata pelo Marcel, um pai muito presente na criação do Lucas e nas responsabilidades do lar.

Carolina Ferraz continua lutando contra o julgamento, já que muitas pessoas pensam que não é normal uma mulher mais velha resolver ter filhos. Ainda que a idade traga limitações, não é motivo para desistir. “Se hoje não dá para ser a melhor mãe do mundo, amanhã temos de continuar tentando. Só assim se amadurece e se torna uma mãe melhor”, afirmou a atriz e apresentadora.

A maternidade é um sonho para muitas mulheres e a ciência permite que esse sonho se realize, mesmo que tardiamente. Você conhece a história de alguém que teve filhos sendo mais velha? Conte para nós!

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