Moro na França e vou contar por que aqui os pais vivem felizes e não sofrem com a criação dos filhos

Todas as mães querem que seus pequenos vão sozinhos para a cama, que não façam birra em público ou na casa de amigos e que não gritem quando elas falam ao telefone. E ainda esperam encontrar tempo para se dedicar a si mesmas e aproveitar um jantar com o marido. Bom, isso é possível. Uma russa se mudou para a França, onde se casou e teve dois filhos. Por conta disso, descobriu muitas coisas interessantes sobre o sistema francês de educação.

Nós, do Incrível.club, somos como esponjas e tentamos absorver o máximo de informação possível na página da Anna. Lá, ela compartilha curiosidades e fatos sobre os métodos locais de educação, que a têm ajudado com muitas das tarefas difíceis do cotidiano. Por isso, acompanhe!

A abordagem de educação francesa é especial

Nos primeiros meses após me casar, recebemos as filhas do primeiro casamento do meu marido e joguei damas com a menina mais velha, que tinha sete anos na época. Resolvi deixá-la ganhar para não correr o risco de chateá-la. Para minha surpresa, logo depois meu marido resolveu jogar com a pequena e agiu como se estivesse jogando contra um adulto. Ganhou, é claro.

E quando eu mencionei que ele poderia tê-la “deixado ganhar”, me respondeu o seguinte: “Por quê? Ela precisa aprender a perder e a lidar com as emoções”. Sinceramente, eu nem havia pensado nisso. A minha criação foi bem diferente. Hoje consigo ver os dois lados da moeda e tenho algumas conclusões sobre isso.

Os franceses são muito pacientes. E o mérito é dos pais

  • Eles fazem uma pequena pausa e não correm até o bebê assim que ele acorda. Deixam-no passar um tempo no berço para observar o ambiente à sua volta. Assim, o pequeno terá mais tempo para se acostumar com a cama e o quarto. No futuro, essa prática será útil para ajudar a criança a dormir sozinha, tanto de dia quanto de noite.

  • Quando os adultos estão conversando, e o pequeno chama a mãe ou o pai, os franceses não costumam interromper a conversa imediatamente. Primeiro, fazem sinal de que estão ocupados e de que a criança deve esperar eles terminarem.

  • Quando o filho chama a mãe para pedir alguma coisa, enquanto esta está ocupada, costuma receber a resposta: “Vou terminar o que estou fazendo e, daqui a alguns minutos, vou aí te ajudar”. O pequeno em geral aceita a situação e espera.

Para os franceses, a paciência é um músculo, que pode ser trabalhado desde cedo

Não levante correndo da mesa enquanto está trabalhando só porque a criança pediu para você olhar a montanha de dominós que ela fez. Basta explicar com gentileza o que está fazendo e pedir para esperar. No começo, ela aguardará apenas alguns segundos e, mais tarde, minutos. Aprenderá, então, a se entreter durante a espera e lidar com a decepção. Essa habilidade será de vital importância para a vida futura — só assim o pequeno poderá amadurecer e entender que não é o centro do Universo.

Pode parecer simples, mas na prática é bem mais difícil. Hoje já me acostumei com isso e respondo logo no automático: “Sim, meu lindo, mamãe vai terminar isto rapidinho e então pegarei o livro para você”. A reação dele ainda é a mesma, mas o treino continua, sempre com gentileza e bom humor.

Os locais não têm “peninha” dos filhos

Isso não diz respeito às situações em que a criança realmente precisa de ajuda — ao cair no chão e se machucar ou coisas do gênero. No entanto, caso ela tenha passado por algum susto, mas não tenha se machucado fisicamente e comece a chorar por conta da situação, os pais não costumam incentivar esse comportamento. Ao fazer isso, estamos apenas validando a vulnerabilidade dela e dando importância para algo que não aconteceu. Consequências:

  • Vai chorar quase sempre que esbarrar em algo ou cair em algum lugar, mesmo que não sinta dor, apenas por conta do susto. Mas não devemos piorar a situação.
  • Vai cair ou fingir que está sentindo dor para chamar a atenção.
  • Se os planos dessa criança, na idade adulta, derem errado em algum momento, isso a deixará bastante chateada e ela sentirá falta de ser consolada por alguém.

A melhor saída é não prestar muita atenção, sorrir e dar o mínimo de conforto. Não sou uma mãe tirana. Amo muito meus filhos e quero que sejam, em primeiro lugar, resistentes emocionalmente e, só depois, fisicamente.

Na França, a educação costumava ser ainda mais rigorosa

Quando visitamos um amigo do meu marido, frequentemente discutimos sobre o tema educação, comparando sobre como era antigamente e como é hoje. Bom, na família desse rapaz, por exemplo, as regras eram muito mais rígidas.

  • Os pais eram chamados pelo pronome formal “vous” em francês, que seria o equivalente a dizermos “senhor” ou “senhora”.
  • Durante as refeições, quando as crianças se sentavam à mesa com os pais, elas não podiam conversar. Embora, muitas vezes, a partir de uma certa idade, quando já podiam comer de forma independente, eram colocadas em outra mesa separada.
  • Após o término da refeição, deveriam pedir permissão para sair da mesa para continuar suas tarefas do dia a dia.
  • As crianças só podiam brincar com seus brinquedos no próprio quarto ou na sala de jogos, que era criada para esse mesmo propósito. Mas de forma alguma os brinquedos podiam ficar jogados pela casa.

Hoje em dia, histórias assim podem soar estranhas e absurdas. Os jovens têm cada vez mais liberdade para fazer o que desejam. Os tempos mudam, assim como as normas. Eu busco encontrar o meio-termo ideal.

O maior problema das mães é o sentimento de culpa

Estamos constantemente em um estado de ansiedade. Acordou e chorou, então significa que está com fome ou medo, doente, quer carinho ou brincar. O que fazem em geral as mulheres francesas em tais situações? Nada, vivem suas vidas felizes. Aceitam a naturalidade e a lógica das coisas e não deixam de cuidar de si mesmas, dos próprios relacionamentos. Basicamente, não esquecem que há uma vida além dos bebês. Elas entendem bem: não existe a mãe perfeita, por isso recorrem ao senso de humor para resolver algumas situações difíceis.

Ao mesmo tempo, não há permissividade e a educação ocorre naturalmente, sem métodos ou livros especiais — apenas de família para família. Os principais segredos das mães para manter a calma: organização pessoal, autorrealização e capacidade de estabelecer corretamente as prioridades.

Como as mães francesas facilitam o dia a dia

  • Crianças e adultos comem juntos. A partir dos dois anos (aproximadamente), elas já começam a ter a mesma comida dos pais.

  • Quando os filhos ainda são pequenos, não escolhem o que comer: a mãe define o menu.

  • As mães não ficam “perseguindo” as crianças para dar comida a elas.

  • Também não é comum vê-las cozinhando com o bebê nos braços, por exemplo.

  • A soneca da tarde é sempre no mesmo horário.

  • Não existe linguagem “de criança”.

  • Não há “tudo bem / pode ser?” no final de cada frase. As mães não pedem permissão aos filhos.

  • As crianças brincam em seus quartos (não o dia inteiro, é claro), enquanto os pais fazem suas tarefas diárias.

  • Além disso, precisam do próprio espaço, assim como os adultos. Naturalmente, isso não exclui atividades e brincadeiras conjuntas.

  • Os pequenos se acostumam rapidamente com independência. Por exemplo, pôr a mesa, usar os talheres corretamente, ajudar a mãe com as tarefas domésticas. Quando participam da vida adulta, ganham mais autoconfiança.

  • A noite normalmente é reservada para os adultos: as crianças vão para a cama cedo e no mesmo horário. Assim, os pais conseguem aproveitar a companhia um do outro com mais calma.

É muito raro ver crianças pequenas em restaurantes

É bastante raro encontrar crianças abaixo dos quatro anos em restaurantes. O que acontece é que, para os franceses, em geral comer não é um ato puramente para saciar a fome. Quando um francês de classe média vai a um restaurante, ele pretende aproveitar a atmosfera e relaxar. Ou seja, sem choro ou gritaria. Portanto, para evitar problemas e possíveis incômodos aos outros clientes, os moradores daqui escolhem as seguintes opções para fazer com seus filhos:

  • Comer em casa.
  • Restaurante em estilo de bufê, onde geralmente a pessoa escolhe o que deseja comer e serve a si mesma.
  • “McDonald’s”.
  • Ou apenas alguma cafeteria pequena.

A licença-maternidade não é longa na França. Por isso, não há a noção de “tirar um tempo” dos filhos

Se pais e filhos saem para um passeio, eles vão querer aproveitar ao máximo. Fiquei chocada por não ter encontrado aqui um café onde haja uma área para as crianças brincarem. Quando perguntei ao meu marido sobre isso, ele me olhou perplexo e respondeu que não teria coragem de deixar o filho com algum estranho em um lugar público. Me parece que os franceses são tão conservadores que as novidades começam a ser implementadas aqui muito lentamente.

Como devem se comportar na casa de amigos

  • A regra mais importante: a criança deve pedir permissão antes de começar a comer e, de maneira nenhuma, pode simplesmente pegar a comida da mesa. Tanto em casa quanto na de uma visita.

  • Acontece com frequência o ato de uma criança pegar um biscoito de uma tigela em comum, depois repensar e colocá-lo de volta. Isso não é bem-visto. Aquilo que se encosta com a mão deve ser comido ou deixado no próprio prato.

  • Os pequenos também precisam pedir permissão para sair da mesa e ir brincar. Primeiro, você os ajuda a limpar as mãos para garantir que não vão sujar a casa dos outros. Segundo, jovens educados agem dessa forma, que é o que todos estamos buscando.

  • Preste atenção para que seus filhos não façam barulho demais. “Mas são crianças, não dá para ser de outro jeito”, muitos diriam. Bom, realmente às vezes é impossível controlar o nível de barulho, principalmente quando ainda são pequenas. A sua tarefa, contudo, é fazer com que entendam que não estão sozinhas no ambiente e que podem acabar atrapalhando alguém. Assim, podemos ensiná-los a ter respeito pelo espaço dos outros.

  • Há também um outro segredinho pelo qual é possível ensiná-los a se comportar à mesa. O principal exemplo são sempre os pais. Mas ainda mais importante são as refeições em conjunto: a família comendo junta, no mesmo horário. É nesses minutos que passamos juntos que os filhos mais novos podem aprender a como se comportar. E, quanto antes começarem, melhor.

Os franceses não se preocupam tanto em ter filhos

Decidimos dar um passeio em família e entramos em um açougue. Começamos a conversar com o vendedor sobre a vida e as crianças. Dizíamos que nunca nos sentíamos entediados com nossos filhos e que sempre havia algo para fazer. O açougueiro respondeu: “Bom, depois de crescerem, aí vocês me contam”. Eu disse: “Ah, sim. Hoje realmente é o momento mais feliz que estamos passando e sei que sentirei falta disso daqui a 15 anos”. O açougueiro: “Não, eu quis dizer que vocês poderão aproveitar ainda mais quando estiverem aposentados, como eu e minha mulher”.

Fiquei surpresa. Ou talvez não. Dizem que na França a vida realmente começa aos 50 anos, de uma forma geral. Não podemos esquecer que ele é homem e as mulheres têm maior dificuldade de lidar com a saída dos filhos de casa depois de crescerem. Mas, claro, esse pensamento cria uma esperança bastante positiva para o futuro.

Aqui é tudo diferente

Na França, as mulheres são mais propensas a pedir o divórcio do que os homens. No entanto, o que me deixou ainda mais surpresa foi saber que, na maioria dos casos, elas deixam os filhos com o marido (muitas vezes duas ou três crianças). A partir daí, começam a criar uma nova vida e, possivelmente, uma nova família. Não estou julgando ninguém, pois acho que quando um não quer, dois não brigam: vejo ambos como responsáveis por um divórcio.

Eis um exemplo: minha amiga francesa está casada com um rapaz, que tem três filhos adotivos do primeiro casamento. A mãe deles se mudou para Guadalupe (ilha francesa) para viver com o novo marido e construir uma vida com ele lá.

As francesas estão livres de preconceitos desnecessários

Eu e minha família fomos a uma praia na região da Costa Azul. Lá, muitas mulheres, sem qualquer pudor — independentemente da idade ou dos atributos físicos — pegam sol de topless. Aproveitam o calor como se fossem as únicas pessoas na praia. Será que isso não é uma indicação de que não se preocupam tanto assim com o que os outros vão pensar ou dizer sobre elas? Bom, eu as vejo como mulheres livres.

Quais os métodos (e truques) você usa na criação dos seus filhos?

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