No futuro as suas roupas poderão vir das bactérias, de cogumelos, de casca de laranja e até das algas

A moda está passando pela revolução da biotecnologia e do biodesign. Novos materiais para tecidos, couros e tinturas surgem de onde menos esperamos. As algas de um lago podem se transformar na espuma do seu novo par de tênis. Bactérias multicoloridas podem tingir seu vestido de festa. A bolsa que as amigas vão amar pode vir da coroa do abacaxi. Ou é até possível reproduzir a seda do fio da teia da aranha em laboratório e criar os mais lindos modelos.

A grande vantagem dessas novas técnicas com algas, fibras, fungos, bactérias e leveduras é que são menos poluentes, não exigem grandes quantidades de água em sua produção e dispensam o uso de recursos fósseis não renováveis, como o petróleo. Além disso, muitas delas são biodegradáveis — ou seja, desmancham-se naturalmente na natureza. “Esses métodos podem reduzir o lixo e a poluição no Planeta”, diz Theane Schiros, professora no departamento de Matemática e Ciências do Fashion Institute of Technology (Instituto de Tecnologia de Moda) de Nova Iorque.

Aqui no Incrível.club, ficamos fascinados com as novas tecnologias e possibilidades da moda. Por isso, reunimos e compartilhamos experiências interessantes. Algumas estão em fase de estudo e outras já estão nas araras dos magazines e nas lojas virtuais, prontas para você desfilar por aí. No final, não perca o bônus sobre uma incrível obra de arte feita com seda de aranhas africanas.

Tecido tingido por bactérias

O uso de bactérias para colorir tecidos já é uma realidade e começa a ganhar a atenção de estilistas e da indústria de moda. Um micróbio chamado Streptomyces coelicolor produz tons azulados, rosados ou vermelhos durante seu período de incubação. E pesquisadores descobriram que é possível deixá-lo agir livremente sobre os tecidos, o que vai gerar desenhos aleatórios e exclusivos — não haverá repetição ou padrões.

Vantagens para o Meio Ambiente: a tintura com bactérias gasta 500 vezes menos água do que o processo industrial tradicional, diz Audrey Chieza, biodesigner da empresa americana Faber Futures, que estuda a nova tecnologia. Além disso, diversos produtos químicos utilizados na indústria de pigmentos industriais tornam-se desnecessários com esse processo.

A empresa Vienna Textile Lab, da Áustria, trabalha de forma diferente, extraindo as tinturas das bactérias, para depois serem aplicadas nos tecidos, o que garante controle da cor por parte do designer. Os pigmentos estão em fase de estudo e ainda não foram colocados à venda, mas a foto abaixo mostra a gama de tons que se pode extrair dos bichinhos.

Roupas feitas com casca de laranja

Pesquisadores italianos conseguiram criar um fio a partir do lixo da indústria de suco de laranja. As cascas e o bagaço das frutas são processados e transformados na Orange Fiber (fibra laranja), que origina um tecido suave como seda, como garantem os fabricantes. O fio de laranja pode ser usado sozinho ou em combinação com outras fibras. O look acima, da rede H&M, foi feito com Orange Fiber para a coleção H&M Conscious.

Vantagens para a natureza: a nova tecnologia evita que toneladas de cascas e outras partes não comestíveis das laranjas sejam despejadas em aterros sanitários legalizados ou mesmo de forma ilegal. O que era para virar lixo, literalmente, pode se transformar em sua nova roupa de festa.

Grifes muito tradicionais e exclusivas também estão usando a nova tecnologia. Uma delas é a marca italiana de gravatas E. Marinella, fundada em 1914, que empregou a Orange Fiber em uma de suas coleções recentes.

Couro de folha de abacaxi

A designer espanhola Carmen Hijosa descobriu o poder das fibras extraídas das cascas de abacaxi (a coroa da fruta) durante uma viagem às Filipinas, país grande produtor da fruta. Depois de muitos testes, ela e um grupo de pesquisadores chegaram ao Piñatex, produto bastante resistente e ótimo substituto do couro para a confecção de bolsas, carteiras, calçados e acessórios. Na foto acima, uma bolsa feita de couro de abacaxi Piñatex pela grife vegana Kantala.

Vantagens para a natureza: é mais um produto feito a partir de um material que iria para o lixo e também evita o abate de animais para suprir a indústria de couro.

Sapatos da grife Nature Footwear, também com couro de folha de abacaxi

Seda de aranha criada em laboratório

A experiência de tecer um vestido com seda extraída de aranhas já foi posta em prática no passado, mas exigiu um trabalho insano (veja o bônus). A empresa americana Bolt Threads desenvolveu uma tecnologia para criar em laboratório a mesma fibra de seda das teias de aranha, só que em larga escala e... sem a presença de aranhas!

O DNA da proteína da seda de aranha é replicado por um processo de fermentação, que envolve bactérias, água, açúcar e leveduras. Mais tarde, essa proteína de seda é isolada e processada em fios, chamados de Microsilk, com que os tecidos serão tramados.

O modelo acima foi desenhado pela estilista inglesa Stella McCartney (filha do ex-Beatle Paul), conhecida por sua preocupação ambiental, em colaboração com a Bolt Threads. Com a mesma seda, Stella também desenhou modelos de roupas esportivas para a marca Adidas.

Vantagens para a natureza: o processo de criação da fibra de seda de aranha em laboratório é natural e pouco poluente. Em larga escala, a tecnologia pode substituir fibras sintéticas como o náilon e o poliéster, feitas a partir de combustíveis fósseis, um recurso não renovável.

A empresa japonesa Spiber também criou sua versão de seda de aranha em laboratório. Em parceria com a grife para esportes de aventura North Face, lançou o protótipo dessa jaqueta super resistente chamada Moon Parka, cujo desenvolvimento levou mais de cinco anos de pesquisas. Em um primeiro momento, poucas unidades da Moon Parka serão vendidas em forma de loteria. Para se candidatar, é preciso se inscrever no site da Spiber.

Couro de cogumelo

micélio, espécie de cogumelo, está ganhando espaço na alta moda como substituto do couro. Quando cultivado em laboratório, sob condições adequadas, esse fungo forma uma estrutura densa e fibrosa, que é curtida de forma semelhante ao couro. E que também pode ser usada na manufatura de bolsas, calçados, roupas e acessórios. A empresa americana MycoWorks é uma das pioneiras no uso da técnica. Acima, modelo exibe um colete feito de couro de cogumelo, conhecido como muskin.

Vantagens para a natureza: enquanto é preciso criar, engordar e abater um animal para obter seu couro, o ciclo da cultura de fungos em laboratório até o produto final leva cerca de três semanas. O uso do couro de cogumelo em maior escala reduziria a quantidade de água usada na indústria do material convencional e iria de encontro à filosofia vegana de compaixão pelos animais.

Bolsa de couro de cogumelo da grife Mylo, criada pela empresa americana Bolt Threads

Espuma para tênis que vem das algas

O pesquisador americano Ryan Hunt trabalhava no desenvolvimento de um combustível à base de algas, mas descobriu que elas podiam ser transformadas em polímeros e, mais tarde, em espuma própria para a indústria de calçados e outros artefatos, substituindo materiais fabricados a partir de recursos fósseis. Sabe aquela água verde que você vê em lagoas? Essa é a microalga que pode ser transformada na sola macia do seu novo par de tênis.

A empresa de Ryan hoje vende sua espuma de alga, batizada como Bloom Foam, para grandes marcas como Adidas e Billabong. Sua primeira parceria, com a grife Vivobarefoot, resultou no lançamento do modelo de tênis Primus Lite Bio (foto acima), confeccionado com 30% de materiais vindos de plantas. A meta de marca é chegar a um tênis 100% vegetal até 2021.

Vantagens para a natureza: a alga é abundante na natureza e sua filtragem promove a limpeza do ambiente, pois a água purificada volta para o rio ou para o lago. Seu uso reduz a extração de combustível fóssil, empregado na fabricação de materiais como o EVA (Etil Vinil Acetato), muito comum na indústria de tênis.

Na foto acima, as várias etapas da transformação da alga, desde quando ela chega molhada do lago até ser processada em polímeros de espuma que vão suprir a indústria de calçados.

Tecido de bactéria feito no Brasil

Um tecido feito de bactérias já é produzido no Brasil, pela empresa de biotecnologia Biotecam, incubada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O material é conseguido com a fermentação da bactéria Acetobacter xylinum, encontrada no vinagre. Num meio formado por água e açúcar, esses bichinhos unem-se em uma colônia que forma uma espécie de película, usada para a fabricação do tecido biológico. Na foto acima, desfile de looks feitos com o tecido bacteriano brasileiro.

Vantagens para a natureza: a criação do tecido com bactérias gasta muito menos água do que a manufatura do algodão. Para se ter ideia, uma calça jeans comum consome mais de 10 mil litros de água para ser fabricada. Em larga escala, o biotecido reduziria o plantio de algodão, cultura em que é muito comum o uso dos agrotóxicos. Além do mais, ele é biodegradável.

Em tanques como o da foto acima, são criadas as bactérias. Elas se aglomeram em películas que, depois de secas, dão origem ao tecido biológico.

Bônus: o vestido de seda de aranha que levou 8 anos para ficar pronto e virou obra de museu

O designer têxtil Simon Peers e o empresário Nicholas Godley tiveram a ideia ousada de produzir uma roupa de luxo com tecido 100% tramado a partir de seda de aranha, antes de os biocientistas terem descoberto como reproduzir o material em laboratório. Foram necessários nada menos que 8 anos de coleta de seda em aranhas de Madagascar, até que houvesse fios suficientes para elaborar a capa amarela que vemos nas fotos.

A espécie tinha de ser a Nephila p. malagassa, aranha da ilha africana que produz um fio lindamente dourado. No final do século 19, missionários franceses já haviam feito tecidos com a seda desses aracnídeos e até criaram uma máquina para extrair a seda dos animais. A técnica foi abandonada ao longo dos anos por, naturalmente, ser muito trabalhosa.

Considere que, para fazer um fio de tecido, você precisa de 24 filamentos de seda de aranha, que devem ser extraídos a mão. Imaginou a trabalheira? Mais de 2 milhões de aranhas foram necessárias para conseguir a quantidade de fios suficiente para concluir a obra.

A roupa não foi feita para ser vendida ou usada — até porque o tecido obtido com a seda de aranha de Madagascar é tão delicado que nem pode ser lavado, pois encolhe. Quando ficou pronta, em 2012, a capa foi exibida em grandes museus do mundo como uma obra de arte. “Num momento em que parecia que tudo já havia sido feito, quisemos criar algo mágico, algo que pudesse maravilhar as pessoas”, disse Simon Peers.

O que achou dessas inovações da indústria da moda? Tem alguma que já gostaria de provar? Conte tudo nos comentários!

Compartilhar este artigo