As plantas falam, mas não conseguimos ouvi-las

há 7 meses

Em um mundo barulhento e agitado, as plantas nos proporcionam paz e tranquilidade. Elas não gritam, nem se movem, apenas ficam paradas, em silêncio. Mas... será que é isso mesmo? E se eu te dissesse que, neste exato momento, seu cacto favorito está enviando mensagens de texto para os amigos? E que esse tipo de comunicação poderia de fato nos ajudar a alimentar o mundo? O que as plantas podem dizer umas às outras? Todo tipo de coisa. “Socorro!” ou “Aterrisse aqui!” ou “Saia daqui!” ou “Meus frutos estão maduros!” Essas mensagens não estão sendo enviadas apenas pelas grandes, como as árvores; até mesmo pequenos pedaços de musgo podem ser bastante tagarelas. Ah, a propósito: se você já sentiu o cheiro de grama recém-cortada, na verdade se comunicou com ela!

As plantas são tão complexas em sua comunicação quanto os animais. E há muito o que descobrir sobre essas pequenas (e grandes) conversadoras. Por exemplo, um estudo recente descobriu que muitos tipos diferentes realmente emitem sons que são muito agudos para nós humanos ouvirmos! É assim que elas conversam umas com as outras quando estão estressadas. Mas não se trata apenas de estresse, pois se comunicam com todos os tipos de criaturas, de predadores a polinizadores. Mas por que deveríamos tentar “ouvi-las”? Na verdade, isso poderia nos ajudar a resolver alguns dos maiores problemas que o nosso planeta enfrenta atualmente. À medida que nossa população continua a crescer e o clima muda, precisamos encontrar maneiras de cultivar mais alimentos em menos terra. E a comunicação entre os vegetais pode ser a chave.

A questão é a seguinte: as plantas não se falam da mesma forma que nós. Elas não têm um sistema nervoso, portanto não podem enviar sinais para a frente e para trás, como nós. Em vez disso, é mais como se estivessem usando uma rede complexa de canos e tubos para movimentar as informações. Parece mais um encanamento do que qualquer outra coisa. Por exemplo, se uma folha detecta um predador ou uma mudança na luz ou no som, envia um sinal para o resto da planta. As raízes, por outro lado, podem detectar a seca e enviar um sinal às folhas para que conservem água. Os sinais elétricos percorrem todo o conjunto por meio de um sistema complexo de tubos com substâncias químicas em seu interior.

Mas aqui está a parte mais interessante: podemos realmente observar essa comunicação elétrica colocando eletrodos em diferentes partes da planta. E existem até instrumentos capazes de transformar essas cargas em sons que podemos ouvir! Portanto, se uma for ferida, podemos de fato escutar os sinais elétricos que saem dessa ferida. E se duas plantas estiverem se tocando, elas podem até mesmo transmitir esses sinais uma para a outra! E não se trata apenas de detectar mudanças no ambiente. Vejamos o exemplo da apanha-moscas e espécies vegetais sensíveis como a dormideira. Elas usam sinais elétricos sempre que são tocadas. Quando isso acontece, enviam um aviso que aciona sua resposta exclusiva. A apanha-mosca fecha a boca para prender a presa, enquanto a sensível se move para se livrar dos insetos.

Mas não se trata apenas de sinais elétricos, há também vários produtos químicos. Os hormônios desempenham um papel importante aqui. A auxina é produzida no topo de uma planta e se desloca para baixo, informando qual é o caminho para cima. Isso é muito importante para um broto que está tentando romper a superfície do solo e receber luz solar. E não é só uma questão de crescimento e desenvolvimento. Quando uma está em perigo, precisa reagir rapidamente para se defender. Portanto, muitas plantas enviam um hormônio chamado ácido jasmônico para começar a produzir toxinas e, assim, proteger-se de predadores como os insetos. É como se estivessem dizendo: “Ei, temos que reagir!”

E veja só: algumas espécies podem realmente detectar quando outras estão reagindo ao perigo. Os camundongos são capazes de “ouvir”, enquanto os insetos conseguem “cheirar” os sinais químicos que estão sendo enviados. Imagine que você estivesse andando na floresta e escutasse uma árvore gritando “Ai!!” ao longe. Isso seria assustador! Não sabemos exatamente se esses avisos são intencionais ou apenas um subproduto da resposta do vegetal. Mas eu mencionei a capacidade de emitir sons reais. Vamos falar sobre isso. Pesquisas recentes mostraram que as plantas se comunicam por meio de sons ultrassônicos quando estão estressadas. Esses barulhos podem ser captados por microfones sensíveis aos chamados de morcegos, e várias espécies os emitem, inclusive cactos e tomates. Insetos e mamíferos podem até mesmo ouvir esses ruídos, que mais parecem estalos, sem nenhum equipamento sofisticado. Os cientistas estão usando essa descoberta para encontrar novas maneiras de diagnosticar, tratar e monitorar as plantas sem causar danos.

Embora talvez não possamos ouvir, elas conseguem se comunicar umas com as outras por meio de substâncias químicas. Quando a grama é cortada, solta um odor que é um sinal de socorro. É o mesmo cheiro que nos lembra o ar livre e pode nos fazer sentir bem. Esse perfume também é liberado quando uma planta é comida por uma lagarta e assim atrai outros insetos que atacarão a lagarta. Esses aromas são chamados de voláteis e podem se espalhar por toda parte, tanto acima quanto abaixo do solo. Cada espécie tem sua própria mistura de voláteis.

Nas plantas, os compostos voláteis são substâncias químicas com várias finalidades. Eles têm o poder de atrair polinizadores para as flores, conduzi-los para as não polinizadas e convidar os distribuidores de sementes para os frutos. Além disso, conseguem desencorajar e manter os predadores longe. Esses voláteis são emitidos pelas folhas e, quando atingem uma determinada concentração, intoxicam e irritam os inimigos, de modo que eles não podem mais se alimentar das plantas, assim como uma pessoa com perfume em excesso. Além disso, as vizinhas têm a capacidade de detectar esses sinais químicos e começar a se preparar para se defender de possíveis predadores também.

As plantas têm uma maneira especial de identificar seus parentes em sua comunidade. Quando detectam seus próprios descendentes, por exemplo, ajustam seu comportamento para ajudá-los a crescer em vez de competir com eles por recursos. Além disso, liberam voláteis no subsolo, principalmente nas florestas, para enviar um sinal aos fungos, que por sua vez podem se enrolar na raiz e coletar nutrientes para a planta, em troca do açúcar que ela produziu por meio da fotossíntese. Essa relação mutuamente benéfica é conhecida como simbiótica ou mutualismo.

Nas florestas, as árvores se relacionam com muitos fungos diferentes, e cada um deles com várias árvores. Essas interações formam uma rede micorrízica, ou literalmente fungo-raiz, em que os fungos conectam as árvores. Quando um encontra a raiz de uma delas, ocorre uma troca interessante. Eles negociam pedaços de RNA que podem alterar a resposta genética do outro organismo. Se o fungo for um amigo, sinaliza para a planta que é confiável e a ajuda a crescer. Mas se for um inimigo, o RNA dele desativa os genes de defesa do vegetal, facilitando o ataque.

Se você achava que as árvores só podiam competir entre si por recursos, pense novamente. Na verdade, elas são capazes de compartilhar nutrientes e água umas com as outras se estiverem conectadas no subsolo pelos mesmos fungos. Estes agem como pequenas pontes, conectando as raízes de diferentes árvores e permitindo que elas troquem recursos. De fato, algumas das mais antigas e maiores de uma floresta são, muitas vezes, as que atuam como “enfermeiras”, fornecendo suporte e nutrientes às mais jovens e mais fracas.

Mas não são apenas os fungos que são importantes para as espécies vegetais abaixo do solo. Há também uma série de micróbios que as auxiliam a crescer e a combater doenças. Esses minúsculos organismos se prendem às raízes, formando um biofilme viscoso repleto de bactérias úteis. Estas conseguem ajudar as plantas a absorver nutrientes com mais eficiência ou até mesmo aumentar suas defesas naturais contra doenças. Os cientistas ainda estão explorando o fascinante mundo dessas interações, e há muito mais a aprender. Mas, à medida que continuarmos a estudar essas relações, poderemos descobrir novas maneiras de melhorar a saúde do solo e ajudar as plantas a se desenvolverem até mesmo nas condições mais difíceis. E isso pode ser um divisor de águas para alimentar a crescente população do nosso planeta.

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