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Eu vou contar, honestamente, como uma pessoa que depende completamente da opinião dos outros se sente

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Olá, o meu nome é Ana. Eu quero contar a você o que passa na cabeça do “eterno aluno exemplar” e por que você precisa abandonar o desejo de ser o melhor em tudo. Pessoas como eu raramente são aceitas pela sociedade. Mas é exatamente a aprovação de estranhos que buscamos, e não conseguimos perceber que somente nós temos o direito de dar valor a nós mesmos e às nossas vidas.

A síndrome do nerd é um perfeccionismo doentio que ofusca outros sentimentos e outras necessidades. A pessoa direciona todas as suas forças ao trabalho e/ou família, mas sempre sente que não está fazendo o suficiente. É então que aparecem complexos e depressões e, em alguns casos, ataques de pânico ou até doenças físicas. Especialmente para o Incrível.club, compartilharei minha experiência para ajudar o maior número possível de pessoas a acreditarem em si mesmas e em suas qualidades.

Às vezes, as crianças começam a sofrer a síndrome do aluno exemplar por causa dos pais. As expectativas exageradas do pai e da mãe se transformam em um certo modelo de comportamento: tirou 10 — “muito bem, eu te amo”. O sistema escolar, infelizmente, apoia esse modelo e com a idade as condições se tornam mais severas. Os “alunos nota 10” têm a seguinte certeza: se fizerem tudo o que puderem, no limite de suas capacidades, certamente serão amados e respeitados.

Além disso, hoje há um culto à vida bem-sucedida. Está em todas partes: nas redes sociais, na TV e, pelo que parece, até mesmo entre os nossos amigos e ex-colegas de classe. E nós, “alunos exemplares” patológicos, nunca conseguimos alcançar o nível dos demais e existimos como se fôssemos um plano de fundo da vida feliz de outras pessoas.

Na minha história, meus pais não foram os culpados. Minha mãe e meu pai me amavam incondicionalmente: eles não estabeleciam condições do tipo “se tirar nota 10, vamos comprar um brinquedo”. Porém, a primeira professora que tive abusava do seu poder sobre os alunos na escola: nos comparava uns aos outros e interrompia todas as tentativas de expressar nossas opiniões. Eu, ainda pequena, aos 7 anos, não gostava nada daquilo: não conseguia entender por que o ponto de vista dessa mulher eternamente zangada era o único ponto de vista verdadeiro. Eu comecei a discutir, e esse foi meu grande erro.

A professora sabia que eu estava tirando notas excelentes, mesmo para minha turma “avançada”, e ainda não conseguia gostar de mim. Ela basicamente me dava 8, com um sorriso, devolvia o caderno com ódio para a aluna “não exemplar” e dizia: “Já a Gabriela / Júlia / Gustavo são muito inteligentes, tiraram 10...”

Logo, todas essas Gabrielas e Júlias começaram a entender que tinha algo de errado comigo. Eu tentava, mas não era elogiada, não me colocavam como exemplo, não falavam comigo. Já com eles — sim. Então, eu era uma perda de tempo. Por isso, alguns colegas não gostavam de mim e outros preferiam simplesmente não olhar para mim. Eu queria ser amigável e me comunicar, mas ninguém estava interessado em alunos exemplares e espertos. E quanto melhor o resultado de um aluno exemplar, maior a hostilidade dos colegas de classe.

No ensino médio, quando eu tirei um 4 inesperado na prova, o pessoal da turma fez uma festa para comemorar. Eu os odiava por isso, mas odiava ainda mais a mim mesma. Eu tinha fracassado, não poderia deixar isso acontecer novamente. Então, eu precisava estudar ainda mais para provar para eles... ou provar para mim mesma?

Eu estudava dia e noite, lia os livros didáticos, tentei ler Conan Doyle na versão original, ganhei olimpíadas e, ainda assim, sentia que não estava fazendo o suficiente. Eu estava certa. Só medalha de prata (nem chegou à medalha de ouro, que vergonha!), para ganhar a medalha de melhor aluna do ano, faltou só uma nota 10. Na formatura, os professores abraçaram todos os meus colegas de classe, dizendo que eles fizeram um bom trabalho. Para mim, disseram com os dentes cerrados: “Nós esperávamos mais de você”. Não consegui provar nada a ninguém.

No meu primeiro emprego, fiquei novamente convencida de que não conseguia fazer nada. Eu tinha horror de cometer alguns erros, refazia o trabalho 3 vezes, tentando alcançar o ideal. Eu quase parei de comer e dormir, muitas vezes chorei, e nas poucas horas de sono, tinha pesadelos. Eu tinha 20 anos, 1,67 de altura e pesava 46kg.

Eu não conseguia encontrar meu lugar e mudei várias vezes de emprego. A maioria dos “alunos exemplares”, como eu, anseia pela aprovação dos outros. Nós nos acostumados com o sistema de avaliação e, na idade adulta, somos avaliados por todos aqueles que não são preguiçosos (como eu pensava antes). Inclusive no trabalho. É preciso que coloquem nota 10, elogiem, passem a mão na nossa cabeça e finalmente nos digam o quanto somos bons.

Por isso, eu precisava conquistar o respeito de um time novo cada vez. Tentei agradar e ser útil, oferecendo minha ajuda aos colegas, mas pessoas têm um hábito desagradável: elas começam a abusar da sua bondade muito rápido. Logo, todas essas “ajudas com o relatório”, “redações de artigos pela amizade” se tornaram meu dever.

Eu entendia perfeitamente que estava sendo usada, mas não conseguia dizer não. Afinal, a pessoa precisava de ajuda e eu podia ajudar, então eu tinha que ajudar. Senão, seria vista como uma pessoa malvada. No final das contas, eu mesma era culpada. Por isso, meus colegas recebiam elogios e eram promovidos, e eu continuava sendo uma funcionária comum, que ninguém notava.

O mais difícil foi acreditar em mim mesma. Certa vez, eu organizei sozinha um curso de treinamento para a empresa na qual trabalhava. Toda a responsabilidade pelo projeto era minha, por isso eu tremia de nervosismo, como louca. Eu tive 2 meses para preparar a sala de aula, elaborar o programa com os professores e matricular os alunos. Por isso, eu comecei a trabalhar sem pensar em descanso.

Eu tinha medo de que não encontrasse nenhum interessado em estudar, e na verdade, encontrei o dobro do planejado. Eu estava com medo de que eles não gostassem, mas dos 16 alunos, apenas um não gostou do curso. E ainda assim, ele estava entre os participantes! O rapaz pediu um reembolso e deixou o meu curso! Mais uma vez, eu não consegui lidar com a situação e, por vários meses, não consegui trabalhar normalmente devido ao constante sentimento de falta de profissionalismo.

Para mim, não havia meio termo: se tivesse que ficar até tarde no trabalho, eu ficava até a meia-noite, se tivesse que ajudar, dava o meu máximo. Eu simplesmente não tinha o direito de trapacear e não fazer meu trabalho 100%, mas continuava me considerando uma perdedora. O mesmo acontecia nos relacionamentos pessoais e em casa.

Meu primeiro namorado adorava repetir: “Quem mais iria querer estar com você além de mim? Você deveria estar feliz por eu estar com você!” E eu estava feliz. Eu aprendi a cozinhar de acordo com as receitas, mantinha a limpeza da casa impecável. Para não “encher a cabeça” do rapaz, estudei dezenas de livros de psicologia... e, mesmo assim, não era boa o suficiente. Depois passei para um outro relacionamento, com um parceiro que bebia bastante, mas pelo menos não me xingava e não brigava comigo.

Eu tinha certeza de que ainda não merecia nada melhor.

Eu continuei a trabalhar e aguentar a situação. Quando eu tinha 24 anos, tive que fazer uma cirurgia: todas as minha tensões resultaram em uma ferida muito desagradável e incurável. Três dias depois da cirurgia, meu chefe me ligou: — Volte para o trabalho, por favor, não tem ninguém que possa lhe substituir. E eu voltei. Para quê...?!

Foi aí que me dei conta de que não dava mais para viver assim. Todo esse tempo eu estava esperando a aprovação dos outros. Eu fazia alguma coisa e depois com um olhar de súplica olhava para eles: “Está tudo bem? Vocês realmente gostaram? Vocês não vão rir de mim?”

Chega. Para mim já basta.

Comecei a me reconstruir aos poucos. No início foi difícil: o costume de trabalhar até a exaustão não me deixava ficar à toa até mesmo meia hora. O mais difícil foi aprender a dizer não. Eu tinha a impressão de que com o meu “não”, eu estava traindo toda a humanidade. Porém, surpreendentemente, ninguém morreu.

Finalmente eu consegui abandonar o parceiro com quem não me dava bem, e o trabalho que me espremiam como laranja. Agora eu entendo, que nunca fui defeituosa, nós apenas somos todos diferentes. Nove anos após terminar a escola, eu consegui perdoar meus colegas de classe, a minha primeira professora e entender, que eu realmente valho alguma coisa. A todos os “alunos exemplares” patológicos, aconselho o seguinte:

  • Pare de criticar cada um de seus passos. Todos cometemos erros, mas nos culpar constantemente é um caminho direto para a neurose. Em vez de praticar autocrítica, aprenda a se elogiar. Ao invés de “eu trabalhei muito pouco hoje”, use “entreguei 2 relatórios hoje e limpei a máquina de café”.
  • Mantenha um diário de conquistas e anote tudo o que você fez durante o dia. Assim, será mais fácil você se elogiar e amar a si mesmo.
  • Entenda que o ideal é inatingível e você não se tornará o melhor dos melhores, apenas pelo fato de que você elevará seus padrões infinitamente. Para que você está tentando se tornar o melhor aluno do ano, o funcionário do mês, a esposa ideal? Para pendurar um diploma no quarto? Todos nós estamos tentando simplesmente ser felizes, e a felicidade é apenas a capacidade de valorizar o que se tem.
  • Aprenda a descansar. Eu estou falando sério. Reserve tempo para o ócio agradável, pelo menos alguns minutos por dia, para começar, isso parecerá loucura, mas você vai conseguir. Assista a sua série de TV favorita, se jogue no sofá com um bom livro, simplesmente não pense em suas responsabilidades.
  • Pense em si mesmo e aprenda a dizer “não”. Tome decisões de acordo com as suas necessidades, e não de acordo com os desejos de outras pessoas. Você não deve nada a ninguém. Além disso, a sua saúde deve ser sempre mais importante que o trabalho.
  • Frequente um psicólogo. Eu não fiz isso porque estava convencida de que estava bem, e que os outros estavam apenas melhores do que eu. Eu precisava descobrir que isso era um problema. Foram necessários 2 anos para que eu o resolvesse sozinha.

Em suma, tente simplesmente “deixar os problemas de lado” às vezes. Eu estou aprendendo a filosofia da indiferença com a minha gata Muci. Essa fofura mostra em sua aparência: “Eu sei que você me ama, mesmo que eu quebre este copo, oh, ele quebrou sozinho, me dê comida”. Ela tem certeza de que não precisa fazer nada sobrenatural, mas apenas ser ela mesma, para ser amada e apreciada. Legal, não é mesmo?

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