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Verifiquei (por experiência própria) se um homem poderia arcar com as mesmas responsabilidades de uma mulher em licença maternidade

Na Rússia, tanto a mãe como o pai de uma criança podem tirar licença maternidade. Mas, na prática, apenas 2% dos homens fazem uso dessa licença. Meu nome é Dmitri e há 8 meses posso dizer, com orgulho, que sou um jovem papai. Infelizmente, não posso passar muito tempo com meu filho, pois trabalho, sustento minha família e tenho certas responsabilidades e tarefas dentro de casa. Escuto, no entanto, frequentemente da minha mulher, que cuida do nosso filho, o quanto ela está exausta. Nós discutimos qual de nós dois tinha a vida mais difícil e, para resolver esse conflito, resolvemos trocar de lugar por uma semana.

Quero compartilhar os detalhes desse experimento com o Incrível.club, sob o título de “Quebrando estereótipos” ou “Papai está de licença”.

Condições do experimento

Tirar licença maternidade e passar 7 dias fazendo todas as tarefas domésticas. Minha mulher, por outro lado, irá ao trabalho e se encarregará de consertar qualquer coisa que possa vir a quebrar em casa. Como ela trabalha de home office, ela só precisava ligar o computador. Para que pudéssemos avaliar o experimento da melhor forma, durante esses dias, ela trabalharia fora de casa: ela levaria o notebook para a casa de uma amiga. Isso seria importante para evitar a tentação de me ajudar.

Licença — Expectativas vs. Realidade

Eu planejei resolver questões de trabalho de casa e avisei meus colegas que eles poderiam me escrever se precisassem de alguma coisa. No primeiro dia, eu estava muito feliz: não precisaria ir ao trabalho, perder tempo com transporte, e essas 3 horas eu ganharia de tempo livre em casa. Além dos cuidados com a casa e com o bebê, eu também quis reservar um tempo para jogar PlayStation, já que desde que nosso bebê nasceu eu quase não tive tempo livre.

Minha mulher, então, saiu de casa. Eu me despedi, com o bebê nos braços, e ainda de pijamas. Ficarei sozinho com meu filho por 8 longas horas. Na mesa da cozinha vejo uma folha com instruções sobre o que fazer e como cuidar do bebê: o que devo dar para comer, que horas colocar para dormir, quando passear e o que vestir. Todo o resto estaria por minha conta.

Eu queria ler as instruções com calma, tomando meu café da manhã, mas meu filho tinha outros planos: começou a fazer birra. Tentei acalmá-lo, peguei no colo, andava para lá e para cá, tentei alimentá-lo, mas ele jogou a papinha em cima de mim e nele mesmo. Enquanto eu tentava dar banho e depois colocar a roupa, ele gritava sem parar. Eu liguei para minha mulher dizendo “ele quer você”. Ela ficou um pouco preocupada, mas não veio ao meu resgate.

Para dar um fim a essa loucura, resolvi passear: eu já tinha uma certa experiência nisso e comecei a colocar um macacão nele. Ouvi dizer que crianças não gostam muito de se vestir, mas o grito do Kirill (meu filho) ia muito além do normal. Honestamente, pensei que os vizinhos chamariam a polícia.

Já bastante chateado, coloquei a roupa de qualquer jeito, pus um casaco e sai para a rua, sem nem mesmo tomar banho. O passeio realmente nos acalmou, mas tinha o problema da minha fome. Eu consegui comer apenas um pequeno sanduíche enquanto ele estava no carrinho. Essa foi a única refeição do dia até o horário de preparar o jantar, quando pude mostrar todo o meu talento culinário.

Chamo a atenção para o prato do dia. Enquanto corria atrás do bebê, esqueci a comida no forno e quase queimei tudo.

No final do segundo dia, eu me dei conta de como estava errado

Eu era responsável por tudo: cozinhar, lavar, passear, fazer compras e até levar o bebê à clínica médica. Minha mulher não pegou leve comigo. Por exemplo, eu tinha que sempre limpar o chão, pois o bebê precisava engatinhar; precisava também fazer um jantar decente, pois deveríamos levar um estilo de vida saudável. Enfim, não era fácil.

Eu também me senti impotente: quando você começa a viver com uma mulher, ela toma conta de tudo, de tal forma que você precisa perguntar onde estão suas meias, pois não consegue achar. Ela também era responsável por tudo relacionado ao nosso filho. Pense bem: se eu não sei onde estão minhas meias, como eu vou saber onde estão as meias da criança? Eu diria que certos homens (incluindo eu) têm uma característica bem marcante de não ver as coisas que estão bem à nossa frente. Por esse motivo, eu ligava constantemente para minha mulher para perguntar onde estavam as coisas.

Minha mulher se adaptou rapidamente

Minha esposa se queixava com frequência de que sempre estava cansada e que se sentia isolada da sociedade. Nessa semana, no entanto, ela se sentou à mesa somente para brincar com nosso filho enquanto eu cozinhava. Ela estava feliz por eu estar “desfrutando” dos privilégios da licença maternidade. Depois que chegava em casa, ela me perguntava quais os passos seguintes: quando deveria dar banho, alimentar e que horas pôr para dormir. Fiquei muito feliz por nosso filho não estar na escola ainda, se não precisaria ainda ler livrinhos à noite e ajudar com dever de casa.

O humor da minha mulher estava excelente, ela parecia ainda mais bonita. Além disso, não havia quebrado nada em casa e não foi preciso mexer em nenhum móvel, ou seja, depois do trabalho ela não tinha nenhuma tarefa. Mas eu não conseguia parar de pensar na pergunta: quando é que eu vou ter tempo para o PlayStation?

“As coisas não foram bem assim. Eu ainda o ajudava à noite a preparar a comida, tirava a roupa da máquina de lavar, que ele esquecia com frequência, e arrumava a bagunça. Além disso, eu sempre fazia o cronograma do dia, dando dicas valiosas. Mesmo assim, ele me ligava a cada 5 minutos, perguntando: ‘Onde estão as meias do coelhinho?’, ‘O que eu faço se ele não quiser comer?’, ‘Ele não dorme de jeito nenhum!’. À noite a mesma coisa: bagunça, tudo jogado no chão, meu marido comendo a sopa da criança e dando biscoitos a ele que não podia. Pegava a criança e colocava no banho, depois colocava para dormir. Eu ficaria louca com essa licença ‘masculina’, mas tudo bem, deixei ele continuar...”
Esposa do Dmitri

Eu comecei a entendê-la melhor

Kirill comia, dormia, chorava, sujava as fraldas, e isso se repetia várias vezes durante o dia. À noite eu já não tinha mais forças nem energias. Parecia um robô. Eu não tinha tempo para mim. Se meu filho estava quieto, eu deveria estar fazendo alguma tarefa doméstica, mas muitas vezes, eu ficava deitado sem me mover, para evitar a tensão emocional.

Por isso, decidi criar uma programação diária, colocar o alarme para despertar para controlar todas as tarefas do dia. Eu achei que isso facilitaria minha vida: saberia exatamente a hora de alimentar e pôr para dormir. Mas o meu pequeno anjinho tinha outros planos.

Eu sou um guarda-costas

Meu filho começou a engatinhar muito e tentou até andar algumas vezes. Ele se metia em todo canto, precisava estar sempre atento para evitar acidentes, além de constantemente ter de retirar todos os objetos de risco da frente dele. A criança estuda o mundo à sua volta assim: um dia eu o encontrei lambendo as rodinhas do carrinho, logo depois que tínhamos chegado de um passeio pela rua. E não adianta dizer que não pode e que ele pode pegar uma doença desse jeito. Ele só vai entender que é errado quando você der um tapa na mão dele ou tirá-lo de lá.

Preciso levá-lo à clínica médica: lá havia crianças de um ano e meio sentadas com aparelhos eletrônicos nas mãos, brincando e assistindo desenho animado. É um pouco triste, claro, mas o exemplo é dado pelos próprios pais. Por isso, decidi usar menos meu telefone e o computador perto do meu filho: trabalhava somente quando ele já estava dormindo. Mas para o PlayStation não conseguia encontrar tempo.

Dias de cão

Acordava às 6 da manhã. Alimentava, brincava, colocava para tirar uma soneca, ia fazer as tarefas da casa e lavar as roupas. A criança acordava, alimentava novamente, brincava, passeávamos e, no caminho, comprávamos alguma coisa numa loja. Todos os dias subsequentes foram quase idênticos a esse. É muito difícil compreender a dolorida regularidade dessa rotina até você se encontrar nela. Posso dizer, no entanto, que essa rotina me deu novas habilidades: realizar tarefas domésticas ao mesmo tempo que escrevo um e-mail para o trabalho e seguro o bebê no colo.

No começo eu ligava muitas vezes para minha esposa, em pânico, sem saber por que meu filho não parava de chorar. Agora eu meio que já entendo o motivo do choro (ou acho que sei o motivo). O que eu posso dizer que realmente aprendi foi: se a criança está dormindo, durma você também. Eu não conseguia dormir bem todos os dias, mas tentava achar tempo para isso para não ficar exausto no final do dia, como um limão espremido.

Concentração é o meu nome do meio. Comecei a esquecer o que era preguiça e passar tempo sem fazer nada. Antes eu costumava andar pela casa, pensando se tinha esquecido algo antes de sair, e agora eu fico pronto em poucos minutos. Caso contrário, meu filho já começa a chorar. Parece que é ele que está cuidando de mim.

Durante o experimento, eu aprendi que...

  • Dividir responsabilidades entre “masculinas” e “femininas” é só motivo para brigas e discussões.

  • Preciso tentar ajudar minha esposa mais em casa e dividir as tarefas domésticas.

  • Alguns utensílios domésticos eu praticamente não conhecia, por exemplo, precisei aprender a usar o mixer. Já a máquina de lavar, eu descobri que existiam outros modos de lavagem, exceto o de lavagem rápida (sem contar que existem produtos diferentes para certos tipos de roupa).

  • Tanto os pais de licença maternidade, como as mães, pensam em apenas uma coisa: dormir.

  • Manter um equilíbrio entre cuidar da criança e de si mesmo é uma arte que eu ainda não dominei. Em uma semana é impossível.

  • Meu filho é o “projeto” mais interessante da minha vida. Mas o trabalho é proporcionalmente maior: aqui você não pode ficar cansado, não pode relaxar quando quiser ou tirar dias de folga por questões de saúde.

  • Esse experimento me aproximou mais do meu filho, e fez com que ele ficasse mais apegado a mim, que era a pessoa que estava com ele o tempo todo.

  • Fiquei mais consciente de como esse trabalho é árduo: preocupações com o cuidado da casa e a dependência constante que a criança tem com você.

  • Como é difícil depender das vontades do bebê — do seu humor, sono e dentes que estão nascendo.

  • Sinto que já posso passar todo meu tempo com meu filho agora. Antes eu estava esperando que ele crescesse um pouco mais, ou quando pudesse falar, para criar uma ligação com ele. Mas esse processo começa desde já.

Sugeri que trocássemos de lugar por um período de tempo mais longo

Mas ela respondeu em alto e bom som que “não”. Eu acredito que isso esteja ligado ao egoísmo feminino, que parece algo do tipo: “Não quero dar a ninguém os primeiros passos, o primeiro sorriso ou as primeiras palavras do meu bebê”. Mesmo que para o pai.

E você, tem filhos? Se identificou com algumas das realidades descritas acima? Quem na sua família está mais envolvido nos cuidados diários com a casa e com as crianças? Escreva abaixo!