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“Sofro julgamentos sempre que digo que tenho um filho que não mora comigo”

Quando meninas nascem, o primeiro presente que costumam ganhar é uma boneca. Logo, o brinquedo passa a ser referido como “a filhinha dela”. É logo nessa brincadeira, à primeira vista inocente, que as crianças têm uma lição inicial sobre o papel delas na sociedade: mulheres são obrigadas a ser mães, custe o que custar.

Responda honestamente: será que todas as mulheres querem viver na posição de mães perfeitas em tempo integral? A paternidade tem um papel facultativo na nossa sociedade, mas a maternidade é vista como obrigatória — e sagrada. Afinal, é a mulher que “cuida melhor”. Enquanto o pai deve ser o suposto provedor da família, espera-se que a mãe abra mão de tudo para cuidar dos filhos.

A brasileira Dandara Ramalho, de 26 anos, é uma das mães brasileiras que passou a guarda do filho para o pai. Em um importante relato escrito para o blog “Tudo Sobre Minha Mãe”, a estudante de Psicologia revelou como esta decisão veio carregada de culpa e de julgamentos diários.

Nós, do Incrível.club, conversamos com Dandara para conhecer um pouco melhor sobre a sua trajetória e a do seu filho, João, de 4 anos. Nosso objetivo é trazer o outro lado da história e mostrar como nenhuma mulher é “menos mãe” por tomar esta difícil decisão. Acompanhe com a gente.

“Precisava trabalhar, estudar e me vi sem rede de apoio”

Cortesia de Dandara Ramalho ao Incrível.club

Quando João tinha 3 anos, Dandara passava por um momento atribulado: ela precisava estudar, trabalhar e cuidar do filho. Sem uma rede de apoio, ela chegou a se perguntar: “Eu não tenho ninguém que possa ficar com ele?”

Foi assim que surgiu possibilidade de passar a guarda diária da criança para o pai, que cumpria seu papel com excelência. No entanto, o caminho para essa decisão foi envolvido por culpa e julgamentos.

“Querem nos fazer acreditar que a culpa é sempre nossa”

Dandara conta que, antes de tomar a decisão, ela precisou desconstruir o sentimento de culpa que as mulheres carregam sobre a maternidade. Nesse período, a terapia foi um processo fundamental para colocar sua decisão em prática e concluir que ela também precisava investir nos próprios sonhos. “Afinal, querem nos fazer acreditar que a culpa é sempre nossa, não é?”, questionou.

“Minha mãe foi a primeira a me julgar”

Cortesia de Dandara Ramalho ao Incrível.club

Apesar do pai ter aceitado de imediato a proposta de ficar com a guarda do João, nem todos enxergaram a decisão com bons olhos. Dandara contou que sua mãe foi a primeira a julgar e disse que não a ajudaria, pois a “obrigação” era dela.

“Minha mãe foi uma pessoa que não teve oportunidade para fazer uma graduação cedo. Ela me teve com 17 anos e, logo depois, meu irmão, com 20. Hoje ela é contadora, mas só foi fazer graduação quando a gente já estava maior. Com isso, ela foi a primeira a julgar a minha decisão, pois dizia que eu estava sendo egoísta. Ela dizia que eu deveria esperar o João crescer para estudar, porque ela fez isso. Mas voltar para a faculdade, ainda que fosse meu maior sonho, não foi o maior dos motivos”, disse.

Lembra que a gente falou que a Dandara se viu sem uma rede de apoio quando o João tinha 3 anos? Por questões familiares, sua avó, que auxiliava na criação diária, passou a não poder ajudar mais.

A alternativa seria colocar o João em uma escola em tempo integral, mas a opção de deixar seu filho com o pai e a avó paterna era bem mais interessante, já que seu filho poderia ter a família mais presente no dia a dia. Além do conforto do lar, claro.

“Sofro julgamentos sempre que digo que tenho um filho que não mora comigo”

Cortesia de Dandara Ramalho ao Incrível.club

É justamente por conta de uma sociedade que condena mães “imperfeitas”, que Dandara ouve julgamentos diários.

“Sofro julgamentos sempre que digo que tenho um filho que não mora comigo. [...] Tem pessoas que apoiam depois de saber da história, tem as que continuam julgando. Na maioria das vezes, são perguntas como: ’Já pensou o que seu filho vai achar disso no futuro?’ ou ’você não tem medo dele não querer voltar?’. Há mães que se acham superiores porque alegam que não teriam coragem de fazer isso, porque o filho é da mãe independentemente de tudo”, revelou.

“A culpa sempre acaba surgindo”

Cortesia de Dandara Ramalho ao Incrível.club

João mora atualmente com o pai e passa a maioria dos finais de semana com a Dandara. Ela diz que, apesar da difícil decisão ter sido tomada há cerca de um ano, o sentimento de culpa “sempre acaba surgindo”.

“Principalmente durante episódios que ocorrem no dia a dia, como perguntas sobre o dever de casa e assuntos relacionados a escola no grupo de mães do colégio, onde me vejo muitas vezes ’desatualizada’ dos assuntos, pois as mães têm acesso mais rapidamente aos filhos após a aula e eu ainda tenho que esperar o pai me repassar as informações”.

Para as mães que passam por situações semelhantes, Dandara diria para elas “fazerem aquilo que faz o coração delas vibrar”. “Foque somente no que acrescenta e aceite ’conselhos’ somente de quem pode somar de alguma forma. Julgamentos sempre vão acontecer, independentemente da escolha que você fizer”, completou.

O que você achou do depoimento da Dandara? Você, de alguma forma, já foi julgada por não preencher o papel de mãe, tal como a sociedade espera? Conte para a gente nos comentários.