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Uma história comovente sobre como podemos salvar a vida de uma pessoa simplesmente esperando por ela

Quase todo mundo já passou, alguma vez na vida, por um momento em que precisou de palavras de apoio ou de um simples tapinha no ombro, acompanhado de palavras como “tudo vai ficar bem!” Sobre essa temática, há um conto bastante interessante de um escritor conhecido na internet como Grubas. Ele trabalha como diretor de televisão e, nas horas vagas, escreve histórias inspiradas em experiências próprias.

Incrível.club acredita que esse conto possa inspirar as pessoas a prestarem mais atenção a quem está ao seu redor. Acompanhe!

Sou uma pessoa que adora mudanças, mas, com certeza, não gosto de todas. Vou ao mesmo dentista há 18 anos. Ele atende em uma clínica pequena e se chama Boris.

Boris é um cara bastante positivo e tem mais ou menos a minha idade. Como já sou um cliente antigo, recebo um “atendimento especial”, e creio que não seja exagero falar que ele conhece meus dentes melhor do que eu. No mais, as obturações que ele faz duram bastante tempo; o que mais eu poderia desejar?

Um dia, como às vezes acontece, comecei a sentir um incômodo nos dentes, mais especialmente em um em particular...

Liguei para o Boris:

— Oi, Boris. Você está podendo falar?

— Oi, é...

— Queria marcar uma visita ao consultório.

— ...

— E esse silêncio?

— Ah, você sabe... acho que não vai dar certo. Deixa eu lhe passar o telefone de outro dos nossos dentistas. Você deve se lembrar dele, um grisalho. Ele é muito bom, faz tudo muito bem, assim como eu. Desculpe, não posso falar agora...

— Tudo bem, obrigado, Boris. Fico no aguardo do número.

E, cerca de trinta minutos depois, recebi um SMS com o número telefônico e o nome do outro dentista.

Já tinha discado o número quando, por algum motivo, mudei de ideia e desisti. No fim das contas, por que deveria ir a um dentista desconhecido se já conheço o Boris há tanto tempo? Não, não irei a outro, vou esperar o Boris, seja lá o que ele tenha. Ainda bem que meu dente foi absolutamente solidário com a minha decisão: ele, pelo jeito, estava “com medo” do dentista grisalho desconhecido. Então, “se escondeu” e parou de doer.

Então, telefonei para o Boris novamente:

— Alô, sou eu de novo. Estava pensando... posso esperar por você? Não queria ir a outro dentista. Por que outro se você ainda está vivo?

Veio, então, um silêncio constrangedor. Foi quando dei uns risinhos. Boris apenas permaneceu respirando alto e calado do outro lado da ligação. Mas então respondeu:

— Você quer mesmo esperar por mim?

— Sim, por quê?

— Melhor não. Sem falar que você terá de esperar muito tempo; talvez um mês, talvez dois. Não hesite, melhor ligar para o outro dentista que lhe passei o número.

Nesse momento, por algum motivo, senti que o Boris queria que eu esperasse por ele mais do que tudo nesse mundo. Então, respondi com firmeza:

— Não. Eu te espero. A propósito, onde você está?

— Ah, eu viajei para resolver umas coisas. Mas então, você vai mesmo me esperar?

— Como eu disse: vou ficar esperando por você. Não se preocupe, não vou sumir.

— Então me telefone daqui a três, ou melhor, quatro semanas.

Exatamente um mês depois, eu e meu dente telefonamos para Boris, e ele, novamente, me propôs que marcasse com o outro dentista, mas insisti novamente. Então, combinamos mais uma vez que eu deveria telefonar para ele no mês seguinte.

... E nessa história se passaram cinco meses. Eu já estava começando a perder a paciência e a ficar irritado pela minha teimosia em querer esperá-lo. Isso sem mencionar que meu dente estava dando indícios de que também não iria querer esperar mais. Afinal, o que será que ele estava fazendo aquele tempo todo? Se ao menos eu soubesse que essa história iria se prolongar tanto, já teria desistido do Boris. Que pessoa mais complicada ele estava se mostrando.

Mas então, para a minha surpresa, o próprio Boris me telefonou:

— Oi, você ainda está me esperando?

— Estou sim, e não só eu, como o meu pobre dente...

— Você pode ir à clínica amanhã às 22h?

— Às 22h? Mas por que tão tarde? Seu consultório funciona só até as 19h.

— Ah, porque ninguém vai atrapalhar. E então, você pode?

— OK, marcado às 22h então.

Na noite seguinte, quando estava no trânsito a caminho da clínica odontológica, de repente recebi uma ligação do Boris. Ele se desculpou por um bom tempo, deu algumas desculpas esfarrapadas e pediu para que remarcássemos a consulta para a noite do dia seguinte. Não sei por que, mas eu não fiquei chateado. Simplesmente concordei e comecei a procurar o retorno mais próximo para voltar para casa.

E então, finalmente, chegou a noite tão esperada.

Boris parecia bem mais magro, mas, como sempre, bastante positivo e de alto astral. Nos encontramos na entrada da clínica e fomos andando, passando pelas salas já vazias entre a recepção e sala dele. Não sei como explicar, mas na hora tive a sensação de que eu não era um paciente e que Boris não era um dentista. Parecíamos dois meliantes noturnos explorando a área sem um rumo certo. Me peguei até sussurrando durante o caminho...

Boris, então, me acomodou na cadeira, se inclinou sobre mim e, como de costume, começou a vasculhar a minha boca com seus instrumentos brilhantes de cor metálica. Tudo estava normal, apenas notei que sua testa estava mais suada que de costume e seus óculos estavam embaçados.

Quando ele finalmente terminou, perguntou, mantendo o tom profissional:

— Morda. A restauração está atrapalhando?

— Não, não. Obrigado. Quanto te devo?

Por causa da máscara, não percebi de imediato que Boris estava chorando. Perguntei-lhe o que havia acontecido e ele chorou ainda mais, parecia uma criança. Mas, então, se recompôs e respondeu:

— Desculpe. Não precisa pagar, eu é que devo lhe pagar pelo fato de você... ter esperado. Quando você me ligou, eu não te disse nada, mas naquele momento eu tinha acabado de acordar depois de receber a anestesia. Tive um derrame e todo o lado esquerdo do meu corpo ficou paralisado. Ninguém acreditava que eu iria me levantar da cama um dia. Menos ainda, que poderia voltar ao trabalho. Nem minha esposa acreditava. Mas eu dizia para todos: “para o inferno tudo isso. Eu tenho um paciente e ele está esperando por mim”.

Ficava de manhã até à noite exercitando e fortalecendo meu corpo e todo dia me lembrava de você e pensava: “Se ele ao menos me esperasse, se ele me esperasse...” Ontem, não pude. Peço desculpas novamente, fiquei muito nervoso. Como me sairia com meu primeiro paciente? E se a minha mão esquerda falhasse? Acredite ou não, meus dentes até trincavam de tão nervoso que estava...

Pfuu! Eu sou um dentista de novo! Eu sou um dentista! Eu sou um dentista de verdade! Vou ligar para a minha esposa. Uhuuu!!

Até as prateleiras de vidro vibraram com a comemoração animada do Boris...

Você conhece alguma história real de alguém que só precisava de um apoio ou de um empurrãozinho? Conte para a gente na seção de comentários.