Incrível
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Por que eu faço de tudo pelo meu filho e não tenho vergonha disso

Desde criança ouvimos: “Vamos, aprenda, cresça! Vai depender da sua mãe até a velhice?”. E gradualmente nos acostumamos ao fato de que não se deve pedir ajuda, assim como não devemos esperar que alguém cuide da gente, pois se já não tem ajuda da mãe, imagine de outras pessoas. Dessa forma, aprendemos a lidar com os pequenos problemas da vida, mas quem sabe acabamos perdendo algo importante ao longo do caminho?

Eu, autora do Incrível.club, estou cansada de ouvir críticas dos outros por fazer algumas coisas simples para meu filho já crescido, e queria compartilhar com nossos leitores por que não tenho vergonha disso. Além de achar que estou fazendo a coisa certa. Confira!

Meu filho adolescente ainda não sabe amarrar o cadarço. Ele me traz seu tênis tamanho 40, me olha com cara de pidão e diz: “Mãe, amarra meu cadarço!”. A minha sogra reclama: “Por que colocamos ele na melhor escola? Por que lhe demos os melhores brinquedos?”. Já meu marido ri: “Ele só vai aprender quando a mãe engravidar”. Minha amiga tenta fazer minha cabeça: “Você está tratando um menino crescido como uma criança!”.

Ele é mais alto que eu, mas eu amarrarei seu cadarço, sempre vou verificar se o uniforme da escola está em ordem e comprarei chocolate e marshmallows quando ele estiver triste. Arrumarei seu cachecol e acenarei pela janela quando ele estiver indo para a escola. Pode me considerar louca e dizer: “Que tipo de homem você está criando?”. Não quero criar um homem, quero criar uma pessoa feliz, que seja capaz de cuidar dos outros e aceitar ser cuidada também.

Meu filho me ajuda a carregar o fardo do dia a dia, ele sempre me ajuda nas tarefas domésticas, e se os filhos das minhas amigas estiverem presentes, ele é paciente, atencioso e fica feliz em ficar com os pequenos, inventando várias coisas para fazer com eles. Odeio pendurar roupa, e ele sabe disso, então quando escuta a máquina de lavar terminando o serviço, ele vem a socorro e me salva dessa tarefa tediosa. Ele sempre está disponível para ajudar o pai ou a mim. Então, diante de tudo isso, não me importo se ele não sabe amarrar o cadarço, faço sem nem questionar, mesmo que ele consiga amarrar.

Também sei martelar pregos, trocar pneus e consertar o zíper quando fica preso o tempo todo, mas se não tenho tempo, meu marido faz por mim. Ele arruma meu cachecol, e eu o dele. É assim que nossa família funciona: quem tem mais facilidade com alguma coisa é quem faz. Quem quer cuidar de outra pessoa não pensa: “Nossa, ele não sabe fazer um chá? Que tipo de homem é esse?”

Uma vez, um parente veio nos visitar. Meu filho fez waffles para o café da manhã e acabou sujando a cozinha inteira. Ele ainda deu uma limpada, mas tinha massa por todo canto. Enquanto minha tia tomava chá, comecei a limpar o resto. “Você vai mimá-lo até ele se casar?” — perguntou ela. “Mande-o limpar a cozinha”. Aposto que ninguém na casa dela faria algo para agradar outra pessoa.

Para minha tia, o normal é puxar o homem, mostrar o que ele fez e depois comentar sobre sua falta de jeito. É por isso que os filhos dela e o marido nunca levantarão mais cedo para fazer um café da manhã para ela. Cozinhar é dever da mãe. Dessa forma, toda a estrutura familiar se baseia em cada um lidando com seus próprios assuntos. Já nós somos considerados frouxos, pois aquele que está menos cansado ou faz melhor determinada tarefa é quem assume a responsabilidade. Se um filho quis fazer waffles para a mãe, não custa nada ela limpar a bagunça que sobrou depois.

Mas impedir minha tia de implantar a discórdia dentro da minha casa não é uma tarefa fácil. Ela chamou meu filho. Ele veio correndo, e em vez de agradecer pelos waffles, ela disse: “Pegue o pano da sua mãe e limpe você mesmo. Você não vê que bagunçou tudo?”. A capacidade de deixar a situação ainda mais inconveniente é um talento da minha tia.

“Não, filho. Obrigada, eu posso limpar. Os waffles estavam deliciosos!” — eu disse, beijando meu filho e virando-o em direção à porta. “Vá fazer suas coisas”. Então, a discussão começou: “Você vai cuidar dele até ele ter cabelos brancos? Você vai continuar limpando depois que estiver velha?”. Essa parte de falar sobre a velhice, por alguma razão, é um tópico obrigatório para aqueles que defendem que as crianças devem fazer tudo sozinhas. Muitas vezes eles jogam esse questionamento sempre que os filhos estão tentando chamar a atenção ou pedindo ajuda. Mas a verdade é que as crianças têm que lidar com as coisas sozinhas porque a mãe está ocupada — esta é a verdade.

Claro, seria ótimo levar minha tia para a estação, colocá-la em um trem e pedir que não voltasse até que aprendesse algo mais importante que amarrar o cadarço ou limpar a sujeira — como, por exemplo, a não se meter na vida dos outros. Mas, em vez disso, tive que ficar ouvindo suas baboseiras por mais meia hora e explicar, mais uma vez, que nosso filho está sendo educado por mim e meu marido. Bom ou mau, está é nossa responsabilidade, não dela.

Vamos lá, existem muitas outras pessoas ao meu redor que pensam que estou educando meu filho errado, que nem mesmo posso ajudar nas pequenas coisas, porque então vou arruinar toda a “preparação para a vida adulta”. E o que a vida adulta exige de nós? A nunca depender de ninguém, nunca pedir ou esperar ajuda e nunca admitir nossas fraquezas? Bem, não me surpreenderia se no futuro um cara tão independente assim não se preocupasse em ajudar a esposa com o filho, porque ela, afinal, saberia lidar sozinha com tudo.

E por isso é preciso educar, e não só os meninos. Em uma reunião de pais, a mãe de uma colega de classe do meu filho, cuja filha estava sempre 5-10 minutos atrasada, declarou orgulhosamente que a pequena não chegava no horário porque ela era uma enfermeira ocupada, e não a ajudava com isso porque senão a filha nunca aprenderia a ser responsável. Sério? Jamais? Melhor é deixar a criança chorando no banheiro com vergonha de entrar na classe e ser repreendida pela professora e ser motivo de riso dos colegas?

Bem, como disse o gato Behemoth do livro O Mestre e Margarita, de Mikhail Bulgákov, “a história nos julgará”. Se estamos certos ou não em seguir nossos princípios na educação do nosso filho, o tempo dirá. E agora, enquanto meu marido, que está trabalhando em casa hoje, está limpando meu carro lá embaixo, eu estou amarrando os cadarços do meu filho para levá-lo à escola a tempo. Porque nós estamos acostumados a contar uns com os outros e ajudar mesmo nas pequenas coisas.

Você acha que é importante a criança aprender a lidar sozinha com os pequenos problemas do dia a dia ou os pais devem ajudar com isso? Conte para a gente na seção de comentários.

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