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A verdadeira história de Madam C. J. Walker, mulher que inspirou a série da Netflix

O enredo da série da Netflix A Vida e a História de Madam C.J. Walker tem como base a vida de Sarah Breedlove, que figura no Guinness como a primeira milionária americana a enriquecer sozinha, isto é, sem ter recebido herança nem se casado com algum milionário. É a história de uma afro-americana que lutou contra a maré e passou de lavadeira a uma mulher de negócios, conhecida na alta sociedade de sua época.

Incrível.club compartilha mais detalhes da vida de Madam C. J. Walker para que você conheça essa mulher surpreendente, além do que é mostrado na minissérie de quatro episódios, criada para a Netflix.

A primeira de sua família a nascer livre

Durante quase 250 anos, pessoas de origem africana foram escravizadas nos Estados Unidos até que, em 1862, o presidente Abraham Lincoln elaborou a Proclamação de Emancipação, que entrou em vigor em 1863 e que aboliu oficialmente a escravatura no país, tornando livres mais de 3,5 milhões de indivíduos. Se a lei não tivesse sido promulgada, a história que você vai ler na sequência não teria acontecido.

Nascida em 1867, na fazenda Madison Parish, no estado da Louisiana, Sarah Breedlove foi a primeira pessoa da sua família a chegar livre ao mundo. No entanto, a liberdade foi apenas um primeiro passo, já que teve uma infância um tanto complicada. Ficou órfã aos sete anos e foi viver na casa de sua irmã mais velha e o marido, onde sofreu maus tratos. Aos quatorze anos, para fugir dos abusos do cunhado, casou-se com Moses McWilliams e, três anos depois, nasceu sua única filha, Leila McWilliams. Com aproximadamente 20 anos, Sarah ficou viúva.

Então, passou a sobreviver trabalhando nos campos de algodão, mas decidiu se mudar para Saint Louis, Missouri, onde seus irmãos eram barbeiros. Lá, conseguiu um emprego de lavadeira, pelo qual recebia apenas 1,5 dólar por dia. Mesmo sob essas condições, estava decidida a juntar dinheiro para que sua filha pudesse estudar, enquanto ela própria frequentava a escola no período noturno.

As ambições de Sarah a impediam se conformar com a ideia de ser lavadeira pelo resto da vida. “Estava no tanque uma manhã com uma pilha de roupas pesadas na frente quando me inclinei e vi meus braços mergulhados na espuma do sabão. Então, disse a mim mesma: o que vou fazer quando envelhecer e tiver problemas na coluna? Quem cuidará da minha filha?”, disse ao New York Times, em uma entrevista em 1917.

Em Saint Louis, Sarah começou a frequentar a Igreja Episcopal Metodista Africana, onde conheceu líderes negros, homens e mulheres que a inspiraram. Em 1894, casou-se pela segunda vez, com John Davis, mas o casamento foi problemático e se divorciou alguns anos depois.

O poder do cabelo

Assim como muitas mulheres negras da época, Sarah teve sérios problemas com seus cabelos: calvície, caspa, dores no couro cabeludo, etc. Tudo isso devido a uma dieta deficiente, lavagens pouco frequentes (muitos lares não tinham água corrente) e ao uso de produtos com soda cáustica na composição.

Seus irmãos lhe ensinaram a cuidar dos cabelos, mas um fator decisivo para que recuperasse uma cabeleira saudável (e sua autoestima) foi começar a utilizar os produtos de Annie Malone, uma empresária, também afro-americana.

Um dia, Sarah tornou-se vendedora de porta em porta dos produtos de Malone e, em 1905, mudou-se para Denver, Colorado, para poder ali vendê-los e conquistar um novo mercado. Ao mesmo tempo, começou a trabalhar para desenvolver seu próprio negócio de produtos para o cabelo (anos depois enfrentaria uma acusação por suposto roubo de propriedade intelectual).

Em 1906, aos 38 anos, Sarah decidiu dar uma nova chance ao amor e se casou com Charles Joseph Walker, cujo sobrenome adotou e passou a ser conhecida como Madam C. J. Walker. O novo marido era um vendedor de espaços publicitários nos jornais e a ajudou a promover seu novo produto, o “maravilhoso tônico de cabelo de Madam C. J. Walker”, uma fórmula para tratamento e condicionamento do couro cabeludo.

O nascimento de um império

Madam Walker começou a ter sucesso com as vendas de seu produto e integrou mais vendedoras à sua equipe. O negócio começou a crescer, e a empreendedora encarregou sua filha (que havia mudado o nome para A’Lelia Walker) de enviar os pedidos por correio, enquanto ela e o marido rodavam o sul do país em busca de novos clientes. O casal fazia demonstrações de como utilizar a pomada, pentes quentes e uma escovação especial.

Em 1908, eles se mudaram para Pittsburgh, Pensilvânia, e abriram o “Lelia College” para treinar novas vendedoras. Ali começaram a implantar o “Sistema Walker”, que incluía capacitação para obter um certificado como agente de vendas, função que rendia ótimas comissões.

Mais tarde, a sede do negócio se mudou para Indianápolis, com a abertura da fábrica “Madam C. J. Walker Manufacturing Company”. Madam também inaugurou um salão de cabeleireiro e uma escola de beleza onde continuou capacitando pessoas, sobretudo mulheres. Ela conseguiu ter milhares de vendedoras de sua marca e, em 1917, eram cerca de 20.000 usando blusa branca, saia preta e carregando uma maleta com os produtos.

As habilidades de marketing de Madam Walker foram fundamentais para o seu sucesso, uma vez que compreendeu o poder de uma boa publicidade e da imagem da marca. Assim, anunciou nos meios adequados (jornais e revistas afro-americanos), usando inclusive sua própria fotografia como exemplo dos resultados alcançados com o uso dos seus produtos.

Divórcio e novas perspectivas

Enquanto seu negócio se aproximava do apogeu, seu casamento descia ladeira abaixo. Ela não passava muito tempo em casa e seu marido não só era irresponsável financeiramente ao fazer um mau uso do dinheiro, como também foi acusado de desviar recursos, além de ter casos com outras mulheres. Finalmente, em 1912 eles se separam e, enquanto Madam C. J. Walker era reconhecida, o homem de quem adotou o sobrenome caía no anonimato.

Em 1913, A’Lelia convenceu sua mãe a abrir um novo escritório e um salão de beleza no Harlem para conquistar a cosmopolita Nova York. De fato, sua casa foi a única construída por um arquiteto afro-americano em Manhattan, e se tornou um famoso salão cultural onde era conhecida por ser uma grande anfitriã.

A’Lelia Walker supervisionando um tratamento facial em um dos salões de beleza de Madam C. J. Walker.

Uma vez instalada no Harlem, Madam C. J. Walker se envolveu mais na vida social e política e se manifestou várias vezes contra a discriminação, em um movimento impulsionado pela Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP). Em 1917, ela se juntou a um grupo de líderes do Harlem para visitar a Casa Branca e entregar ao então presidente Woodrow Wilson um pedido formal para a criação de uma legislação contra a discriminação, que se tornaria lei somente em 2020.

Em 25 de maio de 1919, Madam C. J. Walker morreu aos 51 anos de insuficiência renal e complicações devido à hipertensão. Naquela época, era considerada a afro-americana mais rica dos Estados Unidos. Sua filha A’Lelia tornou-se a presidente da empresa.

O legado de Madam C. J. Walker

Estudantes da Escola de Beleza de Madam C. J. Walker, em 1942

A vida de Madam C. J. Walker tem grande valor para as afro-americanas, já que ela demonstrou que uma mulher pode “se fazer por si mesma” em uma sociedade onde os preconceitos de raça e de gênero estão enraizados. Ela sempre inspirou confiança nas suas funcionárias e as incentivava a buscar sua independência financeira. Durante sua primeira conferência anual em 1917, premiou suas melhores vendedoras e as que contribuíram com suas comunidades. Considera-se que esta foi uma das primeiras reuniões nacionais para que as mulheres empreendedoras pudessem falar de negócios.

Após a sua morte, a empresa continuou a se expandir e chegou a países como Cuba, Jamaica, Haiti, Panamá e Costa Rica. Os cargos na diretoria foram ocupados por descendentes de Madam J. C. Walker, sofrendo mudanças de geração em geração, até que a “Madam C. J. Walker Manufacturing Company” fechou oficialmente em julho de 1981.

Hoje, a sua casa em Nova York, conhecida como “Vila Lewaro”, está incluída no Registro Nacional de Edifícios Históricos e o prédio em Indianápolis, onde funcionou a fábrica, é conhecido como “Madam Walker Theatre Center”, um lugar para eventos culturais da comunidade.

Netflix e suas licenças poéticas

A maior parte do que hoje conhecemos da história de Madam Walker devemos à sua biógrafa e tataraneta, A’Lelia Bundles, que escreveu o livro On Her Own Ground: The Life and Times of Madam C. J. Walker. A biografia também serviu de base para a série da Netflix, dirigida por Kasi Lemmons e DeMane Davis, que conta a história dessa mulher incrível.

No entanto, a série tomou certas licenças poéticas dignas de nota: Algumas delas:

  • Rivalidade com Annie Malone: na série, Madam C. J. Walker (interpretada por Octavia Spencer), tem uma grande rivalidade comercial com Addie Munroe (Carmen Ejogo), personagem inspirada na verdadeira Annie Malone. Na ficção, Addie é uma mulher de pele clara que tratava Sarah mal e tentou arruinar o seu negócio, mas na realidade Addie também era negra, com grande conhecimento de química e que conseguiu criar o seu próprio negócio milionário.

  • Os amores de A’Lelia: na série conhecemos o primeiro marido de A’Lelia (Tiffany Haddish). No entanto, após a sua separação, ela começou um relacionamento romântico com uma fotógrafa. Na realidade, a filha de Madam casou-se mais duas vezes, e até hoje não se comprovou que tenha tido uma relação com outra mulher. Ela também adotou uma órfã, conhecida como Mae Walker.

  • Ativismo e filantropia: a série mostra o incansável interesse de Madam C. J. Walker de fazer o seu negócio prosperar, mas não aprofunda muito sua atividade no ativismo e na filantropia.

O que você achou dessa história? Já assistiu à série? Acredita que ela faz justiça à vida de Madam? Compartilhe a sua opinião conosco na seção de comentários.