Como é que Zaha Hadid, em quem ninguém acreditava, se tornou “o Mozart” da arquitetura

No dia 31 de outubro de 1950 nasceu uma das arquitetas mais brilhantes do nosso tempo, Zaha Hadid. Seu nome significa “brilhante” em árabe. E em 2019 ela teria completado 68 anos. Zaha se negava a ver o mundo pelas lentes “do padrão”, e seus projetos foram muitas vezes considerados “loucos demais” ou “irrealizáveis”. Por esse motivo, suas ideias foram recusadas por 17 anos, mas, mesmo assim, Hadid ainda conseguiu se tornar a mulher que mudaria o mundo da arquitetura.

Nós, do Incrível.club, sempre ficamos fascinados pelos formatos futurísticos e pelas curvas dos grandes edifícios dessa arquiteta, muitos dos quais ainda estão sendo construídos, mesmo depois de sua morte. Esperamos que a história dela possa inspirar e encorajar a todos a seguirem seus sonhos por mais irrealistas que eles pareçam.

Essa grande artista da arquitetura nasceu em Bagdá em 1950

Zaha nasceu em uma família iraquiana bastante rica, então não espere ler aqui sobre alguém “que teve uma infância difícil”. Aliás, as famosas modelos, Gigi e Bella Hadid, não têm qualquer parentesco com a família de Zaha, apesar de o pai das meninas também estar envolvido com construção.

Ela, primeiramente, queria se tornar matemática e chegou até a estudar essa ciência na Universidade Americana de Beirute. Em certo momento, no entanto, ela percebeu que seu amor não estava nos números, mas sim nas diferentes formas e configurações que os números podiam adquirir. Por isso, ela mudou seu foco para Arquitetura.

Zaha se mudou, então, para Londres, onde conheceu o famoso arquiteto holandês Rem Koolhaas. Ela imediatamente se destacou pelo seu talento como aluna, e Rem se tornou seu mentor.

O professor disse que Zaha era como um “planeta girando em sua própria órbita”. Depois de se formar na universidade, Koolhaas convidou Zaha para trabalhar em seu escritório em Roterdã, na Holanda. Após 3 anos de trabalho conjunto, Hadid decidiu que estava pronta para abrir sua própria empresa e, por isso, decidiu voltar a Londres.

Durante 17 anos, os projetos de Zaha foram recusados e ela foi chamada de “arquiteta de papel”

Depois de mergulhar de cabeça no mundo da arquitetura, Hadid começou a receber muitos projetos, e também muitas críticas durante seu percurso. Apesar da criatividade e do mar de ideias que ela tinha, até o começo dos anos 90 nenhum prédio foi construído de acordo com seus esboços.

Os projetos de Zaha chegaram a ganhar importantes competições internacionais, mas todas as suas ideias inovadoras não saíam do papel. Tudo isso porque os esboços eram considerados “fictícios demais” e “irrealizáveis”. A arquiteta, então, continuou a trabalhar em seu escritório, esperando que um dia ocorresse algum progresso no mundo da arquitetura.

Em 1982, parecia que a sorte havia começado a sorrir para a arquiteta: foi aprovado um projeto de um clube esportivo no topo de uma montanha em Hong Kong. Um ano depois, no entanto, o cliente cancelou a construção, e do projeto, sobrou apenas a planta.

Zaha decidiu abrir seu próprio escritório com o dinheiro que tinha ganhado nas competições, o que veio a se tornar um verdadeiro império 30 anos depois. Ela não desistiu em nenhum momento e insistiu em continuar desenhando suas ideias mais loucas e fascinantes.

Ela construiu seu primeiro edifício aos 44 anos. Um corpo de bombeiros

À esquerda — edifício residencial IBA, à direita — corpo de bombeiros em Vitra.

Em 1993, o primeiro projeto de Hadid foi um pequeno quartel de bombeiros para a empresa de móveis Vitra, o qual se tornou uma verdadeira obra de arte. Para aquela época, foi uma verdadeira inovação, que realmente impressionou pelo seu formato incomum. O corpo de bombeiros em Vitra é uma composição de planos de concreto que se dobram de forma que parecem estar congelados no meio de uma dança bizarra.

Além disso, no mesmo ano, foi construído outro edifício concebido e assinado por Zaha, o edifício residencial IBA. As feministas locais ajudaram na realização do projeto, pois elas estavam lutando por um aumento da presença das mulheres na arquitetura alemã moderna.

Zaha era fã de Kazimir Malevich e do construtivismo

Hadid era uma grande fã do trabalho de Kazimir Malevich, um pintor abstrato russo que foi o mentor de um movimento conhecido como Suprematismo, que se baseava em formas geométricas e conceitos abstratos. Zaha nomeou sua tese, um projeto de um hotel na ponte Hungerford sobre o rio Thames (Londres), de “Tecktonik de Malevich”, em homenagem ao pintor.

Além disso, os trabalhos iniciais de Hadid mostravam evidentes interseções com o construtivismo russo. Por exemplo, se compararmos o seu famoso corpo de bombeiros em Vitra com as obras dos construtivistas, é fácil de notar as semelhanças.

O “Residencial Casa Atlântica” foi o primeiro projeto de Zaha na América do Sul, que seria construído em Copacabana. Esse condomínio de luxo começou a ser projetado em 2013, mas infelizmente foi abandonado em 2018 devido a demora da prefeitura na liberação de licenças para as obras.

Com o passar dos anos, Hadid deu preferência aos estilos vanguardistasfuturísticos.

Hadid conseguiu, ao mesmo tempo, receber um “Oscar” no mundo da arquitetura e também acusações por seus edifícios não terem funcionalidade

Segundo Zaha, o verdadeiro interesse pelo seu trabalho surgiu depois de sua participação na construção do Centro de Arte Contemporânea de Cincinnati. Além de ser o primeiro museu dos Estados Unidos a ser projetado por uma mulher, o estilo de Hadid ficou muito evidente: paredes sobrepostas umas às outras, extremidades pontiagudas e formas irregulares.

Mas o verdadeiro triunfo de Hadid foi em 2004, quando ela ganhou o Prêmio Pritzker pelo seu projeto no Centro de Esportes Aquáticos (Water Sports Center) em Londres, que é considerado como um “Oscar” para o mundo da arquitetura. Zaha foi a primeira mulher a receber esse prêmio.

Hadid tornou-se, desde então, uma das arquitetas mais modernas e procuradas do mundo. Isso, no entanto, deu espaço também para muitas críticas. Muitos disseram que ela focava tanto em expressar sua criatividade que esquecia da funcionalidade dos edifícios.

Por exemplo, depois da construção do seu extraordinário Centro de Esportes Aquáticos, alguns espectadores das filas mais altas se queixaram de que não conseguiam ver direito o que se passava nas piscinas da arena por causa do teto ornamentado do edifício.

Um outro exemplo é o Museu de Arte Contemporânea MAXXI em Roma. Os especialistas consideraram-no inadequado para exibir obras de arte. O fato é que o edifício é um longo labirinto de apenas um andar, e não fica claro quais itens poderiam se encaixar no ambiente. Além disso, o museu acabou por ser tão grande que até mesmo grandes pinturas eram difíceis de encontrar. Com isso, o próprio edifício MAXXI tornou-se um monumento por si só.

Apesar das divergências, o fato é que os projetos de Hadid não deixaram espaço para indiferença, e sua assinatura é uma das mais reconhecidas no mundo.

“Rainha das curvas” foi o nome dado à Zaha e ao seu método criativo

O jornal The Guardian apelidou Zaha de “rainha das curvas” e aquela que “desconstruiu a geometria arquitetônica”. Hadid realmente passou toda a sua vida quebrando estereótipos e cânones, se distanciando assim do lugar comum. Ela também rejeitava a geometria tradicional e usava uma perspectiva de distorção, que foi quando as curvas vieram à tona.

Zaha quase sempre conseguiu o que queria e não permitia que ninguém duvidasse do seu trabalho. Aparentemente, era por isso que seus projetos incríveis, muitas vezes à beira do impossível, conseguiram ser realizados.

A propósito, o escritório de Zaha Hadid foi um dos primeiros a mudar para uma abordagem paramétrica de design. Essa abordagem permitia o processamento de enormes quantidades de dados, com base nos quais era possível formar uma estrutura de edifícios muito complexa. Além disso, o compósito plástico era muitas vezes utilizado para realizar os formatos e projetos mais “mirabolantes” da arquiteta.

Em geral, a abordagem de Hadid pode ser considerada como artística. Ela rejeitava o funcionalismo e o racionalismo, confiando mais na concepção da ideia.

A cada ano, os projetos de Hadid foram se tornando mais extravagantes e caros

No início e no meio do ano 2000, Zaha começou a materializar, de fato, suas ideias mais ambiciosas. Todos já conheciam o estilo singular da arquiteta, e assim começaram a surgir imitadores. Seus edifícios não são apenas elementos ocupando espaço, mas sim verdadeiras obras de arte, que podem ser admiradas por horas. Podemos comparar suas construções a naves espaciais, por serem tão excêntricas ao olho humano.

Parece que cada projeto subsequente era mais grandioso que o anterior. É evidente, portanto, que suas ideias começaram a ficar mais valiosas. Por exemplo, a construção do Centro de Design Dongdaemun Design Plaza em Seoul e o famoso Heydar Aliyev Center em Baku custaram na faixa de milhões de dólares.

Ao mesmo tempo, o mundo atravessava uma crise econômica em 2008 e, por isso, muitas empresas e empreendedores visaram economizar. Depois, Zaha foi também criticada pelo uso ineficiente do espaço em seus projetos. Nenhum comentário negativo foi capaz de travar o processo criativo da arquiteta ou de diminuir a demanda pelo seu trabalho. Na China e nos países com reservas de petróleo do Oriente Médio a economia ainda estava boa, e lá eles podiam se dar ao luxo de construir os edifícios mais caros.

Foi nessa época que surgiram os projetos de Hadid como o hotel de 40 andares em Macau, a casa da ópera em Guangzhou, a universidade politécnica em Hong Kong e o complexo Galaxy SOHO em Pequim.

Escândalos relacionados com a construção dos estádios no Qatar e no Japão

Infelizmente, os últimos anos de vida de Zaha Hadid foram marcados por incidentes muito desagradáveis em alguns países. Por exemplo, vários trabalhadores morreram durante a construção do estádio no Qatar. O nome conhecido da arquiteta foi um gatilho para os jornalistas divulgarem essa notícia nos meios de comunicação, o que teve um viés evidentemente negativo em sua carreira. O projeto em si do edifício não era perigoso para as pessoas que fossem frequentar ou trabalhar no estádio.

Muitos críticos acharam o formato do estádio do Qatar muito extravagante e até provocador: alguns acharam que o prédio parecia uma genitália feminina se visto de cima. A própria autora se indignou com essa associação, chamando-a de “ridícula”, e esclareceu que ela havia se inspirado no barco tradicional árabe Dhow.

Outro problema aconteceu durante as obras do estádio olímpico em Tóquio. O projeto foi considerado muito caro: cerca de 2 bilhões de dólares. A imprensa japonesa comparou o estádio a uma tartaruga marinha, dizendo que “arrastaria” o Japão para o fundo do mar.

Mais tarde, o governo decidiu abandonar essa construção grandiosa em favor de uma opção mais democrática.

Mesmo depois da morte da arquiteta, os edifícios de Hadid ainda estão sendo construídos pelo mundo

Zaha Hadid morreu aos 65 anos devido a um ataque cardíaco numa clínica em Miami, onde estava sendo tratada devido a bronquite. Um dos seus projetos mais recentes foi um edifício residencial em Nova Iorque.

Como a arquitetura era o único amor de Hadid, seus projetos eram como sua família. A grande conquista de sua vida, no entanto, ainda segue em frente: o comando do escritório de Hadid foi tomado por seu parceiro de profissão, Patrik Schumacher. Eles trabalharam juntos por 28 anos, então é de se esperar que Patrik compartilhe todos os ideais e princípios do trabalho de Zaha. Hoje o escritório está realizando mais de 30 trabalhos inacabados de Hadid e assume novos projetos. Recentemente, por exemplo, houve a finalização do Centro Internacional de Cultura e Artes “Meixihu” em Changsha na China.

Além disso, em setembro foi inaugurado o maior aeroporto internacional do mundo em Pequim, o Beijing Daxing International Airport (PKX).

Na capital da Arábia Saudita em 2020 está previsto o lançamento do Metrô Riyadh, cuja principal estação foi projetada por Hadid. A maior parte da estação será feita de mármore branco, e as paredes serão decoradas com placas de ouro. Segundo a arquiteta, ela se inspirou nas dunas de areia da Arábia Saudita.

E esses nem são todos os projetos da “rainha da arquitetura” que em breve serão vistos pelo mundo. Por isso, achamos que não resta dúvida: Zaha Hadid ainda está conosco.

Você já viu algum dos edifícios de Zaha Hadid ao vivo? Tem vontade de conhecer? Comente!

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