Minha irmã quebrou a única regra do meu casamento, e eu respondi à altura


O russo Oleg Batluk é escritor, blogueiro e pai de um menino de três anos. Ele usa o humor para descrever a vida cotidiana paterna, aplicando boas doses de sabedoria e diversão. Só que o principal mote de suas histórias não é tanto a criação do filho, e sim o conhecimento sobre si mesmo. O primeiro livro de Oleg Batluk, batizado de “Notas de um pai não romano” (tradução livre) fez sucesso entre os leitores. Já o mais recente “As memórias de um bebê” (tradução livre), que aborda fatos ocorridos na infância de Oleg, também está indo mesmo caminho.
Neste post, o Incrível.club compartilha com você novas observações do autor sobre como criamos nossos filhos.
"Estava passeando no playground com Artiom, meu filho, quando vi um milagre da natureza: um ’menino quadrado’.
O menino quadrado não estava passeando nem brincando. Estava sentado num banco, num dos cantos do playground, como se fosse um adulto.
Só que ele aparentava ter uns sete ou oito anos.
Enquanto Artiom tentava se enterrar inteiro na caixa de areia, aproveitei o momento para conversar com aquele fenômeno geométrico. Sentei ao lado dele.
’Está tudo bem? Por que você não está brincando com as outras crianças?’ — perguntei. Sim, depois que Artiom nasceu, eu não consigo parar; sou um pai engajado, minha empatia pelos filhos de outras pessoas aumentou muito.
’Tenho cinco minutos. Não chegarei a tempo’ — disse o menino quadrado.
’A tempo de quê?’
’E você gosta?’
’Sim, sim! Gosto muito’ — afirmou rapidamente o menino quadrado, se agarrando firmemente am banco, fazendo com que seus ombros ficassem ainda mais pontiagudos.
’O que você está fazendo aí sentado? Estamos atrasados!’ — gritou de longe uma mulher de extremidades articuladas e rosto móvel. — ’Vamos, vamos!’
A mulher de extremidades articuladas chegou até nós num pulo, pegou meu interlocutor pelos ombros e o levou. Levou o menino do playground como se ele fosse um pedaço de papelão, como um suporte de papel para a propaganda de uma criança perfeita.
Mas dificilmente o menino ficou quadrado só por conta disso. O mais provável é que, tendo sete ou oito anos, alguém já tenha colocado nele uma estante completa de livros, em pé e horizontalmente. E por cima, devem ter encaixado o curso de desenho e as aulas de inglês.
Olhei para o meu Artiom, meio enterrado na areia. Ele continuava redondo, sem ângulos retos.
De repente, lembrei de como, no dia anterior, tinha visto na TV um programa chamado ’O melhor de todos’, sobre crianças extraordinárias. Em um dos trechos da atração, um menino de dois anos apareceu falando tão bem que poderia causar inveja em muitos adultos. Nessa hora, Artiom, com quase três anos, veio correndo em minha direção com um brinquedo na mão, dizendo: ’Um nhonho’. ’Não é nhonho, se diz gnomo! Gnomo!!!’ — gritei, quase cuspindo os pulmões de tanta raiva.
Céus! Como eu pude pensar que era melhor do que a mulher de extremidades articuladas?
Eu já estava moralmente pronto para transformar meu filho em outro Golem, numa pessoa artificial, com o dever de expiar os pecados de seu pai perante o Ideal, num Frankenstein costurado com minhas maiores neuroses.
Tenho alguns amigos que trabalham na televisão.
Vou conversar com eles.
Irei sugerir um programa normal sobre a vida.
Para interromper o círculo vicioso dos processos de prodigilização, pinoquiotização e quadratização dos nossos filhos.
Um programa normal, que mostre as crianças quebrando tudo, tropeçando, sem falar latim, se empurrando, balbuciando, sem saber cantar direito, esquecendo, cansando e jogando o mingau na parede. Essa parte do mingau é fundamental.
Esse programa normal sobre a vida poderia se chamar “O pior de todos”.
Um programa sobre crianças humanas. Sobre todas as que são redondas por natureza.











