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O que acontece em Fukushima 8 anos depois do acidente nuclear (spoiler: japoneses corajosos vivem lá para salvar os animais)

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Em 11 de março de 2011, o mundo testemunhou o maior acidente nuclear ocorrido desde Chernobil. Um terremoto de grande magnitude e um tsunami (consequência do abalo sísmico) destruíram a usina nuclear de Fukushima I e causaram a morte e o sofrimento de muitas pessoas. Mas se, na época, a zona de exclusão de Chernobil (maior acidente nuclear da história, ocorrido na ex-União Soviética em 1986) foi completamente saqueada, na área de Fukushima praticamente tudo permanece intacto.

A ausência de saqueadores é um fato que merece respeito, porém mais que isso, o Incrível.club ficou impressionado com as histórias daqueles que voltaram à zona de exclusão apenas para salvar os animais que foram abandonados após a evacuação.

Valentia vs. precaução

Às vésperas dos Jogos Olímpicos de Tóquio (que ocorrerão ano que vem e voltarão os olhos do mundo para o Japão), as autoridades estão fazendo um grande esforço para restaurar os territórios infectados. As equipes trabalham ativamente para limpar e desinfetar a terra e o governo tem liberado algumas zonas de exclusão. Mas muitos japoneses não têm pressa em voltar para suas casas por motivos de segurança.

Relógio sobre a geladeira mostra a hora do terremoto em 11 de março de 2011 (cozinha em uma casa em Namie, Prefeitura de Fukushima)

No entanto, há exceções. Naoto Matsumura e sua família foram retirados da área radioativa imediatamente após o acidente. Algum tempo depois, ele voltou por conta e risco à sua casa para cuidar de seus animais abandonados durante a tragédia. Ao entrar na cidade com seu carro, Naoto ficou chocado: apressado, preocupado com seus próprios animais, topou com centenas de gatos, cachorros, porcos, vacas, ovelhas, cabras e até avestruzes exaustos, que mal podiam se mover devido à fome que passavam.

E Naoto acabou ficando, tornando-se, assim, o único habitante da cidade. Ele começou a alimentar todos os animais que encontrava no caminho. Andava pelos quintais, soltava os cães, as vacas, reunia-as em um rebanho, construía chiqueiros para porcos e assim foi, dia após dia.

Devido ao fato de os animais nas fazendas de Fukushima terem sido expostos à radiação, tornou-se impossível usá-los para abate ou mesmo para tração (no caso dos cavalos, por exemplo) e as autoridades locais tomaram a decisão de sacrificá-los por razões humanitárias. Para evitar a matança, Naoto se ofereceu para assumir a custódia dos bichos.

Então, outros japoneses que não conseguem ficar indiferentes ao fato passaram a ajudá-lo com medicamentos e ração. A revista americana sobre estilo de vida Vice produziu um filme sobre esse homem corajoso.

Naoto Matsumura não é o único a acreditar que os animais não devem pagar pelos erros dos homens. O famoso jornal New York Times mostrou o caso de Masami Yoshizawa, um fazendeiro de Namie que retornou à sua fazenda afetada pela radiação porque não podia permitir que as autoridades aplicassem a ordem do governo para sacrificar os animais.

“Essas vacas são um testemunho vivo da estupidez humana aqui em Fukushima”, disse Masami sem rodeios. “O governo quer matá-las para apagar o que aconteceu aqui e restaurar para o Japão seu status quo antes do acidente. Eu não vou permitir isso”.

O jornalista da Nova Zelândia David Farrier visitou a fazenda de Masami Yoshizawa

Masami regularmente percorre a vizinhança em busca de animais exaustos, que às vezes tem de puxar pelas orelhas para fazer com que o sigam até a casa. Ao mesmo tempo, ele está tentando evitar postos de controle da polícia: tecnicamente é ilegal habitar a área de exclusão.

O japonês já foi preso várias vezes e forçado a assinar um formulário desculpando-se por entrar no território proibido. Masami assinava o documento, mas, antes, riscava o tópico em que prometia não voltar a fazê-lo.

Já Keigo Sakamoto, um agricultor de Naraha, desde o início, se recusou a deixar sua casa na zona de exclusão. Ele ficou para cuidar de 500 animais abandonados durante a evacuação.

Um olhar de fora para os problemas internos

Em 2018, o Ministério das Relações Exteriores do Japão convidou cinco jornalistas para visitar a Prefeitura de Fukushima (eles vieram da Rússia, Holanda, Alemanha, Brasil e Hong Kong) para mostrar como as coisas seguiam por lá. Um dos correspondentes, Konstantin Volkov, após a visita, preparou material para o jornal russo Rossiyskaya Gazeta, no qual apresentou fatos interessantes que descrevem a atual situação de Fukushima.

“O jornalista alemão Sören Kittel, o mais prudente do nosso grupo, levou consigo um contador Geiger, com o qual medimos a radiação de tudo: água, frutas, peixe, arroz, saquê, os próprios japoneses... as pessoas nos olhavam com espanto: elas mesmas não medem nada, deixando essa responsabilidade para as autoridades e o operador da usina nuclear de Fukushima I.”

Descobriu-se que os alimentos pelos quais a região era famosa antes do acidente continuam populares até hoje. Por exemplo, maçãs, saquê (que, de acordo com Konstantin Volkov, tem um sabor muito delicado e é considerado o melhor no Japão) e arroz de Fukushima (também o melhor no Japão, tanto que é comprado até pela casa imperial). A propósito, ao verificar o arroz com um contador Geiger, os indicadores não excederam o nível de radiação natural.

Um técnico de laboratório usa um contador Geiger para medir a radiação em peixes capturados perto da usina nuclear de Fukushima I, danificada pelo tsunami

No final, descobriu-se que nem todos os japoneses confiam nos operadores quanto às medições de radiação. Por exemplo, algumas mães se uniram e, com seus próprios esforços, criaram um laboratório a partir do zero para medir a radiação de praticamente tudo: arroz, frutos do mar, água, solo, musgos e até a poeira dos aspiradores de pó. Curiosamente, nenhuma dessas mulheres tinha conhecimento especial para tais atividades, então tiveram de aprender durante o processo.

Noriko Tanaka, funcionária do laboratório, afirma que o problema da radiação não se limita apenas à área contaminada. Além de possíveis problemas de saúde, há um fator social: a possível discriminação de crianças que vêm das áreas contaminadas. Algumas das que foram retiradas de Fukushima e enviadas a outras cidades enfrentam os preconceitos e a chacota de seus colegas na escola, por exemplo.

Especialistas medem o nível de radiação em crianças que vêm da área contaminada

Olá! Como chego a Fukushima?

É proibido visitar por conta própria a zona de exclusão. No entanto, em 2016, o intrépido fotógrafo malásio Keow Wee Loong, juntamente com algumas pessoas com ideias semelhantes entrou no território demarcado pela “linha vermelha”. Eles fizeram um grande esforço para passar despercebidos pelos guardas, já que não solicitaram permissão das autoridades. Dos equipamentos especiais antirradiação, Keow e os colegas só tinham uma máscara de ventilação porque, pouco antes de sua intrépida aventura, o malásio perdeu todo o seu dinheiro reservado para a missão.

O jovem fotógrafo, no entanto, não foi o primeiro a entrar na zona de exclusão. Em 2013, representantes do Google passaram pelas ruas de Namie, para que os usuários do Google Maps pudessem “caminhar” virtualmente pela cidade abandonada e conferir mais de perto seu estado dois anos depois do acidente.

O Japão aposta no turismo nuclear

Com as autoridades locais removendo algumas restrições em áreas próximas do local do acidente, o “turismo nuclear” começa, lentamente, a prosperar. Assim, um blogueiro viajante, Sergei Kondratenko, chegou a Ōkuma, uma cidade abandonada na região de Fukushima que, antes da tragédia, chegou a ter 11,5 mil habitantes. Em sua conta no Instagram, ele postou 10 fotos da área e escreveu o seguinte:

“Se a região de Chernobil foi completamente saqueada, em Fukushima tudo permaneceu quase intacto. Uma típica cidade japonesa, mas sem pessoas. Muitas casas estão perfeitamente preservadas, os habitantes as abandonaram às pressas, levando apenas os documentos. As pessoas não sabiam que não voltariam. Nesta cidade fantasma, os semáforos ainda funcionam e à noite a iluminação da rua é acesa. Dá medo. O que acontece é que, atualmente, na área de exclusão, cerca de 20 mil pessoas trabalham minimizando as consequências do acidente ”.

Perguntado sobre se adotou qualquer precaução antes de entrar na zona de exclusão, Sergei respondeu negativamente, porque lá é proibido andar na grama e tocar objetos, que poderiam contaminá-lo. Sobre outra questão polêmica, se é possível organizar essa rota turística por conta própria, Sergei escreveu que era impossível fazê-lo sozinho e que ele tinha um guia particular.

E você? Se atreveria a ir com um grupo de turistas a uma das cidades abandonadas na área de um acidente nuclear, como Fukushima e Chernobil?

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