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Como eu decidi me tornar uma “barriga de aluguel” para ajudar uma família e resolver meus problemas financeiros

Olá a todos! Tenho 24 anos, e na Internet sou conhecida como surmani9. Sou casada e tenho um filho maravilhoso com meu marido. Após o nascimento do nosso bebê, que foi uma verdadeira felicidade para nós, pensei naqueles casais que são incapazes de ter filhos sozinhos e precisam recorrer à ajuda das “barrigas de aluguel”. Honestamente, eu não entendo por que nossa sociedade reage tão negativamente à essas mulheres, visto que elas estão não só buscando resolver os próprios problemas financeiros, mas também estão ajudando outras famílias a realizarem seus sonhos. Eu decidi buscar mais informações sobre o processo até que finalmente decidi que gostaria de me tornar uma “barriga de aluguel”.

Especialmente para o Incrível.club vou contar detalhadamente como é o processo de preparação para se tornar uma “barriga de aluguel” e o que é realmente necessário. Vale lembrar que a legislação de cada país é única e, em muitos lugares, não é permitido cobrar para emprestar o útero para uma gestação. O termo correto no Brasil é “gestação por substituição”, pois não visa um contrato financeiro entre as partes. Em diversos países, no entanto, o processo é mais simples e comercial. Por isso, abaixo será descrita a história de acordo com a legislação vigente no país da autora do texto. Acompanhe!

Como se tornar uma “barriga de aluguel”?

Para se tornar uma “barriga de aluguel” você precisa, primeiramente, encontrar uma família que precise dos seus serviços. Você pode encontrar pais biológicos por contra própria, na Internet, ou em agências especializadas.

Eu pensei por bastante tempo em fazer todo o processo por meio de uma agência. Há muitas vantagens de escolher essa opção: a espera é mínima, você tem acompanhamento jurídico e os documentos do casal já são verificados pela empresa. Mas, mesmo assim, há também desvantagens.

Primeiro, você receberá menos porque uma boa parte da quantia irá para a agência. Em segundo lugar, você provavelmente não conhecerá os pais biológicos por motivos de segurança. Então, caso alguma cláusula do contrato não te agrade, não será possível mudá-la. Além disso, há uma regra geral segundo a qual a mulher, que “emprestará” seu útero para a gravidez, poderá viver em sua própria casa até a trigésima semana de gravidez, e depois deverá se mudar para uma casa ou apartamento separado com outras mulheres que também são “barrigas de aluguel”.

Esse formato não era muito confortável para mim. Eu não queria me afastar da minha família, além de achar extremamente importante conhecer os pais biológicos, para que eles participassem do processo de ver o bebê crescer e se desenvolver, mesmo que na minha barriga. Por isso, decidi buscar os pais biológicos por conta própria.

Como eu encontrei os pais biológicos?

Como eu precisava encontrar uma família interessada por conta própria, comecei a pesquisar em fóruns na Internet, escrever para potenciais casais, mas nada deu certo. Alguns responderam que já tinham encontrado uma pessoa e, em outros casos, as condições não satisfaziam alguma das partes.

Depois, pesquisei em uma rede social, onde encontrei grupos e comunidades dedicadas ao tema. Li um anúncio em um desses grupos de uma mulher que chamou a minha atenção imediatamente. Pensei que ela se tornaria uma mãe incrível e eu gostaria de ajudá-la a realizar o seu sonho. Foi assim que começamos a conversar.

Mas, claro, não foi tudo tão simples assim. Antes de mais nada, queríamos nos conhecer pessoalmente, mas morávamos em cidades diferentes. Depois, foi preciso criar um contrato para detalhar todas as obrigações legais de ambas as partes e as condições gerais. Além disso, eu ainda não tinha feito nenhum exame médico para poder iniciar o processo.

Quem são estas pessoas?

Quando estava à procura de uma família, eu criei na minha cabeça a imagem dos pais biológicos ideais. Para mim, eram importantes os seguintes pontos:

  • quando nos vermos pessoalmente, devo sentir que ambos os pais querem um filho, e não apenas, digamos, a mãe;

  • eles devem ter dinheiro suficiente. Eu não conseguiria aceitar entrar em um acordo com pessoas que estão dando as últimas economias ou que pegaram um empréstimo (mesmo que isso pareça exagerado, eu não conseguiria aceitar alguém com dívidas por minha causa);

  • criar uma amizade com os pais biológicos. Claro que existirá um contrato entre nós, mas sem a relação humana e química não dá.

“Meus” pais biológicos são um casal acima dos 40 anos. A mulher já tinha um filho do primeiro casamento, que tinha no momento 24 anos. Ela já estava com o parceiro atual há bastante tempo, mas quiseram ter filhos somente depois dos 35 anos. Infelizmente, eles descobriram que a mãe biológica tem uma doença genética que aparece apenas na idade adulta e, por isso, ela não aguentaria mais uma gravidez. Talvez até pudesse engravidar, mas precisaria de uma grande quantidade de medicamentos diferentes que poderiam afetar a saúde do futuro bebê.

Como funciona o processo de preparação?

Assim que acordamos com os pais biológicos, eu precisei fazer alguns exames médicos. Alguns dos exames eram cobertos pelo meu plano de saúde, outros eram pagos. Todas as despesas médicas foram arcadas pelo casal.

Nos vimos pela primeira vez durante nossa primeira visita ao reproductologista. Todos estavam muito entusiasmados.

Eu e meu marido fomos para a cidade do casal. Eles quiserem nos conhecer pessoalmente, tanto eu quanto meu marido. Decidimos nos encontrar em um restaurante. No começo foi um pouco estranho, pois tínhamos tantas perguntas para discutir e o tema era, sem dúvida, um pouco delicado. Mas foi tudo bem. Depois que resolvemos as questões formais, nos dirigimos à clínica. Foi lá que conhecemos nossa reproductologista. A médica olhou os meus exames, fizemos alguns outros e ela ficou satisfeita. Eu fiquei tão feliz com o resultado — uma sensação única, que é a de saber que você é capaz de ajudar a vida de alguém.

Quais as dificuldades?

Antes do programa começar, eu não tinha ideia de quanto tempo demoraria. No início, aguardamos os resultados dos exames médicos, e depois esperamos a cirurgia da mãe biológica. A cirurgia foi mais complicada do que o esperado e, por conta disso, o início do programa foi adiado para maio. Em março, me disseram que eu estava com endometrite crônica, que é uma inflamação do endométrio, o revestimento interior do útero. Eu fiz o tratamento, e depois esperei até que os embriões dos pais biológicos estivessem prontos.

Você também precisa estar preparada para tomar uma quantidade absurda de remédios. Isso é necessário para criar um ambiente ideal para o futuro embrião e para que ele não seja rejeitado pelo seu organismo. Às vezes parecia que eu estava me alimentando só de remédios.

Sinceramente, eu vi muitas mudanças positivas no meu bem-estar: menos cansaço; passei a comer menos e beber mais água; o sono melhorou. Os meus gastos durante a preparação saíam em torno de 600 reais por mês (para cada país esse valor varia).

É importante entender que nem tudo depende da “barriga de aluguel”. No meu caso, por exemplo, eles tiraram da mãe biológica os óvulos e “fizeram” os embriões. Conseguiram coletar apenas 6 óvulos, e desses 6 fizeram apenas 5 embriões. Depois os embriões precisam passar por um desenvolvimento genético, o que resultou em apenas 2 embriões de qualidade aceitável.

Em seguida, você precisa estar preparada para o fato de que é possível que os 2 embriões se “instalem” no seu organismo, mas também é possível que ambos sejam rejeitados. Caso nenhum embrião se mantenha no corpo, é preciso fazer o processo todo novamente.

Quanto custa uma barriga de aluguel?

Eu recebia um salário mensal — 2 mil reais. Na vigésima semana de gravidez há um pagamento separado para roupas — 2 mil reais. O valor que deve ser pago no final do processo, após o nascimento da criança, é de o equivalente a 65 mil reais. O valor pode aumentar de acordo com os riscos da gravidez. Para fazer uma cesariana, por exemplo, há um pagamento adicional de 16 mil reais. Caso você esteja carregando duas crianças, ao invés de uma, há um adicional de 16 mil reais. Para danos aos órgãos internos também há um pagamento adicional. Nosso contrato tinha 78 páginas e lá estavam escritos todos os mínimos detalhes.

Além de tudo isso, os pais biológicos me forneciam todos os medicamentos necessários, assim como os custo do hospital para iniciar a gravidez e onde será efetivamente o parto.

Mas, claro, de acordo com o contrato, eu tenho também uma série de obrigações. Devo sempre estar disponível. Eu não posso beber álcool, fumar ou usar drogas — eles podem me testar durante a gravidez.

Como a lei considera mãe aquela mulher que deu à luz a criança, no meu contrato há uma cláusula que diz que se eu não entregar a criança aos pais biológicos, serei forçada a reembolsar todos os gastos que eles tiveram.

Eu não planejo quebrar o contrato, quero apenas ajudar uma família a ter seu próprio filho ou filha. Para mim, é como ser uma babá antes do nascimento do bebê.

Aprendi com experiência própria que a “barriga de aluguel” não é um serviço muito bem visto no lugar onde moro. Então, eu e meu marido decidimos nos mudar para outra cidade quando minha barriga ficar mais visível, pois não quero ser julgada pelos meus amigos e conhecidos e nem criar problemas para minha família. Nós avisamos apenas os meus pais sobre isso. Os pais biológicos também quiseram que nos mudássemos para a cidade deles, pois assim eles poderiam observar todo o processo mais de perto e acompanhar o crescimento do bebê.

O que você acha da “barriga de aluguel”? Acha que o processo comercial deveria ser liberado no Brasil? Comente!

Imagem de capa depositphotos
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