Incrível

Tive depressão pós-parto e estou pronta para contar como as jovens mães podem perder a sanidade

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Todos já ouviram falar do fenômeno da depressão pós-parto. Mas muitas pessoas pensam que é uma síndrome fictícia e associam o estado nervoso de uma mãe de primeira viagem com “capricho”, “ociosidade” ou “egoísmo”. Entretanto, mulheres que deram à luz recentemente precisam frequentemente de ajuda psicológica. Por vezes, os sintomas não são evidentes e até mesmo as pessoas mais próximas não percebem que essa mãe não está em condições de controlar as próprias emoções. Segundo dados estatísticos, cada uma em 6 mães tem depressão pós-parto. E eu faço parte dessa estatística.

Eu decidi contar para o Incrível.club a minha história para que todos entendam como é importante o diagnóstico no começo dessa doença que, quando não realizado logo, pode realmente destruir uma família e a vida da mulher.

Parto difícil

Olho para o meu filho de 2 anos que está dormindo e não posso acreditar que o nascimento dele, em determinado momento, quase fez com que eu perdesse a sanidade. Hoje eu vou me forçar para relembrar o que aconteceu nos seus primeiros 6 meses de vida. Com toda a sinceridade, eu pensava que era uma verdadeira ameaça para mim e para a saúde do bebê. Mas vamos por partes.

Sempre tive um estilo de vida ativo com meu marido. Viajávamos, saíamos com nossos amigos, praticávamos esportes, íamos ao cinema e restaurantes nas horas vagas. Depois de um ano de casamento, já estávamos acostumados com a companhia um do outro e decidimos ter um filho. Decidimos isso conscientemente. Já estávamos na faixa dos 30 anos e começamos a notar o “tique-taque” do relógio.

Planejamos cuidadosamente minha gravidez. Fizemos os exames iniciais, passei a me alimentar melhor e eliminei da rotina todos os maus hábitos. E, em um belo dia, lá estavam os 2 tracinhos no teste de gravidez. Meu marido me ajudava em tudo, fazia todas as minhas vontades e repetia para mim constantemente: “Aproveite seu tempo livre agora, pois depois vai ser difícil”. Eu concordava, mas, por dentro eu ria, pensando que seria duro para ele, mas eu seria a mulher mais feliz do mundo, e mais importante, seria mãe.

Em um dia bem frio de inverno, nosso sonho se tornou realidade e nosso filho chegou ao mundo. Eu sempre achei que tinha uma alta resistência à dor. Mas ninguém pode imaginar uma dor pior que a do parto. Foi muito doloroso e difícil, eu não consegui sentar por 3 semanas devido aos danos físicos. Fiquei de cama por quase um mês, e caminhava somente com a ajuda de alguém. Precisavam cuidar de mim da mesma forma que eu precisava cuidar do bebê nas minhas mãos.

Preciso reconhecer que meu marido e minha sogra fizeram tudo que puderam naquele momento. A verdade é que a ajuda nesse tipo de situação parece muito insignificante. Tudo que pediam para eu fazer era passar tempo com o recém-nascido e, mais importante, alimentá-lo corretamente. A amamentação, no entanto, era incrivelmente torturante para mim. Eu nunca senti uma sensação tão desagradável como a de sentir o leite jorrando.

Criança inquieta

Eu fazia tudo no automático, não tinha nenhum sentimento em relação ao meu filho naquele momento. Amamentava, dava banho, trocava a fralda, colocava para dormir. Tudo passava muito rápido. Ele era muito agitado, dormia pouco e eu não tinha tempo para nada. Me sentia impotente. Parecia que estava cumprindo somente o meu papel de mãe, mas não pertencia mais a mim.

Não me entenda errado, eu jamais pensei em desistir do meu filho, o que quero dizer é que tudo o que estava acontecendo fazia com que sentisse que estava vivendo em uma prisão. Eu não estava esperando uma criança fofa e alegre, que não faz nada para incomodar e só sorri para as fotos. Claro que não. Eu já imaginava que a maternidade não era fácil. Mas não imaginava a dimensão!

Eu não tinha um segundo de tempo livre, o bebê gritava quase todo o tempo — a cólica dele era tão cruel que eu passava os meus dias o acalmando. A cada grito do meu filho, eu sentia uma gama de emoções: compaixão, o desejo de fazer tudo para que ele não sentisse mais dor, desespero e raiva. Sim, sentia raiva de verdade, do tipo que só sabiam eu e a indefesa criança.

O recém-nascido dormia no berço do nosso quarto, mas quando ele começava a chorar à noite, eu ia para a sala e passava as minhas noites sem dormir lá. Raramente pedia ajuda, eu queria resolver as coisas sozinha. Mas, de manhã, eu olhava para meu filho com os olhos inchados, seu grito perfurava meus ouvidos e, às vezes, eu o sacudia forte para que ele parasse de chorar. E assim ele gritava ainda mais, até acordar meu marido e, por vezes, minha sogra quando ela dormia lá em casa.

Ninguém imaginava que era eu que estava causando mal ao meu filho. A avó o pegava no colo e cantava músicas de ninar até ele dormir. Quando isso acontecia, eu olhava para o bebê dormindo tranquilo e começava a me odiar. Eu passei a ter medo dele, porque era ele que tinha revelado o meu lado negro, que me fazia temer a mim mesma diariamente.

Não queria mudar meu estilo de vida

Onde vivemos, na Rússia, é costume que a mãe cuide do filho 24 horas por dia, e espera-se ainda que ela tenha grande prazer em fazer isso. Meu instinto materno não acordava de jeito nenhum, eu só tinha vontade de fazer tudo perfeitamente, e quando não conseguia, me culpava.

Passava meu pouco tempo livre no computador, visto que tinha uma loja online e podia trabalhar de casa. Por isso, eu não me permitia dormir à tarde. Nossa família não estava necessitada, mas eu queria provar que podia fazer tudo. Almejava aquele ideal da mãe das fotos da Internet, que está sempre bem cuidada, esbelta, com crianças felizes e que tem tempo de ganhar um bom dinheiro.

Eu passava o dia de cima para baixo ocupada, e à noite amamentava, cuidava, acalmava. No fim das contas, eu estava esgotada. A falta de sono, o estado nervoso, a ausência de uma dieta normal, o bebê gritando, as lágrimas, a ansiedade sem fim, o isolamento da sociedade, as discussões com meu marido — tudo isso entrelaçado em uma grande bola, na qual eu estava envolvida, e não via saída.

Eu tinha a impressão de que nenhuma pessoa no mundo podia me ajudar ou entender como estava difícil para mim. Quando meu marido tentava me convencer a passar o seu tempo livre fora de casa, eu fazia um escândalo. Não deixava ele sair com os amigos, ir à academia, e gritava até quando ele estava preso no trânsito tentando chegar em casa. E sentia que tinha permissão para agir assim. É verdade que ele estava disposto a fazer tudo por mim; se quisesse sair de casa para passear, ele iria feliz, mas eu não tinha vontade de sair com a criança para lugar nenhum.

Eu penso agora que ele já devia estar com a paciência esgotada. Para mim estava ruim e eu queria que para ele também estivesse. Nas conversas mais simples, tudo terminava mal, com eu chorando sem parar, porque ele era incapaz de me entender. Ele pensava que a sua única responsabilidade era trazer dinheiro para dentro de casa, e a minha era a de cuidar do nosso filho. No entanto, ele ignorava o fato de que eu também trabalhava, achando que se eu estava fazendo isso é porque tinha tempo livre. Mas eu estava no meu limite.

Dificuldades na amamentação

Eu não tinha muito leite no início e, logo depois, estagnou completamente e, com isso, tive febre de 40º C por 3 dias. Eu pensei que ia morrer. Felizmente, isso não aconteceu. Mas o leite secou de vez. Meu sonho havia se tornado realidade: em vez de amamentar, eu tinha que alimentá-lo com leite de fórmula na mamadeira, e isso fez com que eu me sentisse incompleta.

Meu filho sentiu a diferença no leite artificial e começou a ter dores de barriga. Meu parentes e minhas amigas que passaram pela maternidade tentaram me dar conselhos e recomendações sobre o que fazer. Mas isso soava para mim como “você não tem capacidade, você é uma péssima mãe”, e isso intensificou minhas preocupações e o sentimento de culpa. Tudo que eu queria era que me deixassem em paz.

Frequentemente, quando íamos passear, meu filho chorava constantemente e não dormia por nada. Eu estava começando a perder a cabeça e, às vezes, chegava a puxar o carrinho do bebê com tanta força que ele batia a cabeça na borda e desatava a chorar novamente. Eu olhava preocupada para ver se alguém tinha visto o que havia acontecido, e pegava meu filho para acalmá-lo, enquanto chorava e pedia desculpas.

A verdade é que eu me via como a pessoa mais hipócrita do mundo. Na frente de pessoas próximas, eu era uma mãe carinhosa e muito bem cuidada — ninguém jamais saberia pela minha aparência que eu tinha um sério distúrbio nervoso. Até mesmo ficar em casa era perigoso. Nós morávamos no sétimo andar e, por vezes, eu cheguei a pensar que se as coisas se tornassem finalmente insuportáveis, eu me jogaria pela janela. E que os outros resolvessem o que fazer com isso.

O dia em que tudo mudou

Em um determinado dia, de muito trabalho e tarefas domésticas, meu filho parecia estar exigindo mais da minha atenção. Eu o sacudi imediatamente para que ele parasse, deixei-o na cama e sai do quarto, já esperando que ele fosse gritar, mas dessa vez foi diferente. Quando me virei e olhei pela porta, ele estava quieto, sentado, tão pequeno e indefeso, até um pouco assustado. Eu entendi que agindo dessa forma eu iria causar a ele algum dano psicológico. Pois, eu era a única pessoa que ele podia contar na vida — e eu fazendo tudo isso! É surpreendente como não percebi isso antes, não é?

Esse momento me despertou para sempre. Enquanto as lágrimas corriam pelo meu rosto, eu prometi a mim mesma nunca mais tratar meu filho desse jeito. Pensei em ir a um psicólogo, e não tenho nenhuma vergonha de dizer isso, mas decidi confessar ao meu marido que não só não conseguia lidar com o papel de esposa, mas também com o papel de mãe.

Decidimos dividir as responsabilidades da casa e no cuidados com o bebê. Pedimos a minha mãe para ficar em casa por um tempo e pagamos uma empregada para ajudar com as tarefas domésticas. Depois disso, eu passei a dormir durante as tardes e voltei para as aulas de yoga. As poucas horas que passava longe do meu filho, aumentavam minha vontade de estar com ele novamente. Tudo foi se encaixando: ele não tinha mais cólicas e chorava muito menos. O bebê começou a sorrir com frequência, e meu coração derretia de felicidade. Tudo o que havia acontecido parecia ter sido só um pesadelo.

2 anos depois

Infelizmente, as jovens mães não estão dispostas a pedir ajuda, porque todas escutam da geração mais velha: “Viu, nós cuidávamos de 3 crianças de uma vez e nunca ouvimos falar em depressão”. E, ao mesmo tempo, muitas mães estão familiarizadas com as frases: “Você é uma péssima mãe” e “Você não devia nem ser mãe”. Não dá para saber, olhando para uma mulher com um carrinho, quantas vezes ela chora por dia e o quão cansada está com a rotina.

Muitas vezes, os sintomas podem ser tão mascarados que mesmo os parentes mais próximos não sabem que essa mãe já ultraprassou o seu limite, que ela não está mais em posição de controlar o seu estado mental. Essa é a confirmação do flashmob com o hashtag #faceofdepression (“rosto da depressão”). Algumas mães não tiveram receio de contar sobre a depressão pós-parto que tiveram, embora fosse impossível suspeitar disso só de olhar para elas. Isso serve para enfatizar que é preciso estar mais atento às pessoas queridas que estão ao seu redor.

Para todas que estão agora na mesma situação, eu posso dizer somente uma coisa: entenda, de uma vez por todas, que todas vocês são mães! Lágrimas, sentimento de impotência, lamentações, os dias de cão (e as noites!), isso tudo é comum entre mães que deram à luz recentemente. Cada uma tem seus motivos, mas não vale a pena tentar se comparar com outra pessoa ou ainda com as fotos nas redes sociais. Na minha página também tinha fotos assim, com rostos alegres e de aparente felicidade, mas somente eu sei quantas noites de sono perdi e a quantidade de estresse que quase me levaram à loucura.

Em momentos de crise, o mais importante é não estar sozinha. Tenha uma conversa honesta com seu marido, para quem, acredite, também está sendo difícil; chame suas amigas para visitar ou sair, entre em grupos relacionados à maternindade no Facebook para ter um apoio e saber que você não está sozinha nessa situação. Mas caso veja que não está melhorando, pense em se consultar com um psicólogo. Você pode se consultar com uma mulher que trabalhe nessa área e tenha uma abordagem que lhe agrade. A grande maioria dos hospitais públicos já oferece esse tipo de ajuda, e ninguém fica louco depois de se consultar.

Hoje, meu filho tem 2 anos e meio, e eu estou gostando muito de ser mãe. Fico feliz por ele não lembrar do período que me causa constrangimento, e também por ele me dizer constantemente: “Mamãe, eu te amo. Senti tanto sua falta!”. Por essas palavras eu estou pronta para dar o mundo.

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