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Eu trabalhei com marketing de rede e quase perdi minha família por causa disso

Provavelmente, não exista uma pessoa que não saiba o que é o marketing multinível, ou marketing de rede como é mais popularmente conhecido. Geralmente, as pessoas são muito céticas em relação a esse tipo de serviço e mal se aproximam ou querem contato. No entanto, alguns entram de cabeça nesse mundo tão intensamente, que ele deixa de ser um trabalho tão agradável quanto era no começo.

Meu nome é Inna e quero contar aos leitores do Incrível.club o que eu aprendi no mundo do marketing de rede.

Tudo começou quando decidi aprender inglês. Há alguns anos, eu queria melhorar meu inglês, então encontrei uma professora. O nome dela era Lena, tínhamos a mesma idade e simpatizávamos muito uma com a outra, portanto, nossa comunicação era fácil e conversávamos sobre tudo.

Alguns meses depois, Lena mencionou casualmente que só conseguia aguentar a sua rotina agitada graças aos coquetéis vitamínicos que ela tomava de alguma marca aleatória. Eu pensei: “Qual o problema? Cada um faz o que quer da vida”. Lena também contava histórias maravilhosas sobre um creme dental que acabava com as cáries e sobre cosméticos incrivelmente rejuvenescedores.

Depois de algum tempo, ela me perguntou propositalmente se a dependência financeira do meu marido estava me irritando, porque eu estava em licença maternidade e não estava recebendo muito. E, na verdade, eu realmente estava desconfortável com isso. Lena me disse que estava na mesma situação. Foi então que ela começou a se envolver com marketing de rede, porque era o negócio ideal para uma jovem mãe. Você encomenda as mercadorias sem sair de casa, e durante os passeios com a criança, tenta vendê-las.

O jeito que ela falava era realmente convincente. O momento também era ideal. De repente, eu disse a mim mesma: “Sim, acho que vou tentar”.

Registrei-me na empresa. O registro era pago, mas é um investimento em negócios futuros. Lena estava sempre pronta para responder todas as minhas perguntas, ela me incentivava e falava dos bônus que eu receberia se vendesse os produtos por um determinado valor. Ela falava de uma maneira tão contagiante e confiante sobre quantas oportunidades estavam à nossa volta que, involuntariamente, eu queria correr para procurar clientes. Essa atitude durou em torno de meia ou uma hora. Então o entusiasmo se dissipou, e voltei à minha sanidade e me perguntei por que aquelas palavras me contagiaram tanto.

Uma vez, meu mentor me chamou para uma reunião de consultores e me contou sobre as pessoas maravilhosas que conheceria: verdadeiros líderes que escolheram a independência. Imaginei na minha cabeça uma pequena sala de conferências, um orador incendiário e jovens interessados em uma causa em comum. Gastei o último dinheiro que tinha para me arrumar para esse encontro.

A reunião foi realizada no apartamento do mentor. O que eu vi quando cheguei, me chocou. A gerente que escolheu a independência era uma mulher de cerca de 75 anos, vestida com roupas de ficar em casa. Ao redor, tapetes e cristais cheios de poeira e um cheiro de comida podre. Todos os presentes também eram idosos. Parecia surreal, mas eu realmente queria acreditar que aquilo me proporcionaria um futuro brilhante, então rapidamente encontrei uma explicação plausível para tudo

No entanto, eu não conseguia entender uma coisa: onde esses velhinhos encontravam compradores para seus produtos? No começo, eu não conseguia vender nada: ninguém precisava de vitaminas ou detergentes maravilhosos. Mas, algum tempo depois, vi como o negócio funcionava. Na fila do banco, reconheci uma das senhoras que estava na reunião; ela iniciou uma conversa com uma mulher na fila e em 5 minutos vendeu-lhe um perfume. Foi tão fácil e elegante! Decidi que eu também conseguiria. Afinal, não estava roubando ninguém; as pessoas decidiriam se comprariam ou não.

E um caso parecido aconteceria comigo logo logo. Andando pelo parque com minha filha, notei uma mãe com um carrinho de bebê. Aproximei-me e começamos a conversar, demos um pequeno passeio juntas. Foi muito constrangedor, mas me animei pelas palavras que ouvi da Lena na reunião: não vendo, faço um favor pelo qual essa mulher me agradecerá mais tarde.

Consegui vender a ela um desodorante, mas foi terrivelmente constrangedor: no meio de uma conversa amigável, você de repente deixa claro que se aproximou apenas para vender alguma coisa. E você vê como a pessoa — constrangida demais para recusar — compra o que não precisa.

Eu contei à Lena sobre esse episódio e meus sentimentos. Mas ela parecia não ouvir nada. Meu mentor me repreendeu pelas vendas baixas e se ofereceu para comprar mais mercadorias com seu dinheiro para que eu tivesse um estoque e pudesse demonstrar a qualidade dos produtos. Quando eu respondi que não podia, ele disse: “Se você não tem mais nada, precisa pegar um empréstimo, todos fazem isso”.

Como não trabalho oficialmente, nunca aprovariam um empréstimo para mim, e não tinha mais dinheiro. Então decidi pedir ao meu marido. Ao chegar em casa, falei que queria comprar mais mercadorias. Ele disse que eu não estava pensando direito e que tudo isso tinha ido longe demais. E pela primeira vez na vida, ele se recusou a me ajudar. Tivemos uma briga terrível.

Continuei a fazer “negócios” (e graças ao meu marido, sem expandir meu estoque), e um dia a Lena me convenceu a participar de um grande seminário que iria ter da empresa. Eu concordei: realmente precisava sair um pouco da rotina por alguns dias e ver algum ambiente diferente do que estava acostumada.

A parte da recepção oficial do seminário foi planejada em um restaurante de um famoso hotel. Poxa, uma recepção! Fiquei muito alegre pela possibilidade de após 2,5 anos em casa cuidando de uma criança, poder usar um vestido, um salto alto e conversar com pessoas diferentes. É verdade que a viagem e a acomodação foram por minha conta, mas eu estava pronta para pagar por essa festa.

Além disso, as relações com meu marido pioraram. Assim que mencionei que era um evento da empresa, tivemos uma briga imediatamente. Ele não entendia por que eu precisava de tudo isso, e gritou que eu estava me tornando um zumbi. O tempo todo ele fazia piadas de como eu seria uma milionária de um esquema de pirâmide. Portanto, quando tive a oportunidade de fugir para esse seminário por alguns dias, fiz com prazer.

Falando a verdade, um pouco antes a Lena tinha me ligado e tivemos uma conversa. Ela me disse que tinha pegado emprestado com uma amiga um vestido lindo para o seminário, e depois me pediu para pagar com antecedência por suas aulas de inglês, porque ela não estava com dinheiro suficiente para pagar a parcela de um empréstimo. Dei-lhe um mês de aulas adiantadas, mas pensei comigo mesma: se ela está indo tão bem e trabalha para uma empresa que lhe permite vida de exuberância, como ela diz, então porque ela pega vestidos emprestados com as amigas e não consegue pagar o empréstimo? Isso me gerou muitas dúvidas.

Quanto ao seminário, devo admitir: tudo estava no mais alto nível. A reunião ocorreu em um grande salão com um palco, um anfitrião e com as grandes estrelas da empresa. O evento não custou menos de mil dólares. No entanto, o seminário em si não era essencialmente diferente do encontro com aquela gerente velhinha e tive a mesma sensação: que estava assistindo uma apresentação barata.

  • Mais tarde, aprendi um pouco sobre programação neurolinguística e percebi que um workshop de uma empresa de marketing de rede é um ótimo lugar para ver como ela funciona. Cada orador, de uma forma ou de outra, inicia uma conversa sobre como o mundo está cheio de oportunidades e, ao vender os produtos da empresa, fazemos o bem às pessoas; muita balela.
  • Os palestrantes contavam histórias emocionantes sobre como a infância foi difícil, que tiveram uma adolescência pobre e que um milagre aconteceu — uma reunião com um consultor da empresa. Depois disso, todos tiveram uma grande virada na vida. E o resultado: “Veja onde estou agora”. Onde eles estavam agora não ficou particularmente claro: muitos dos “milionários” tinham uma aparência muito maltratada.
  • Entendi por que essas empresas gostam de organizar eventos em grupo: é mais fácil instalar uma ideia na cabeça de uma multidão e assim motivar alguém que está em dúvida. Quando você vê dezenas ou centenas de pessoas na sua frente, confiantes de que a venda de tal produto é boa, após 15 minutos, literalmente, você começa a acreditar também.

  • A preocupação em reforçar que a empresa era amiga do meio ambiente era constante, e os palestrantes diziam constantemente que os produtos eram completamente inofensivos e que até a embalagem era reciclável. Mas, por alguma razão estranha, nenhum produto tinha selo ou adesivo atestando que a mercadoria ou a sua embalagem eram ecologicamente corretas. Quando perguntei sobre isso recebi a resposta de que “nossa empresa é tão famosa e respeitada que não precisamos de nenhuma certificação ou marcação”. Uau, até as empresas mundialmente famosas precisam do selo de responsabilidade ambiental na embalagem.

  • O banquete após o seminário tão inspirador não é um presente generoso da liderança para seus coligados. Depois de beber e comer na companhia dessas pessoas, você se torna parte da “família”. Você não pode simplesmente sair. A festa reforça o efeito do workshop. Os profissionais do marketing de rede encontraram uma mina de ouro quando inventaram o método através da construção de equipes.

Apesar de ainda acreditar em muito do que me foi dito no seminário da empresa, havia cada vez mais dúvidas. Em um momento, pensei que todos esses milionários eram atores contratados. Depois de fazer uma pesquisa com os nomes deles, não encontrei nenhuma informação em fontes confiáveis — apenas em fóruns de consultores de empresas.

Esperava me divertir e conhecer pessoas interessantes, mas me decepcionei nesse quesito: a maioria das pessoas da empresa era muito mais velha que eu, e nossas ideias sobre diversão eram muito diferentes. Além disso, todo mundo estava tão carregado de informações que não conseguia conversar sobre nada além da empresa, o quanto a empresa era boa e quão sortudos eles eram por entrar em uma comunidade tão restrita.

A Lena estava claramente muito confortável naquele lar de idosos. Ia de mesa em mesa, falando que admirava todo mundo, idolatrando os palestrantes como verdadeiros milionários, e dizia se orgulhar de pertencer à “elite”.

A festa terminou bem cedo, então fomos para o saguão para beber uma taça de vinho e conversar. Depois de centenas de elogios dos cavalheiros mais velhos, Lena se sentiu uma mulher invencível — então, ao pedir o vinho no bar, ela decidiu usar sua motivação para vender ao barman uma barrinha de cereal que supostamente dá energia; fiquei morta de vergonha. O barman nos olhou com uma cara de pena e desprezo perceptível. A noite já não estava muito boa, e depois disso já não dava mais. Depois de beber meu vinho, fui dormir.

A gota d´água foi a manhã do retorno. Eu estava feliz de voltar para casa e entendi que essa viagem foi um erro. Em geral, todo esse empreendimento com uma empresa de marketing de rede não era para mim. Era como se essas pessoas tivessem sido infectadas por alguma doença, e cada uma delas procurasse infectar mais pessoas ao seu redor.

Naquela manhã, nossa filha acordou com febre e meu marido não pôde ir me pegar. Fiquei muito chateada por não estar perto dela, então decidi pegar um táxi para chegar em casa o mais rápido possível. Lena disse imediatamente que estava indo comigo, embora eu tivesse que fazer um desvio extra. Assim que ela entrou no carro, começou com a baboseira para vender os produtos, dizendo que o trabalho do taxista era difícil, que ele precisava tomar vitaminas. Fiquei irritada de ter de ouvir tudo aquilo e adorei quando o motorista sem cerimônia disse que não estava interessado.

Cheguei em casa e imediatamente me dediquei apenas a cuidar da minha filha doente. Depois de algumas horas, parecia que a viagem tinha sido um pesadelo e que nada daquilo havia acontecido. Mas então Lena me ligou, e inesperadamente começou a criticar que eu não a tinha ajudado a vender os produtos nem no bar nem no táxi, que a empresa faz muito por mim, mas eu não estava apreciando isso.

E então eu entendi. Ela não se importava comigo. Eu estava preocupada com minha filha doente e essas pessoas não dava a mínima: um estranho, namorada ou um vizinho que vive apenas com um salário mínimo. Eles não se importam. Todo mundo é visto apenas como pontos, bônus, cupons e níveis.

Desliguei o telefone sem dizer uma palavra e meu trabalho com marketing de rede terminou ali.

Você já conheceu algum representante de marketing de rede? Como foi a sua experiência? Conte para a gente na seção de comentários.