Terapia com bonecos no Brasil ajuda crianças a enfrentar tratamentos de saúde delicados

Uma boneca é muito mais do que um brinquedo nas mãos de uma criança que precisa enfrentar um tratamento de saúde delicado. De maneira lúdica, os terapeutas podem usar esses coloridos seres de pano para ajudar os pequenos pacientes a entender e a aceitar os procedimentos pelos quais devem passar, além de alimentar sua autoestima.

O Projeto Bonecar e a iniciativa Bonecas de Propósito se dedicam a confeccionar e entregar a diversos hospitais centenas de bonecas e bonecos que ajudam na terapia de crianças brasileiras com câncer, com problemas renais, cardíacas, albinas e até ajudam mães em período de amamentação.

Incrível.club visitou a sede do Bonecar, em São Paulo, e conta algumas histórias de como essa brincadeira muito séria pode ser positiva para os pequenos pacientes. No bônus, damos as dicas de como colaborar.

Isa ganhou uma bonequinha que a ajudou a ter coragem de enfrentar o tratamento

“Por que meu cabelo vai cair de novo? Outras crianças têm cabelo, não entendo por que não tenho”, perguntou Isa à sua mãe, ao receber a notícia de que teria de passar por novos ciclos de quimioterapia em seu tratamento contra o câncer.

A equipe de terapia ocupacional do hospital presenteou a menina com uma boneca muito parecida com ela, carequinha, dona de uma peruca e de um gorrinho e com o vestido estampado de cenouras. Isa explorou o brinquedo, experimentou a touca, depois a peruca. No espaço ecumênico do hospital, agradeceu a Deus pela boneca, que batizou de Cenourinha.

Ela ficou algumas semanas em casa e retornou para a segunda infusão de células. Ao chegar ao hospital, perguntou à mãe: “Cadê a Cenourinha?”, referindo-se agora à terapeuta ocupacional que havia lhe presenteado a boneca e que acabou ganhando o mesmo apelido.

“O vínculo e a identificação da paciente com o recurso foram evidentes, considerando-se que o objetivo do uso do material foi alcançado”, escreveu a terapeuta no relatório entregue à Associação CasAzul, organização não governamental que mantém o Projeto Bonecar.

Bonecos e bonecas despertam identificação e ajudam os profissionais a realizar procedimentos médicos

Muito mais do que brinquedos, esses simpáticos seres de pano ajudam a criança a entender e assimilar melhor seu tratamento, como aconteceu com a menina Isa.

O pequeno Geazi, de 2 anos, na foto acima, estava arredio e jogou o boneco no chão. Mas depois de algum tempo pegou-o no colo e o abraçou. A psicóloga do Hospital Infantil Darcy Vargas, então, usou o bonequinho para trabalhar pontos importantes do seu tratamento e integrar o menino com outras crianças e com a equipe do hospital.

“São instrumentos terapêuticos e lúdicos com os quais as crianças se identificam. As bonecas viram sua companhia em momentos difíceis, elevam a autoestima da criança e ajudam os profissionais de saúde a realizar procedimentos. É uma forma de humanizar o tratamento e de promover saúde”, diz Gigi Carvalho, presidente da CasAzul.

Os bonecos passam pelo mesmo “tratamento” que as crianças com insuficiência renal

Os bonequinhos também ajudam crianças com insuficiência renal a entender e aceitar as sessões de hemodiálise a que devem ser submetidas. Com ajuda desse recurso, os terapeutas conseguem persuadir os pequenos que têm medo do tratamento, “aplicando” nos bonecos o mesmo procedimento.

Na foto acima, Rogério Ferroni, presidente da organização Heróis do Bem, veste os trajes do Capitão América e ajuda a entregar um boneco na hemodiálise do Hospital Samaritano, em São Paulo.

Gigi explica que a CasAzul não faz a entrega dos bonecos, pois deve ser realizada pelos terapeutas ocupacionais. “São profissionais capacitados para interagir com a criança, conhecem cada caso, sabem a melhor forma de abordar o assunto e de aplicar os recursos terapêuticos por meio da brincadeira com os bonecos”, diz.

Um “paciente” passa pela sessão de diálise no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Notem que ele ganha a pulserinha de identificação, como se também tivesse dado entrada no hospital. Isso ajuda a criança a entender seu problema e a sentir-se menos só.

Os amiguinhos do coração

Crianças cardíacas, que passaram por cirurgias ou transplante, têm seu modelo especial de bonequinhos. Eles vêm com uma cicatriz no peito e, do lado de fora, um coração bem colorido e pulsante, para ajudar as crianças a enfrentar o período pós-operatório.

Eles levantam a autoestima de crianças albinas

Crianças albinas sofrem preconceito, bullying e precisam manter uma rotina bem específica de cuidados. Os bonequinhos são um instrumento importante para fortalecer a autoestima e são usados terapeuticamente pela equipe do Programa Pró-Albino da Santa Casa de São Paulo.

Por conta da sua condição genética de ausência da melanina, as crianças albinas estão sujeitas a um acompanhamento médico mais frequente para evitar câncer de pele, envelhecimento precoce ou agravamento de problemas de visão.

Os bonecos albinos vêm com óculos e uma bolsinha onde levam o tubo de filtro solar, para estimular a criança a cuidar de si diariamente.

Mamães em fase de amamentação recebem informações importantes de maneira lúdica

Mulheres adultas e adolescentes também podem contar com o apoio das bonecas para entender, por exemplo, a importância da amamentação para a saúde dos bebês. Essa linda boneca de cabelos cacheados é uma das “mamães” que ajudam os profissionais de saúde a transmitir o conceito do aleitamento materno para as mamães de verdade.

Para todas as idades

Definitivamente, não é preciso ser criança para sentir o aconchego que uma bonequinha pode trazer num momento difícil. “Essa linda senhorinha, de quase 90 anos, passou por procedimento cardíaco e solicitou à equipe médica uma Boneca de Propósito. É maravilhoso o apoio que uma boneca terapêutica pode dar para pacientes de todas as idades”, escreveu no Instagram a equipe das Bonecas de Propósito, iniciativa baseada no Rio de Janeiro que originou o Projeto Bonecar.

Mais de 500 crianças puderam contar com uma companhia de pano em 2019 durante seu tratamento

Cerca de 80% das bonecas e bonecos entregues pelo projeto são beneficiadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em um post do Instagram, a Santa Casa de São Paulo fez um agradecimento à doação do Projeto Bonecar: “Somos gratos aos voluntários da Associação pela contribuição e dedicação com a causa da saúde”.

Em 2019, foram mais de 500 bonecos entregues em mais de 10 hospitais e o número tende a ser maior em 2020. O Projeto Bonecar prepara-se para confeccionar uma nova linha de bonecos dedicados às crianças com problemas de visão.

As artesãs do bem

Os seres de pano do Projeto Bonecar são confeccionados por um carinhoso time de 48 voluntárias que se revezam em turnos na oficina Associação CasAzul em São Paulo. Todas as tarefas são muito bem organizadas, para que se cumpra a meta de entrega.

Ajustando a roupa de um novo amiguinho do bem.

Do Japão, com amor

A terapia com bonecas é uma realidade em vários lugares do mundo. Na foto acima, a enfermeira japonesa Kana Harada examina um “paciente” juntamente com a criança, explicando os procedimentos pelos quais o pequeno também deverá passar.

Kana trabalha no centro médico da Universidade de Toho, em Tóquio, onde são realizados transplantes de fígado. Ela também é membro da Association of Child Life Professionals, que agrega profissionais especializados em saúde infantil no planeta.

Você também pode participar

Não é preciso ter dons de corte e costura para colaborar com o Projeto Bonecar e com as Bonecas de Propósito. São iniciativas que vivem de doações e precisam de um time constante de colaboradores para continuar confeccionando bonecas e ajudando muitas crianças a atravessar uma fase difícil com mais leveza e esperança.

No caso do Projeto Bonecar, você pode adotar uma boneca, que será presenteada a uma criança com um cartão que leva o seu nome. Ou comprar um lindo pingente desenhado pela designer de joias Lica Vicenzi. Saiba como colaborar acessando o site associacaocasazul.org.br.

O que achou da experiência terapêutica com bonecas? Existe alguma iniciativa parecida na sua cidade ou na sua região? Conte para nós nos comentários!

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