O que aconteceu com a mulher que foi a inspiração para o romance “Memórias de uma Gueixa” (e por que ela processou o autor do livro)

O mundo ocidental sempre teve dificuldade de compreender a cultura japonesa. Mas o que realmente não deixa de aguçar a curiosidade são as misteriosas gueixas, suas histórias, tradições e regras de comportamento. Qual a posição dessas mulheres na sociedade moderna? O tema já foi abordado diversas vezes em filmes e na literatura. A vida da gueixa mais famosa e mais bem paga do Japão, Mineko Iwasaki, foi descrita por Arthur Golden no livro Memórias de uma Gueixa, cuja heroína foi baseada em Mineko. A partir desse livro — que causou polêmica e foi publicado por grandes editoras — foi feito um filme. Mas a própria Mineko não ficou muito feliz com o romance.

Todos da redação do Incrível.club ficaram curiosos com a interessante história dessa mulher. Por isso, resolvemos descobrir mais detalhes sobre a biografia dela. Queremos saber também por que ela processou o autor do livro, Arthur Golden, e por que resolveu escrever o próprio romance, Minha Vida como Gueixa. Acompanhe!

Mineko não cresceu em família rica e seu destino foi decidido desde cedo

Mineko nasceu em 1949 e sua família nem sempre foi pobre. O pai dela vinha de uma família de aristocratas falidos. Durante a Restauração Meiji em 1870, os antepassados do pai de Mineko se recusaram a se mudar para a nova capital, Tóquio, e perderam todos os títulos e privilégios que tinham. Quando nasceu a 11ª criança na família, a menina Masako, os pais ainda tinham um negócio estável: vendiam kimonos com desenhos em uma loja. Isso, infelizmente, não era suficiente para sustentar a grande família e, ainda, ajudar os parentes. As irmãs mais velhas de Masako haviam sido entregues a uma casa de gueixas para ganharem a vida, e a pequena menina teria o mesmo destino.

Na verdade, essa “venda” de filhas no Japão nunca foi considerada algo terrível — era vista como uma honra, e os pais ficariam tranquilos em relação ao futuro de suas crianças.

Ela começou a aprender os segredos das gueixas desde muito jovem

Masako deixou a casa dos pais aos cinco anos de idade. Ela passou a morar em Quioto em uma casa específica para ensinamentos de gueixas conhecida como “Okiya”. A dona do estabelecimento viu o potencial da menina desde cedo, por sua graça, leveza e amor pela dança. Algumas irmãs de Masako também estudavam nessa escola, mas a garota foi a única a ser adotada para se tornar a herdeira de uma gueixa famosa. Os pais aceitaram, e foi assim que Masako se tornou Mineko Iwasaki.

Ela, então, recebeu uma mentora — uma das gueixas experientes — que acabou sendo sua própria irmã biológica. Mas isso não facilitou a vida da garota, pois as duas não tinham uma boa relação.

O talento trouxe fama a Mineko, mas no início ela sofria por conta da inveja e das intrigas das outras alunas

Cena do filme Memórias de uma Gueixa, 2005

Mineko começou a se empenhar bastante nos estudos. A matéria preferida da garota era a dança, para a qual ela tinha um verdadeiro talento. Mas ela precisava desenvolver outras habilidades, como a caligrafia, a arte da conversação e aprender a tocar instrumentos musicais tradicionais japoneses, por exemplo. Todas as meninas também precisavam se portar apenas de determinada maneira, ter cuidados com o corpo e criar novos hábitos. E, claro, aprender cada vez mais todas as nuanças e segredos das gueixas.

Em uma parte de Minha Vida como Gueixa, Mineko fala sobre certas coisas do dia a dia das gueixas que uma pessoa do Ocidente teria dificuldade de compreender.

Um dos tópicos que ela menciona é que, depois de se tornar Maiko — terceiro nível dos estudos das gueixas —, a garota passou a ter de ir ao cabeleireiro a cada cinco dias. Ela segue comentando que todas precisavam manter o penteado perfeito e, para isso, as gueixas dormiam em travesseiros de madeira com uma fronha bem fina. Além do mais, jogava-se arroz em volta do travesseiro para que fosse possível avaliar no dia seguinte se alguma garota havia se mexido durante a noite. A partir disso, se decidia se ela precisaria ou não ir ao cabeleireiro novamente na manhã seguinte.

Além disso, Mineko também precisava visitar um especialista em pelos para que não houvesse um único cabelo no rosto, mesmo que imperceptível.

Era preciso raspar o rosto por completo, o que é uma prática bastante comum para mulheres japonesas. O procedimento devia ser realizado cerca de uma vez por mês.

“A tia Oyma me contou que usávamos muitos objetos pontiagudos escondidos em nossos cabelos para que pudéssemos proteger nossos clientes de possíveis ataques. E os corais que usávamos se destinavam a garantir a segurança do saquê: eles se desmanchariam em contato com veneno”, disse Mineko em seu livro.

A casa de chá Ichiriki Chaya, aonde Mineko ia com frequência

Para se tornarem gueixas completas, as meninas precisavam passar por estágios de aprendizado. Mas Mineko já era convidada a visitar os clientes antes mesmo de ser uma aluna oficial da escola. A garota se tornou uma estudante oficial apenas aos 15 anos e os hóspedes famosos já a notavam na multidão. Ela dançava muito bem, sabia conduzir conversas e entreter os convidados de forma brilhante. Rumores sobre o aparecimento de uma nova estrela começaram a se espalhar por todo o país.

Evidentemente, essa situação teve repercussão no relacionamento dela com as outras gueixas. As meninas tinham bastante inveja e, por isso, criavam vários conflitos: atacavam-na na rua, prendiam agulhas no kimono dela. A garota também foi atacada, ameaçada e quase violada por admiradores rejeitados.

Para amenizar a situação com as outras meninas, Mineko começou a levá-las consigo nas sessões para que recebessem mais dinheiro. Mas isso não ajudou muito, e os conflitos não diminuíram. Ela também tentou morar sozinha, mas depois acabou voltando para a escola.

Aos 29 anos, foi forçada a deixar a carreira, pois sua saúde estava em risco. Afinal, um dia de trabalho começava às 7h30 e terminaria bem depois da meia-noite. No resto do tempo, ela cuidava do corpo, organizava eventos, estudava e dormia apenas cerca de três a quatro horas por noite. Mineko começou a ter sérios problemas renais, chegando até a desenvolver uma infecção. Naquele momento, ela era a gueixa mais bem-paga do Japão: recebia cerca de 500 mil dólares por ano.

Ele se encontrou com muitas pessoas famosas, mas nem todas foram agradáveis

Cena do filme Memórias de uma Gueixa, 2005

Mineko contou sobre seus encontros com pessoas famosas e influentes em seu livro. Ela teve de lidar com uma gama de tratamentos diferentes — desde o preconceito até a admiração. Mas uma das qualidades principais das gueixas é a capacidade de abrandar situações desconfortáveis e adversas.

Mineko conheceu Aldo Gucci, o famoso costureiro italiano. Por acidente, ele derramou molho shoyu sobre o kimono — bastante caro — da gueixa, o que o deixou tremendamente envergonhado. Para amenizar a situação constrangedora, ela pediu que o designer assinasse o kimono, dizendo que seria uma grande honra para ela. Na verdade, o autógrafo dele não tinha nenhum valor para Mineko, que estava apenas pensando que nunca mais poderia usar aquele traje. Depois de um tempo, ela pensou em presentear o kimono ao designer, mas eles nunca mais se viram.

Certa vez a gueixa decidiu dar uma lição na rainha Elizabeth II por ter sido desrespeitosa. Ela se aproximou do marido da rainha, o Duque de Edimburgo, e fez parecer que os dois estavam tendo uma conversa íntima, e isso gerou uma discussão entre os cônjuges. Tudo porque, durante a recepção, a rainha nem tocou nos pratos que haviam sido preparados especialmente para ela, o que foi visto como arrogância.

Uma outra história relacionada com outro membro da família real, o príncipe Charles, também causou bastante repercussão. Em um dos encontros, ele pediu o leque de Mineko e, depois de recebê-lo, deu seu autógrafo e, então, o devolveu à gueixa, que ficou em choque.

‘Isso não”, pensei, incrédula. “Adorava aquele leque e não conseguia acreditar que o príncipe o havia assinado sem me pedir. Não me importava quem ele era, achei aquela atitude apenas ignorante. Ele me devolveu o leque pensando, claro, que eu ficaria lisonjeada”.

Mineko tentou dar o leque de volta. O príncipe Charles, porém, parecia estar envergonhado por alguém não estar interessado no autógrafo dele e, evidentemente, não quis ficar com o leque. Depois, Mineko precisou jogar fora o acessório “arruinado”.

O romance Minha Vida como Gueixa, escrito por Mineko, ficou famoso no mundo inteiro, mas para isso foi preciso processar o autor do outro livro

Cena do filme Memórias de uma Gueixa, 2005

No início dos anos 90, a japonesa concordou em dar uma entrevista ao escritor americano Arthur Golden, que queria escrever um livro sobre gueixas. Ela aceitou sob condições de anonimato, mas depois percebeu que foi enganada diversas vezes. A personagem principal do romance foi inspirada em Mineko e as páginas do livro continham agradecimentos direcionados a ela. Quando a gueixa leu o trabalho, ficou horrorizada: o livro não fazia grande distinção entre as gueixas e as mulheres da prostituição. Em vez de mostrar as tradições desse recorte da cultura japonesa e explicar que não têm a ver com as prostitutas, Arthur Golden criou sua própria história para alimentar o interesse dos leitores. E conseguiu. O romance fez grande sucesso e, a partir dele, foi produzido um filme mais tarde. A atriz do filme Memórias de uma Gueixa tem uma aparência muito similar à de Mineko, mas, infelizmente, ela também se tornou refém de uma imagem inautêntica criada por Golden.

Iwasaki exigiu que Arthur corrigisse as inexatidões e lançasse o livro novamente. O escritor se recusou, por isso a discussão foi para os tribunais. A gueixa saiu vencedora e recebeu uma indenização considerável do autor por danos morais.

Em seu livro, Mineko descreveu a vida das gueixas como ela realmente era

A japonesa não suportava o fato de que o primeiro romance difamava a reputação das gueixas. Além do mais, o autor escreveu no livro que a heroína havia vendido a virgindade, o que simplesmente não era verdade.

Mineko, então, decidiu escrever o próprio livro em coautoria com Rande Brown. Em Minha Vida como Gueixa — que também virou best-seller — ela conta sobre peculiaridades da sua vida e das tradições das gueixas. Baseando-se no enredo da história, foi gravado um filme no Japão chamado Hana Ikusa (Guerra das Flores).

Cena do filme Hana Ikusa (Guerra das Flores), 2007

Como é a vida pessoal de Mineko e o que está fazendo agora

Mineko Iwasaki com o marido Jinichiro Sato e a filha Kosuke

Mineko Iwasaki conseguiu encontrar a felicidade, embora não tenha dedicado muito tempo à vida pessoal enquanto trabalhava. Ela se apaixonou pela primeira vez aos 21 anos. O escolhido? Um de seus clientes — o ator japonês Shintaro Katsu, que era quase duas vezes mais velho do que ela. E ainda era casado. Mineko recusou as iniciativas dele por muito tempo, mas depois cedeu. Os dois se encontravam sem ninguém saber e raramente. O ator prometeu se divorciar da esposa, mas não cumpriu a promessa.

Depois de se aposentar aos 29 anos, ela conheceu o artista e restaurador Jinichiro Sato. Em 1982, se casaram. Depois de um ano, a filha, Kosuke, nasceu. Após a cerimônia de casamento, Sato decidiu adotar o sobrenome da esposa. Hoje, o casal mora nos subúrbios de Quioto. Mineko adotou o amor do marido pela arte: agora ela pinta quadros e, às vezes, ajuda a restaurar obras.

A família deles raramente dá entrevistas, mas quando perguntam a Jinichiro sobre o casamento, ele responde sempre o mesmo: “Tive muita sorte”.

Tem interesse em saber mais detalhes sobre a história de vida de Mineko Iwasaki? Já viu os filmes sobre as gueixas ou leu algum livro? Comente!

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