Nutricionista Gordo prova que não precisa perder peso para ser um bom profissional

Estar acima do peso nem sempre é uma escolha. Tampouco sinal de desleixo e comodismo. Tanto que muitas pessoas lutam contra o próprio corpo a vida toda. De chacotas na escola a insultos no contexto familiar, no trabalho e até no médico. Um ambiente hostil pode levar à busca por soluções mirabolantes: dietas restritivas, desmaios, cirurgias... e mais ganho de peso. Sem conseguir encontrar ajuda, Erick Cuzziol decidiu tentar resolver o seu problema sozinho e hoje ele é o Nutricionista Gordo. Sim, ele mesmo se denomina dessa maneira e nós vamos te explicar o motivo.

Nós, do Incrível.club, acreditamos que o conhecimento é a melhor forma de aprender mais e quebrar paradigmas. Por isso, conversamos com o Erick e pedimos para que ele, com suas próprias palavras, compartilhasse sua história de vida conosco. Confira!

O dia da pesagem

Fui uma criança muito magra por causa de um problema na garganta. Quando eu tinha 7 anos, isso foi resolvido e comecei a engordar, ou seja, eu era magro porque não conseguia me alimentar. O meu peso aumentou muito de uma hora para a outra, deixando a minha mãe preocupada, sem saber como controlar a situação.

Na escola, pegavam muito no meu pé, especialmente nas aulas de Educação Física. Onde eu estudava, tinha o dia da pesagem. Ficava todo mundo ao redor da balança esperando eu subir. Nessa época, eu era adolescente e já pesava 120 quilos. Tinha um adulto ali, que deveria ver que aquele ambiente não era saudável, mas acreditavam que esse tipo de humilhação me motivaria a mudar.

Dietas malucas

Comecei cedo a fazer dieta, quando eu tinha mais ou menos 14 anos. Perdi oito quilos na primeira, depois teve uma em que perdi 20, mas recuperava rápido e isso era desanimador. Com o tempo, eu percebi que quanto mais eu insistia nas dietas, buscava remédios e outros artifícios, mais peso eu ganhava.

Eu sempre fazia a dieta da sopa, que consiste, basicamente, no consumo de alimentos líquidos e de baixa caloria. Também tomava um tipo de fibra que o fabricante recomendava bater com refrigerante diet ou light para melhorar o sabor. Olha o absurdo! Eu bebia isso todos os dias antes de ir para a escola.

A pior de todas!

Mas a pior dieta de todas foi a chamada “dieta da USP”, que, na verdade, não é recomendada pela Universidade de São Paulo. Tinha refeições nas quais eu comia só cream cracker, às vezes o jantar era presunto... alimentos que hoje são conhecidos por fazerem mal à saúde, mas estavam na dieta. Às vezes eu comia um tomate. O café da manhã geralmente era um copo de café sem açúcar.

Com essa dieta, eu desmaiei três vezes, uma delas na escola. Quando eu começava a me sentir mal, corria para um canto onde não pudesse ser visto, porque gordo caindo é motivo de piada ou bronca de professor. E eu só queria emagrecer.

Chega! Já passou da hora de dar um jeito nisso

Escolhi a Nutrição porque achava que podia encontrar respostas às minhas questões. Seria maravilhoso! Mas, infelizmente, não funciona assim. A obesidade é uma condição muito complexa e não existe fórmula mágica para acabar com ela.

Quando eu participava da clínica da faculdade, uma professora me disse que eu era uma vergonha para a instituição, pois o meu corpo mostrava que o curso era ineficiente. Esse episódio me desestabilizou bastante, mas tive apoio da direção e a professora até pediu desculpa depois.

Você percebe que não existe uma coerência nesse pensamento? Se a pessoa gorda tem que comer melhor, como esse ambiente não é lugar para ela? Um aluno gordo poderia ser visto como alguém que leva novas perspectivas à faculdade, novos desafios. Mas não era bem assim.

“Por que você se formou em nutrição e não emagreceu?”

Fui a muitas entrevistas em que se gastava imenso tempo falando do meu corpo: “Por que você se formou em nutrição e não emagreceu?”; “Como você vai explicar isso para os pacientes?”; “Como você vai fazer os pacientes acreditarem no seu trabalho?”

As pessoas achavam que o fato de eu ser um nutricionista gordo me tornava um profissional incompetente. Eu sofria uma resistência enorme e tinha que me provar constantemente. Quando trabalhei em refeitório de empresa, se precisavam de um lanchinho para um evento, pediam para mim, pois achavam que eu faria um cardápio farto e gostoso por ser gordo. Mas quando o assunto era a saúde dos trabalhadores, talvez eu não fosse a melhor pessoa para cuidar disso.

Pacientes impacientes

Quando comecei a atender pacientes, percebia pela forma que me olhavam que eles não acreditavam no meu trabalho. Muitos simplesmente não retornavam para a segunda consulta. Por outro lado, encontrei pessoas que queriam se reconstruir e entenderam que a minha luta diária era um grande aprendizado que podia contribuir, não uma falha. Esses pacientes ficaram comigo até terem alta.

Hoje em dia, as pessoas me procuram por eu ser um profissional com olhar diferenciado, justamente por conta da minha experiência. Eu não acho que isso seja essencial, não acho que eu seja melhor do que outros nutricionistas, nem que outros profissionais da saúde precisem passar por isso, mas sinto que alguns que não passam têm dificuldade de compreender como é ser uma pessoa gorda e as injustiças que elas sofrem.

Na minha opinião, a gordofobia mais grave acontece na família e a segunda mais grave acontece em ambiente médico. A gente vai pedir ajuda e é tratado como se não merecesse. Como se ser gordo fosse uma escolha, então precisamos sofrer as consequências. A obesidade é classificada pela OMS como uma doença, mas é tratada como uma sentença.

Dilema: emagrecer ou ser saudável

A maior parte das pessoas que procura um nutricionista só quer emagrecer. Elas não pensam na saúde e na qualidade de vida, elas não querem refletir sobre os fatores que as impedem de manter uma alimentação saudável. Muita coisa que acontece na nossa vida impacta na nossa alimentação e precisamos analisar isso.

Dietas não funcionam para 95% das pessoas, sendo que entre os 5% que conseguem emagrecer, há grandes chances de desenvolverem um transtorno alimentar. Os modelos das dietas de emagrecimento tradicionais se aproximam de transtornos alimentares e isso é muito perigoso.

Todo mundo que é saudável gosta de comer! Quem não gosta, algum problema tem. Gostar de comer não é errado, não é uma falha, é saudável.

Bora comer?

O meu método de trabalho se chama Comer Intuitivo. Se as pessoas precisam de um guia que seja sustentável, elas precisam ser o seu próprio guia. Enquanto na dieta você tem rigidez e privação, que são insustentáveis, no Comer Intuitivo você trabalha a flexibilidade. Só que essa flexibilidade também exige disciplina. Em vez de incentivarmos a privação e focarmos na culpa, priorizamos a consciência e focamos na satisfação. Isso tira o medo que a dieta causa e substitui por confiança.

Também é preciso levar em conta que vivemos em um ambiente alimentar perverso, em que a qualidade dos alimentos é bastante ruim. Não adianta a pessoa mudar sozinha quando todo o exterior está impactando no peso dela. É preciso compaixão.

Ser saudável é se sentir bem

Hoje, para as classificações de saúde, eu não sou uma pessoa saudável. Dentro do meu diagnóstico, eu me movimento, consumo uma boa base de frutas, hortaliças e legumes, e cuido da mente. Na minha opinião, ser saudável é estar consciente do quanto você se gosta e se cuidar para que se sinta bem.

Sim, é possível ser gordo e saudável! Aliás, opto pela palavra “gordo” porque ela já significou coragem, força, garra. Para abordar questões médicas, usam “obesidade”, mas em momento algum esse termo trouxe respeito ou dignidade à pessoa gorda. Se todos soubessem os desafios que pessoas gordas enfrentam, sentiriam admiração, não repúdio.

A equipe do Incrível.club viu na história do Nutricionista Gordo um chamamento para refletir sobre alimentação, saúde e gordofobia. Também queremos saber a sua experiência. Você briga com a balança? Já fez alguma dieta louca? Compartilhe conosco nos comentários.

Compartilhar este artigo