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Declarações de pessoas que sobreviveram ao holocausto

Declarações de pessoas que sobreviveram ao holocausto

É muito difícil imaginar as atrocidades pelas quais as vítimas do holocausto tiveram que passar. Surpreendentemente, algumas sobreviveram e se transformaram em testemunhas vivas de uma das maiores tragédias que já aconteceram. Para evitar que algo parecido volte a acontecer, é importante sempre manter a memória histórica viva.

Hoje, trazemos algumas histórias narradas por pessoas que viveram naquela época tão triste.

Tínhamos tesouras. Cortávamos os cabelos deles. Jogávamos o cabelo no chão e isso não podia durar mais de 2 minutos. Até menos de 2 minutos, porque atrás havia uma fila de mulheres esperando a sua vez. Era assim que trabalhávamos. Era muito difícil. Difícil porque alguns dos cabeleireiros reconheciam na fila pessoas queridas: esposas, mães e até mesmo avós. Imagine isso: tinham que cortar o cabelo delas, mas não podiam trocar uma palavra sequer, porque era proibido. Se soubessem o que os esperava, que 5 ou 7 minutos depois eles seriam colocados em uma câmara de gás, teriam entrado em pânico e, de outra forma, todas elas também teriam sido assassinadas.
A seleção era a palavra que dava mais medo no campo de concentração, significava que as pessoas que ainda estavam vivas estavam condenadas a serem queimadas vivas. Você não imagina como eu me sentia! Sabia que perderia a minha mãe e que não poderia ajudá-la. Minha mãe me consolava dizendo que já havia vivido muito e que se sentia mal por nós, adultos, e pelas crianças. Ela sabia que todos nós esperávamos o mesmo destino. Dois dias após a seleção, os condenados eram mantidos nos blocos, eram alimentados assim como os outros e, depois, eram levados ao bloco da morte (o bloco A 25 a). Nele, todos os selecionados eram colocados e, depois, levados ao crematório. As chamas no céu e a fumaça indicavam que naquele dia 20 de janeiro muitos inocentes foram queimados. Entre eles minha mãe. Meu único consolo era que eu também morreria e que ela já estava livre do sofrimento.
Começamos a pensar na rebelião, na vingança, e isso nos ajudou a sobreviver. Todos esses planos não valiam nada, mas era uma forma de sonhar com a possibilidade da liberdade e da morte dos nazistas. Começamos a procurar uma maneira e nos juntávamos em segredo. Houve poucas reuniões, porque tínhamos que ter cuidado. Quando voltava dessas reuniões, sentia como se estivesse fazendo algo, como se estivesse mudando alguma coisa. Se era possível, ótimo, senão levava um tiro nas costas, o que era melhor que acabar na câmara de gás. Me prometi que jamais entraria na câmara de gás, que começaria a correr, a lutar, e pelo menos eles teriam que gastar uma bala comigo. E começamos a nos preparar e a falar de nossos planos. Isso nos ajudou a sobreviver. A ideia de que talvez nós pudéssemos assumir a vergonha por todos aqueles que não podiam fazê-lo nos ajudou a sobreviver.
Eles, os nazistas húngaros, levavam as pessoas até a costa, as prendiam de três em três e, depois, atiravam em quem estivesse no meio, fazendo com que as 3 caíssem na água. Se alguém tentasse se mover, atiravam mais uma vez. Ficávamos do outro lado do rio; os nazistas não nos viram, estavam ocupados prendendo e fuzilando os judeus. Tínhamos carros com médicos e enfermeiras, e mais pessoas que tinham que tirar as pessoas da água. Éramos 4 pessoas: 3 homens e eu. Saltávamos na água. Conseguíamos tirar algumas ainda com vida. Mas salvamos apenas 50 pessoas, depois disso tivemos que parar para não morrer de frio.
No dia 2 de janeiro de 1943, fui escalado para a equipe que organizava as coisas das pessoas que chegavam ao campo de concentração. Uma parte de nós tinha que colocar as coisas em algum lugar, outros tinham que organizá-las, e um terceiro grupo tinha que empacotá-las para que fossem enviadas para a Alemanha. Todos os anos enviávamos 7-8 vagões com coisas. As coisas velhas e desgastadas eram recicladas em Memel e Lodz. Trabalhávamos sem parar, dia e noite, e não conseguíamos terminar, eram coisas demais. Em meio às coisas infantis, encontrei uma vez o agasalho de minha filha mais nova, Lana.
Tivemos a ideia de fazer dois buracos na cerca, ou melhor, embaixo da cerca, de tal maneira que as crianças pudessem passar para o outro lado, tirar a estrela de Davi da roupa, tentar se comportar como uma pessoa normal e ver se podiam conseguir alimentos. De vez em quando elas conseguiam levar ao gueto alguns produtos. Eu fiz isso muitas vezes. Foi muito arriscado, porque eles tinham ordem de atirar nos infratores. Mas eu sempre tive sorte e muitas vezes voltei para casa com pão, uma cenoura, uma batata ou um ovo. E isso era considerado muita sorte. Mamãe sempre me fazia prometer que não me colocaria em situação de risco, mas eu nunca a obedecia.
Uma garota da minha escola também estava no gueto, junto com sua mãe. Ela ficou doente rapidamente e a iam deportar. Foi então que todas nós, suas amigas, decidimos dar a ela parte de nossa porção diária de comida. Você não imagina o que significava naquele tempo compartilhar a comida. Além disso, havia apenas um par de luvas. Como fazia muito frio, fazíamos turnos para usá-las. Fazíamos isso para que todos, pelo menos durante alguns minutos, pudessem esquentar os dedos. Não sei de quem eram as luvas, mas eu as encontrei e as fiz de todos. Quando nos reunimos na Inglaterra após a guerra, uma delas me perguntou: "Blanka, você se lembra das luvas?". Eu respondi que sim, que me lembrava...
Consegui sobreviver por um milagre. Na parte da frente de cada bloco havia um pequeno quarto para os "blokalteste", o que significa chefe da cabana. Nesses locais havia caixas com pão. Uma caixa tinha a porta defeituosa e eu me escondia nela, virada para o fundo. Um dia, um guarda passou e deu um chute nela. Por sorte eu estava tão magro que ela se mexeu normalmente. E foi assim que sobrevivi. Depois, me escondi na pilha de cadáveres, porque na última semana o crematório já não funcionava e os corpos eram colocados uns em cima dos outros. Foi aí que eu passei a noite. De dia, vagava pelo campo. Em 27 de janeiro, Birkenau se transformou em um dos primeiros campos a serem liberados. E foi assim que eu consegui sair com vida.
Lembro que estava deitado no chão. Aquele garoto disse: "Meu Deus! Olhe!"... Eles começaram a levantar as pessoas do chão. Mas a maioria já estava morta. Aquelas poucas pessoas que estavam vivas foram colocadas em caminhões e levadas a hospitais. Lhes deram água. Lhes deram alimento da Cruz Vermelha. O que também era ruim, porque quando as pessoas recebiam comida, tinham tanta fome que não podiam aguentar e comiam tudo de uma vez. Centenas de pessoas morreram porque seus estômagos estavam desacostumados a receber alimento. Ao meu lado havia uma pessoa, talvez um médico, que também estava quase morrendo. Quando lhe deram a bolsa com comida, ele me disse: "Não coma nada. Se você comer algo, morrerá. Pegue apenas aquele pedaço de açúcar, coloque na boca e chupe. Só isso podemos comer por enquanto, o resto não". E ele tinha razão.
Vimos de longe como a porta se abria, vimos uma camionete com 4 policiais militares vestidos com um uniforme inglês, com luvas brancas e boinas vermelhas. Estavam dentro da camionete, com suas armas nas mãos. Atrás vinha um caminhão com caixas de som das quais se ouvia "Queridos amigos...", em diferentes idiomas: alemão, polonês, idish, etc. "A partir de agora, vocês são livres. Foram libertados pelas tropas aliadas. Os alemães já não têm poder sobre vocês. Vocês são pessoas livres." Todos choravam. Foi uma sensação incrível, difícil de descrever. As pessoas quase morreram de alegria, se abraçavam e se beijavam. Todos corriam em direção à camionete. Os policiais desceram e as pessoas os carregaram nos braços, sem poder acreditar. Muitos ainda tinham medo.
Tradução e adaptação Incrível.club