A história de uma noite que recuperará sua esperança (até mesmo se você a perdeu completamente)

Gente
há 4 anos

O escritor e blogueiro russo Oleg Batluk escreve sobre tudo o que nos cerca: nossa família, vizinhos e até sobre estranhos que encontramos todos os dias. Algumas de suas histórias são como contos de fadas, cheios de bondade. Elas não apenas nos proporcionam minutos de leitura agradáveis, mas também nos ajudam a lembrar que tudo ficará bem.

Com a permissão do autor, o Incrível.club publica um conto sobre a história do Ano Novo que começou como um thriller de Hollywood.

Já era 1h da manhã e algo começou a fazer barulho no estacionamento. Os alarmes dos carros, particularmente histéricos, começaram a soar. Alguns segundos depois, a escuridão foi rasgada em pedaços como agulhas afiadas cortam os panos. Alguém tinha soltado fogos de artifício sob as janelas. Era 17 de janeiro! Esses idiotas não soltaram fogos de artifícios suficientes no Ano Novo?

“Idiotas”, minha esposa resmungou ainda sonhando, sem acordar, lendo telepaticamente meus pensamentos em seus sonhos.

Gabriel acordou e veio para o nosso quarto com os pés descalços. Ele começou a choramingar. Deitei-o no meu lugar, o cobri e, impulsivamente, corri para o corredor. Sob a adrenalina, vesti as primeiras roupas que encontrei: minha jaqueta, a touca da minha esposa, o cachecol de Gabriel. Não importa quantos deles estejam no estacionamento, idiotas — eu vou acabar com todos!

Entrei no elevador no meu penúltimo andar. O importante é que a minha adrenalina não acabe antes de encontrar o primeiro babaca que estiver lá. Sem adrenalina, com a touca da minha esposa e o cachecol do Gabriel, no estacionamento, nada vai ficar bem para mim. No décimo andar, o elevador parou e um cara com um taco de beisebol entrou. Ele me lembrava alguém com aquele boné — era um caminhoneiro. É verdade que alguém com um taco de beisebol à 1h da manhã era raro de se encontrar. Eu via esse tipo de cena com pouca frequência, ou melhor, nunca.

— Preciso acordar às 6 da manhã para pegar meu voo. Vou matar esses idiotas — ele disse, olhando para o meu cachecol com um olhar compreensivo, ao invés de julgar-me.

Nós continuamos em silêncio, cada um com as suas próprias preocupações. É sempre assim antes das lutas.

No terceiro andar, o elevador parou mais uma vez e nós nos separamos novamente.

Uma pesado grandalhão espremeu-se entre nós (e nos separamos no elevador de cargas). E, como se isso não bastasse, a grandalhão estava acompanhado por um cão gigante da raça “vou acabar com todos vocês”, quase do meu tamanho. Se não fosse por certas inconsistências na cronologia, eu juraria que Conan Doyle descreveu seu cachorro com inspiração nesse animal que parecia ter saído do zoológico.

— Eles acordaram o meu cachorro — disse o grandalhão calmamente — portanto, agora terão de passear com ele.

Imaginei vividamente essa imagem e, mesmo com toda a minha hostilidade aos loucos que estavam soltando fogos, fiquei com pena deles por um segundo.

O grandalhão com o Cão dos Baskervilles andou um pouco à frente de nós e comecei a me preocupar que não restaria nada para mim e muito menos para o caminhoneiro. De repente, o grandalhão parou e começou a hesitar em colocar um pé na frente do outro. Suas costas tão largas como uma tela widescreen 16×9 cobriam completamente o nosso futuro campo de batalha. Eu e o caminhoneiro espiamos sincronicamente através dos grandes ombros quadrados.

No meio do pátio do estacionamento, ao lado de uma caixa de fogos queimados carbonizada, havia um camponês solitário. Seu chapéu estava congelado pela geada, despenteado, com orelhas surreais de tão grandes, como se uma criança tivesse acabado de moldá-las com massinha de modelar e desajeitadamente as colocado em sua cabeça. Na mão, o camponês solitário segurava uma vela de aniversário. Nós três assistimos o fogo da vela se apagar lentamente.

O senhorzinho não ficou assustado. No entanto, eu não conseguia determinar se ele estava bêbado ou não. Ele olhou para nós e tentou sorrir. Sua intenção foi dada pelos raios dispersos nos cantos dos olhos. Mas o camponês não conseguiu sorrir — o rosto triste não o deixava. Percebi que ele não tinha medo pelos seus olhos. Não havia esperança nele e o medo só é capaz de viver onde a esperança ainda não é escassa.

— Vejam só — disse o homem responsável por nós três e o Cão dos Baskervilles estarmos ali — já é meu aniversário faz uma hora e eu não tenho ninguém para comemorar.

As cinzas espinhosas da vela de aniversário alcançaram o chão e, de repente, a vela se apagou. Ao redor, ficou imediatamente escuro, pelo menos mais escuro do que estava.

O grandalhão colocou a mão no bolso e pegou um isqueiro. O isqueiro se afogou inteiramente na palma gigante de sua mão. Ele girou a roda e ajudou o camponês a atear fogo à vela novamente. Parecia que o grandalhão estava ateando fogo à vela somente com sua mão.

O caminhoneiro hesitou, mas presenteou o camponês com o seu taco de beisebol.

— Meus parabéns.

Eu, por minha vez, dei desafiadoramente o cachecol do meu filho e a touca da minha mulher, como uma forma de sugerir que transmitia os parabéns de toda a nossa família.

O cão dos Baskervilles foi até o camponês e lambeu a mão dele — a mão com a qual ele segurava o taco de beisebol, a mesma que ele planejara morder cinco minutos atrás.

Eu, o grandalhão e o caminhoneiro voltamos para a entrada. Depois de dar vários passos juntos, nós nos separamos sem dizer uma palavra.

O camponês ainda estava sozinho no meio do pátio do estacionamento, tentando sintonizar algumas ondas alienígenas com fones de ouvidos imaginários. Com um taco de beisebol, ele parecia com versão mais velha do Duke Nukem. A vela em sua outra mão ainda brilhava, mas agora parecia que brilhava um pouco mais.

Ilustrador Xenia Shalagina exclusivo para Incrível.club

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