Incrível
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11 Comidas que ganharam o mesmo nome, mas têm sabores bem diferentes ao redor do país

Imagine a seguinte situação: uma pessoa do sul do país, em passeio pelo nordeste, entra numa padaria e pede um pé de moleque. Em vez de receber um doce de amendoim, o atendente lhe entrega um bolo de mandioca.

Histórias assim podem ser muito comuns, já que o Brasil é tão extenso e rico em culturas a ponto de ter pratos que são bem diferentes entre si, mas têm o mesmo nome. O que a princípio pode causar uma confusão, pode ser depois uma fonte de bate-papo com amigos.

E como nós, do Incrível.club, amamos falar de comida e curiosidades, reunimos esta lista de pratos diferentes que têm o mesmo nome em vários locais, para “alimentar” as suas conversas.

1. Cuscuz

Originalmente, o cuscuz é um alimento do norte da África, feito da sêmola de cereais como o trigo. Em alguns países africanos, ele é um prato consumido diariamente, assim como o arroz para os brasileiros. O prato foi adaptado no Brasil, mas é servido de formas diferentes, dependendo da região.

Muito conhecido como cuscuz paulista, essa versão tem influências indígenas e europeias, principalmente portuguesas. Costumeiramente é preparado com farinha de milho, molho de tomate, peixes como sardinha ou atum, camarão, ovos cozidos e legumes enlatados: ervilha, milho, palmito, entre outros. Tudo isso é montado em assadeiras com furo no meio e servido desenformado, quente ou frio. É bem tradicional em datas festivas, como Festas Juninas, Natal e Ano-Novo.

Já se você for para o nordeste do Brasil e pedir um cuscuz, vai receber um prato bem diferente do cuscuz paulista. Por lá, o cuscuz é um prato mais do dia a dia, sendo consumido em qualquer uma das três refeições principais. É feito com farinha ou polvilho de mandioca, milho ou arroz, temperado e cozido a vapor nas cuscuzeiras. E é servido acompanhado de manteiga, carnes, ovos, entre outros. No norte do Brasil, também existe o cuscuz doce, normalmente consumido no café da manhã.

Há ainda uma terceira versão do cuscuz no Brasil, o cuscuz campeiro ou cuscuz gaúcho, originário do interior do Rio Grande do Sul. Ele também é feito com farinha de milho, como o paulista, e com charque, parecido com o nordestino. Também pode ter linguiça, salsinha, cebolinha, manteiga, alho e outros temperos. O chef Tuca Mezzomo relata que sua avó servia esse cuscuz no café da manhã, antes de sair para trabalhar na lavoura em Carazinho.

2. Canjica

A canjica é um alimento mais brasileiro que a feijoada, já que sua origem vem dos próprios nativos das nossas terras, os povos indígenas. Afinal, o milho é um alimento comprovadamente sul-americano. Outros estudiosos afirmam que o prato é, na verdade, africano. E as discussões seguem nas mesas brasileiras, já que as regiões divergem de qual prato chamar de canjica.

Para os brasileiros do norte e nordeste, canjica é o doce feito do creme de milho verde, com leite de vaca ou de coco, açúcar e canela. É um prato típico das tradicionais Festas Juninas, mas também consumido em outras épocas. No Rio de Janeiro, esse prato é chamado de canjiquinha. A palavra vem do termo kanjika, do quimbundo, uma língua falada em algumas regiões da Angola.

Já para os moradores do sul e também do Distrito Federal, canjica é outra coisa — mas pelo menos é um doce de Festas Juninas também. Para esses brasileiros, a canjica é feita de milho branco cozido num caldo que leva leite de vaca ou de coco, açúcar e, para alguns, canela e cravo-da-índia. Muitos ainda acrescentam leite condensado, coco ralado e amendoim. Os nordestinos chamam o mesmo prato de mungunzá, ao passo que para o sul/sudeste o doce nordestino se chama curau.

3. Curau

E por falar em curau, esse prato também pode ser motivo de longas conversas entre brasileiros de diferentes regiões. Não bastasse a confusão de nomes “curau versus canjica versus mungunzá”, ainda temos mais um prato com esse nome.

O doce de milho que os nordestinos conhecem como canjica e os cariocas, como canjiquinha, é chamado de curar no sudeste e sul do país. É muito relacionado à pamonha, já que a base dos dois é a mesma: o milho ralado. Mas a pamonha tem consistência mais firme, pode ser doce ou salgada e é tradicionalmente cozida na palha do milho. Curau pode ser salgado? Bom, mais ou menos. Veja a seguir.

Se você nunca ouviu falar de curau salgado, isso está para mudar. Em alguns lugares da região norte do Brasil, curau é o nome de um prato feito com farinha de mandioca e carne seca, ambas socadas no pilão. É também um alimento muito comum no sertão, mas que é conhecido por mais um nome diferente: paçoca!

4. Paçoca

A palavra paçoca lembra “socar”, e não é à toa. Ela vem do tupi, língua em que tem o significado “terminar socando”. A origem do prato também é indígena, assim como o seu nome. E é justamente o nome que traz confusão a muitas pessoas.

Começando pelas origens, a paçoca é um prato feito misturando farinha de mandioca, carne seca e temperos, e finalizada socando num pilão ou moinho. Isso mesmo, tal qual a versão do curau que vimos acima. Essa paçoca é encontrada nos sites de receitas como paçoca de carne ou de carne seca, para evitar confusão com a outra paçoca, que você já sabe qual é.

Essa, pra evitar o nó no cérebro, vamos chamar de paçoca de amendoim. Ela é um doce feito de amendoim, farinha de mandioca e açúcar. É também um doce típico e originário da culinária indígena, mas que tomou conta dos mercados graças à industrialização, inclusive da versão popular do tipo rolha. Como essa da foto, que desmancha na boca.

5. Moqueca

Depois da canjica que virou curau e que virou paçoca, seguimos para a próxima confusão culinária. Mas essa está mais para polêmica: afinal, os brasileiros têm dois pratos diferentes com o mesmo nome, a moqueca. Para começar, a moqueca é um cozido de peixes, basicamente. Vamos ver quais são as diferenças?

Para os baianos, a moqueca é preparada com peixes e/ou frutos do mar e um caldo com leite de coco e azeite de dendê, dois ingredientes bem típicos da Bahia, além de pimentão, coentro e outros. Essa forma de preparar a moqueca evidencia a influência da culinária africana, aproximando-se da moqueca angolana. No Pará ainda se adicionam os seus ingredientes mais marcantes: tucupi, jambú e goma de mandioca.

Olhando as fotos, até parece a mesma moqueca, mas no Espírito Santo o sabor vai ser bem diferente, graças à ausência dos ingredientes típicos da baiana. Para os capixabas, moqueca com leite de coco e azeite de dendê nem é moqueca, é peixada. Para dar a cor característica, a moqueca capixaba leva sementes de urucum, marca da culinária indígena.

Enquanto os baianos e capixabas se resolvem, nós nos deliciamos com ambas as moquecas. Guardadas as diferenças, é importante ressaltar que todas as moquecas, tradicionalmente, são preparadas em panelas de barro. E com isso, todos concordam.

6. Pé de Moleque

Você sabia que o pé de moleque tem origem árabe? E que a mesma receita que inspirou o nosso doce também deu origem ao nougat da França e Portugal? Além de ter inspirado outros doces em outros países também. Mas o que os brasileiros chamam de pé de moleque, afinal?

O pé de moleque mais conhecido é o doce feito de amendoim torrado e rapadura, sendo que, na falta da rapadura, pode ser usado o leite condensado também. Uma das histórias que explicam o motivo do nome do doce ser esse é que as quituteiras que o vendiam eram constantemente roubadas pelas crianças. Irritadas, elas ralhavam com os pequenos, diziam que eles podiam ao menos pedir: “Pede, moleque!”

Se você está acostumado a morder o doce pé de moleque, vai se surpreender num passeio ao nordeste. Por lá, pé de moleque pode se referir a um bolo! Isso mesmo, um bolo de puba (massa fermentada de mandioca) enrolado em folhas de bananeira e assado em forno a lenha. Sem amendoins e sem rapadura. Esse doce também é chamado de manuê ou Pé de Zumbi.

7. Quibebe

Quibebe é mais um dos pratos que os povos africanos trouxeram e ganharam o coração e o estômago do Brasil. Porém, é mais provável que o quibebe seja uma colaboração da culinária africana e indígena, já que não existiam abóboras na África. Mas, é claro, existe mais de um prato chamado quibebe no Brasil. Qual você conhece?

O quibebe afro-indígena é um purê de abóbora, geralmente da abóbora de pescoço. O sabor adocicado da abóbora misturado com os temperos do quibebe torna esse prato delicioso. Geralmente é acompanhado com carnes, e alguns lugares têm o quibebe na mesa no dia a dia.

Já para os goianos, quibebe é um prato totalmente diferente. Um cozido de carnes e mandioca, ou então de linguiças e mandioca. Esse prato que muitos chamam de vaca atolada é, para os goianos e até uma parte dos mineiros, o quibebe.

8. Broa

Alguns dizem que é um tipo de bolo, outros de pão, outros que se parece com um biscoito. A broa é mais um exemplo real de como um nome no Brasil pode ter diferentes significados e histórias. Originalmente, a broa veio de Portugal que, por sua vez, se inspirou nos povos germânicos. O nome vem da palavra brauþ (pão). Mas, para os brasileiros, a história é outra.

A broa brasileira mais parecida com a portuguesa é a broa de fubá, pequena e com uma crosta craquelada e crocante. Ela parece um pãozinho ou biscoito e também é conhecida como broa de milho (afinal, o fubá é feito de milho), e é bem tradicional na região sudeste. Vai bem com café.

Ainda no sudeste do Brasil a broa de fubá pode ser outro prato, bem diferente do primeiro. Dessa vez, parece mais com um bolo e é tradicionalmente assado em uma forma com furo no meio, apesar dessa broa linda da foto ter sido feita na folha de bananeira. Vai bem com café.

Movendo-se um pouquinho para o sul, encontramos outra broa, no Paraná: a broa polonesa. Essa é bem mais parecida com um pão caseiro, e tem origem nas famílias de colonos do sul. A principal diferença é que, além do fubá, nessa receita vai também batata. Diferenças à parte, vamos concordar que também vai bem com café.

9. Açaí

Alguém aí se surpreendeu que o açaí está nessa lista? Como pode ter alimentos diferentes que se chamam açaí no Brasil? Pois saiba que tem, na verdade, formas diferentes de se comer o açaí, de forma que você pode sim esperar encontrar um prato e acabar comendo outro. Atiçamos sua curiosidade?

Nas regiões centro-oeste, sudeste e sul do Brasil, açaí é o nome dado a uma sobremesa. Trata-se da polpa congelada da fruta açaí, que é consumida como sorvete e acompanhada de frutas e doces. Geralmente, come-se açaí nessas regiões à tarde ou à noite. Ele também é considerado um alimento muito energético e associado ao bom funcionamento intestinal e fortalecimento dos ossos.

Já no nordeste e principalmente no norte do país, o açaí tem outra identidade. Por lá, ele é um alimento básico do dia a dia e é consumido na companhia de arroz, feijão, carnes, farinha, entre outros. Outra forma bem comum nessas regiões é o suco de açaí. Isso porque a fruta açaí é nativa dessa região, sendo que só o Pará produz 90% de todo o açaí do Brasil.

10. Chipa

Depois de tantos alimentos com origens afro-indígenas e portuguesas, chegou a hora de olhar para o outro lado do mapa. A chipa tem origem nos nativos da região que hoje é o Paraguai e, por sua vez, inspirou os brasileiros a criar o pão de queijo.

A tribo dos Carijós-Guaraníes já fazia, segundo exploradores, um alimento muito parecido com a chipa, chamado mbuyapé, que significa “pão” em guarani. A chipa é um quitute assado, com massa feita de polvilho, óleo, queijo ralado, ovos e sal, e modelada em forma de ferradura. Foram os moradores do Mato Grosso do Sul que primeiro trouxeram a chipa para o Brasil.

Essa outra chipa, para confundir ainda mais, também veio do Paraguai e é chamada de chipa gazú. Na foto já podemos perceber como são diferentes. A chipa guazú é uma torta de milho, também preparada pelos indígenas há mais de mil anos. Os brancos incorporaram o queijo na receita e o que temos hoje é um prato que reúne amigos e família para socializar.

11. Quibe

Muita gente já sabe que o quibe é um quitute árabe. Mas você sabia que o significado do seu nome é “bola”? Na Líbia, Palestina, Iraque e Síria, quibe é considerado prato nacional, e sua presença se estende ainda para diversos outros países, inclusive o Brasil. Mas cuidado, dependendo de onde você estiver, pode se surpreender ao pedir um quibe.

O quibe tradicional no Brasil é bem parecido com o árabe: feito de uma mistura de triguilho e carne moída e recheado com mais carne, além de temperado com ervas. Alguns lugares no Brasil já inovam com versões recheadas de queijo, e até veganas. Até aí, tudo bem. Você vai se surpreender se for para o Acre.

Ao pedir um quibe no Acre, só a cor já vai te surpreender. Acontece que o quibe acreano é feito com massa de macaxeira, que alguns conhecem como mandioca, ou então com farinha de arroz. O recheio continua o mesmo, carne. O motivo para a mudança na receita, como visto neste outro artigo do Incrível.club, foi a dificuldade em encontrar os ingredientes próprios do quibe tradicional.

Nós acreditamos que melhor do que tentar chegar numa conclusão sobre qual prato é o “certo” ou o “verdadeiro” é conhecer e admirar a diversidade do nosso país. Cada prato tem sua história e nós, os comilões e comilonas, também temos nossas histórias envolvendo essas comidas. Qual é a sua?

Observação: Este artigo foi atualizado em Março de 2022 para corrigir o material de origem e/ou imprecisões factuais.
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