15+ Histórias de quem chamou um profissional e ganhou muito mais que o conserto


Se a vida lhe der limões, faça uma limonada. Não sabe como? Então conheça o Senhor Endorfina: ele irá mostrar, ensinar e permitir que você experimente seu óculos cor de rosa.
Uma vez, durante uma longa viagem de carro, meu amigo e eu paramos para fazer um lanche num bar de estrada. Meu amigo pediu um cachorro quente. Eu me abstive, apesar de estar totalmente faminto. No guia “Michelín” (mundialmente conhecido por suas indicações de restaurantets chiques), aquele bar certamente receberia três estrelas negativas. Era um verdadeiro cafofo e eu tinha medo de que, naquele lugar, os hot dogs fossem, literalmente, feitos com carne de cachorro.
“Como você pode comer isso?”, brinquei. “Não tem medo dos defensores dos animais domésticos?”
“Você realmente precisa do Senhor Endorfina”, respondeu meu amigo.
“De quem?”
Foi assim que fiquei sabendo da história do Senhor Endorfina.
Meu amigo contou o relato enquanto esperava seu hot dog. E o pessoal da cozinha demorou muito para entregar o pedido. Pelo visto, estavam tendo dificuldades em capturar o cachorro.
“No meu primeiro emprego, havia um homenzinho. Um contador. Era daquelas pessoas que a Polícia não conseguiria encontrar pela falta de características distintivas especiais. Um cara quase invisível, de tão discreto. Só um homem qualquer de meia idade. Quando o vi pela primeira vez, pensei: ’que cara mais simples e pouco interessante” Até o dia em que escutei seu riso quase imperceptível.
’Você não é tão simples, amigo’, ele me disse na ocasião. E eu pensei que talvez devesse pedir demissão, já que o contador da empresa ria dos documentos financeiros.
No fim das contas, aquele personagem era, de fato, muito peculiar. Para ele, tudo era sempre incrível. Esse era seu truque. Entendeu? Sempre. E tudo. Até no inverno.
O clima para ele está sempre bom. Uma vez, eu estava indo trabalhar e chovia muito. Ventava, meu guarda-chuva quebrou e eu lutava contra as gotas que mais pareciam agulhas geladas. É melhor até que eu nem descreva meu péssimo humor. Vi que esse sujeito estava em frente à entrada do escritório, com água até os joelhos, olhando para os próprios pés. Os bueiros de drenagem estavam entupidos, e a água brotava da calçada diretamente sobre os sapatos dele. ’Olha’, ele gritou para mim, ’é como um rio caudaloso’, e voltou a olhar para os próprios pés.
Seu carro é o melhor. Outro dia ele me deu uma carona. Fomos m seu carango, que é bem velho. Era uma espécie de Frankenstein, de vários modelos. ’Escute como o motor funciona’, disse. ’É como se estivesse cantando, não é?’ Eu ouvi. Se aquilo era música, estava sendo interpretada por um péssimo cantor, já no fim da vida: era pura tosse e uns gemidos esporádicos. Mas meu acompanhante não estava nem aí: ’ninguém diz que essa beleza já tem 30 anos, você não acha?’ Quando eu soube a idade da ’belezura’, pedi a ele que parasse, pois já estava perto da minha casa. Desci num terreno baldio e precisei caminhar por uma hora até chegar na estação de metrô mais próxima.
Suas férias eram incríveis. Uma vez, seguindo uma dica que ele deu, fui para o litoral. Ele tinha passado uma tarde inteira contando que aquela tinha sido a melhor folga de sua vida, que o hotel era ótimo, com um café da manhã delicioso. Enquanto falava, até deixou escapar um pouco de saliva pelo canto da boca. E eu acreditei. Resolvi vcoltar com ele ao hotel. Chegando lá, só faltaram nos jogar do avião com um paraquedas sobre um vale da morte. E no meio de uma paisagem que mais lembrava a Lua: tudo se resumia a espinhos e um hotel. O mar só podia ser visto em sonhos, já que o hotel ficava num povoado perdido meio longe da costa. O café da manhã era o mesmo servido para os pedreiros e camponeses da região: linguiça, arroz e uma gororoba de ketchup. Pedi o livro de reclamações.
Não com um, nem com dois, mas três sinais de exclamação, e todas as letras maiúsculas. E aquela assinatura que eu conhecia.
Nessa época, ainda não havia estabelecimentos que servissem comida decente perto do nosso escritório. Tínhamos de tentar a sorte no refeitório. Eu sempre o levava junto para almoçar comigo. ’Que sopa mais maravilhosa, cortaram as cenouras em pedaços grandes, e que batatas selecionadas. E esse tempero, que tempero!!’, repetia, em meio ao seu êxtase gastronômico diante de um prato de caldo feito com água do balde usado para lavar o chão. ’E essa almôndega, que divina, nem parece uma almôndega, que carne mais macia (a cada frase que ele dizia, a carne macia mugia de tanta surpresa), e o molho, ah, que molho’, etc. Eu o ouvia um pouco, olhava para ele, e de repente, a sopa perdia um pouco do sabor de sabão, e a almôndega chegava ao estômago sem arranhar meu esôfago com suas garras. E o mais importante é que eu nunca passei mal depois de ter comido com ele. Pelo visto, diante de sua presença, meu corpo produzia algum tipo de substância protetora.
E isso não era falsidade, o que deixa tudo ainda mais interessante. Tudo era 100% sincero. Ele era apaixonado pela vida, como uma criança de um ano de idade. Talvez, quando criança, ele tivesse caído num tanque cheio de lágrimas de felicidade, como Asterix no caldeirão de poção mágica.
E sabe o que é melhor? A família dele é igual. Uma vez ele me convidou para ir a sua casa. Acabei comprando uma torta indecentemente barata, de waffles, para levar. Nos sentamos à mesa com ele, sua esposa e seu filho. Cortamos a torta que mais parecia de madeira. E tudo começou: ’Que delícia mais maravilhosa’, gemeu o menino. ’Que maravilha de delícia’, continuou a esposa. Pensei que eles estavam fazendo de propósito. Mas os obervei com atenção: eles estavam realmente em êxtase. Quando me despedi, os três quase beijaram minha mão em agradecimento".
Nessa hora, chegou o hot dog do meu amigo, e ele terminou a história.
Meu amigo pegou o hot dog, colocou na boca e sussurrou:
“Que delícia de salsicha, quente, com especiaria. Ah, e esse ketchup só pode ser feito com tomates selecionados. Tem também mostarda, picante, doce. Um pão delicioso e crocante...”.
“Moça!”, gritei no meio do restaurante. “Pode fazer um hot dog para mim também?”.











