Incrível
NovoPopular
Inspiração
Criatividade
Admiração

Por que alguns cientistas se recusam a salvar animais em risco de extinção

Segundo a ciência, é normal ocorrer, a cada 50 ou 100 milhões de anos, uma extinção em massa na Terra, caracterizada pelo desaparecimento de até 95% das espécies existentes. E os pesquisadores acreditam que, neste momento, estamos vivendo mais um processo como esse. Por isso, muitos deles defendem a polêmica tese de que não adianta tentar salvar espécies que estão em risco, já que, em algum momento a extinção em massa ocorrerá e a natureza deve seguir seu curso.

Incrível.club descobriu as razões pelas quais alguns estudiosos acreditam que o resgate de animais em perigo de extinção não é necessário, e, ao contrário, pode prejudicar a natureza.

Seleção natural

A extinção é um processo natural que acompanha a evolução. Com isso, a natureza se livra de espécies mal adaptadas, favorecendo as mais resistentes. Esse ponto de vista é defendido pelo biólogo R. A. Pyron, do Departamento de Ciências Biológicas do Columbian College of Arts and Science. Ele acredita que o próprio conceito de espécie ameaçada de extinção é fundamentalmente errôneo, uma vez que, de fato, todas desaparecem gradualmente.

Diante da tese de que muitos animais estão desaparecendo por causa do homem, esse especialista responde com uma explicação simples. Pyron diz que a mudança produzida pelas pessoas é artificial apenas à primeira vista. Somos parte do ecossistema do Planeta e nossas ações são tão legítimas quanto naturais. Se a espécie desaparece, será substituída mais cedo ou mais tarde por uma nova. Naturalmente esse é um processo longo que, em condições naturais, dificilmente pode ser observado.

Portanto Pyron acredita que as tentativas das pessoas de salvar os animais em perigo de extinção nada mais são do que uma liberação de seus sentimentos de culpa.

Mudanças no ecossistema

Juntamente com a extinção, também ocorrem outros processos, como a alteração dos ecossistemas. O caso mais famoso é o do repovoamento artificial de lobos no parque Yellowstone (EUA), onde vivia um grande número de cervos e alces. Claro, os predadores que chegaram acabaram reduzindo significativamente a população desses animais, o que, por sua vez, levou a um aumento da quantidade de plantas como álamos, contribuindo para o aumento da população de castores. Além disso, os cientistas descobriram consequências menos óbvias dessa situação:

  • Apenas dois anos depois do retorno dos lobos, a população de coiotes diminuiu em duas vezes.
  • O número de raposas que competia com os coiotes aumentou significativamente. Como os primeiros animais comem pequenos roedores, que se alimentam de raízes, folhas, nozes e outros produtos vegetais, a flora local passou por mudanças significativas.

Na China durante a Revolução Cultural ocorreu uma situação semelhante. Para aumentar a produtividade nas lavouras, o governo local decidiu exterminar os pardais. Durante o primeiro ano, a colheita aumentou, mas, no ano seguinte, a população de gafanhotos e lagartas cresceu catastroficamente. A colheita foi reduzida, causando a fome.

Ou seja, o principal problema da preservação de uma espécie é que é completamente impossível prever como a natureza irá reagir com o retorno em massa de um animal que estava destinado à extinção ou com a matança massiva, alterando o ecossistema.

O custo de salvar uma espécie

Os gastos para salvar animais em perigo de extinção variam de país para país e, claro, do tipo de espécie. Segundo algumas estimativas, cerca de 64 bilhões de dólares são investidos anualmente no mundo todo. O dinheiro vai para a organização e manutenção das reservas, para a melhoria do marco legal e, claro, para combater os caçadores clandestinos. Como os próprios cientistas corretamente apontam, essa quantia é pequena, considerando que o bem-estar do ecossistema e, portanto, do homem, está em jogo. No entanto, esse montante de recursos muitas vezes é inacessível para governos de países mais pobres. E há ainda a questão da destinação dos recursos, que poderiam ser usados para outros fins, como saúde e educação.

Por exemplo, no Estado da Flórida (EUA), as autoridades estão tentando desesperadamente preservar um puma em perigo de extinção. Apesar do esforço anual do projeto com um montante de 50 a 100 milhões de dólares, a população desses felinos aumentou pouco. Nesse sentido, os governantes têm de se fazer uma pergunta razoável: vale a pena gastar tanto dinheiro em uma tentativa de salvar o que, aparentemente, será destruído de qualquer maneira?

Os especialistas têm uma resposta simples: se você não investir em salvar as espécies agora, mais adiante, terá de gastar ainda mais em questões indiretas e não previstas. Por exemplo, a destruição das abelhas levará a um aumento acentuado nos preços dos alimentos e a morte massiva dos abutres poderá causar um aumento no número de casos de raiva e, consequentemente, das despesas médicas nos sistemas de saúde públicos.

Redução da diversidade genética

A falta de diversidade genética pode levar a consequências muito graves e até à completa degeneração das espécies, inclusive a humana. E há muitos exemplos desse tipo na história da humanidade: para ficar em um bem conhecido, Carlos II, rei da Espanha, foi o herdeiro de uma tradição de seis séculos de casamentos consanguíneos. Por conta disso, ele não conseguia mastigar os alimentos adequadamente. O rei também tinha uma série de problemas físicos e mentais, todos atribuídos aos casamentos entre seus parentes no passado.

O mesmo acontece com os animais. O caso mais famoso é do tigre chamado Kenny, que vive em uma reserva dos Estados Unidos. Oficialmente, o animal foi diagnosticado com síndrome de Down. Os pais do tigre eram irmãos de sangue, o que causou tal patologia.

Apego aos humanos

A principal maneira de salvar uma espécie é com a criação dos animais em cativeiro, até atingirem uma população razoável. Então, os indivíduos jovens são liberados.

Foi o que aconteceu com algumas espécies de condor. Os cuidadores usaram bonecos especiais parecidos com pássaros, durante a criação dos filhotes justamente para que as aves desapegassem deles. Era necessário que os jovens não tentassem imitar uma pessoa, percebendo-a como pai. Mas, apesar das medidas de precaução tomadas, as aves soltas costumavam visitar as pessoas e mostravam um interesse doentio por elas. Isso levou a uma barreira cultural entre os condores selvagens e aqueles que cresceram na reserva.

Problema ético de zoológicos e reservas

Para preservar uma espécie, é necessário capturar vários de seus representantes na natureza selvagem e usá-los para a recuperação da população. Os animais selecionados estarão sempre na reserva ou no zoológico, sob a supervisão de especialistas. O problema é que a reprodução sob tais condições é difícil por várias razões:

  • A formação de casais é mais rara, dadas as restrições no número de indivíduos.
  • O número de temporadas de acasalamento é consideravelmente reduzido para uma ou duas ao ano, em comparação com o padrão de quatro ou cinco, na maioria das espécies.
  • Praticamente qualquer animal em cativeiro experimenta estresse psicológico, o que pode interromper os ciclos sexuais das fêmeas.

Portanto, alguns especialistas tendem a acreditar que uma tentativa de restaurar artificialmente a população é um tipo de tortura animal, embora involuntária.

Bônus

Curiosamente, quanto mais pessoas falam sobre salvar um animal, mais rapidamente ele morre. Em particular, nos casos em que esses indivíduos aparecem em campanhas publicitárias — mesmo que essas campanhas sejam justamente para salvá-los. Às vezes, até mesmo os cientistas não percebem que esses animais estão à beira de extinção. Por exemplo, calculou-se que a maioria das pessoas já viu um número muito maior de leões na TV do que o total desses animais existente no mundo.

Vamos fantasiar um pouco. Se você fosse um cientista de quem dependesse a vida de espécies inteiras, o que faria? Conte sua opinião na seção de comentários.