10+ Hábitos muito comuns na Coreia do Sul, mas que parecem ser de outro mundo para os estrangeiros

A coreana Hhwang viveu em São Petersbursgo, na Rússia, por dois anos e meio e criou um blog no Pikabu e um canal no YouTube para compartilhar as maiores diferenças entre esses dois países. Ela trata, sobretudo, das questões culturais. Na Coreia, por exemplo, policiais podem ajudar os alunos a irem até o local onde a versão local do vestibular é realizada. Outra curiosidade: no país asiático é normal sair para um encontro “a seis”.

Hhwang contou para a equipe do Incrível.club como é a vida na Coreia e por que é tão diferente do resto do mundo. No final, preparamos dois bônus especiais. Acompanhe!

Exames de graduação

O exame “Suneung” (수능) — ou Teste Escolar de Habilidades — seria o equivalente ao vestibular no Brasil. Nesse dia, os estudantes do ensino fundamental vão prestar apoio aos estudantes do ensino médio e esperam do lado de fora com placas como “Faça uma boa prova para não ter de fazê-la novamente!” ou “Acreditamos em vocês”. Além disso, cantam músicas e oferecem biscoitos com chá. Nas estações de metrô e de ônibus, há um contingente de policiais a postos para organizar o trânsito e garantir que ninguém se atrase. Você pode ligar para o número 112 e encontrar o policial mais perto para ele te ajudar a chegar ao local da prova.

Voos de aviões e helicópteros — assim como treinamento militar — são suspensos por 25 minutos durante a prova de audição de inglês. Há, também, uma lista de músicas “proibidas”, que não devem ser ouvidas antes do exame: os coreanos acreditam que a melodia ficará “martelando” na cabeça, impedindo assim a concentração na hora de resolver os exercícios. Por isso, até mesmo locutores de rádio avisam os estudantes para trocarem de estação porque “tal música vai tocar agora”.

Vida estudantil

Os estudantes podem escolher quais aulas querem frequentar acessando o site da universidade.Normalmente a quantidade de vagas é limitada — cerca de 60 a 100. Os lugares nas melhores aulas se esgotam em questão de segundos após a abertura das inscrições.

Para garantir o meu lugar, ia com frequência à sala de computação, pois lá a internet era mais rápida. A concorrência é muito grande entre os estudantes e, por isso, existe um sistema de notas relativas. Isso significa que há apenas um certo número de alunos capazes de conseguir a pontuação mais alta, mesmo que todos tenham estudado bastante.

Uma das aulas se chama “Casamento e Família”: a intenção é ajudar os jovens a navegar pelo mundo dos relacionamentos e, talvez um dia, encontrar um parceiro. Meu amigo se inscreveu nessa matéria com o objetivo de encontrar uma namorada. O problema é que o número de rapazes inscritos foi muito superior ao das garotas e, por isso, a dupla dele acabou sendo um outro rapaz. Apesar disso, eles fizeram todos os exercícios juntos e conseguiram a nota mais alta no fim do curso.

Solidão

Na Coreia, relacionamentos amorosos podem ser um assunto delicado. As pessoas às vezes avaliam que, se alguém não tem um parceiro ou parceira, isso pode ser resultado de algum problema pessoal ou de relacionamentos anteriores fracassados. A mídia incentiva encontros e casamentos, e os filmes são cheios de romance. Lugares e produtos “para casais” são comuns: capas de telefone combinando, relógios, camisetas, sapatos, assentos no cinema e até planos de celular.

Os coreanos tendem a acreditar que os relacionamentos são semelhantes a algum bem material. É comum a conversa ir de “fulano comprou linguiça” a “sicrano arranjou uma namorada”, tudo “num mesmo parágrafo”. A preocupação com os relacionamentos de amigos e parentes também é comum: “Por que você está solteira? Quer que eu ajude?”

Para se referir aos solteiros que nunca estiveram em um relacionamento amoroso existe até uma palavra especial, que seria traduzida como “sozinho desde o ventre da mãe”. Tais pessoas normalmente tentam esconder o fato de que nunca tiveram parceiros, pois isso é muitas vezes motivo para piadas.

Casais na Coreia

Jovens coreanos muitas vezes vão a encontros em grupos de três homens e três mulheres ou cinco homens e cinco mulheres, principalmente os estudantes. Normalmente se encontram em bares e, se houver interesse mútuo entre dois deles, podem trocar telefones para saírem a dois na próxima vez. Pessoas mais velhas não seguem muito essa prática, mas seus encontros a dois são muitas vezes combinados por meio de amigos.

Depois de alguns encontros, o casal decidirá se continuará a se ver. A conta no restaurante é dividida pela metade, mas os homens pagam a maior parte no primeiro encontro para não parecerem pães-duros. Há um culto à aparência, isto é, muita atenção é dada às características físicas do potencial parceiro: homens buscam mulheres mais magras e mulheres, homens maiores.

Na Coreia, muitos adultos ainda vivem com os pais, mas não é comum apresentar o novo namorado ou namorada antes do casamento. Por isso, os pombinhos optam por fazer programas fora de casa — restaurantes, cinemas e passeios pelo parque, por exemplo. Para os momentos íntimos, os motéis são a escolha. Para os pais, no entanto, os jovens quase sempre dizem que foram passar a noite com amigos.

Trabalho

É muito difícil procurar emprego aqui. Quando voltei da Rússia, enviei meu currículo para mais de 100 empresas, e apenas três delas me responderam. As entrevistas, então, são uma história à parte. Todos no Ocidente estão acostumados a falar sobre experiências de trabalho durante a entrevista, mas, na Coreia, é considerado normal perguntarem o que seus pais fazem, se você tem namorado e quanto você bebe.

A maior desvantagem de trabalhar na Coreia é que muitas pessoas vão revirar os olhos se você decidir ir para casa mais cedo. É comum ver os olhares, como se dissessem: “Eu ainda estou trabalhando, por que você já vai embora?” Portanto, não é fácil quebrar o estereótipo de que aqueles que ficam no escritório até tarde (mesmo que não estejam produzindo) são o exemplo a seguir.

As férias também são muito curtas: novos funcionários têm cerca de 15 dias de folga ao ano. No meu caso, para tirar férias, precisava falar com todos os gerentes antes de decidir as datas. É sempre um pouco constrangedor esse processo, pois você precisa dizer o motivo e seu chefe pode perguntar “Ah, mas com quem você vai viajar?” ou “Quando é o seu voo?” Aliás, não há remuneração no período de férias. Quando fiquei doente por cinco dias, me disseram, após voltar ao escritório, que iriam descontar esses dias como dias de férias. Foi assim que perdi horas sagradas de descanso.

Relacionamento com os colegas

É um costume convidar os colegas de trabalho para casamentos ou aniversários. Há uma tradição na Coreia de celebrar a longevidade dos pais — quando chegam aos 70, 80, 90 anos. Em tais eventos, os colegas do escritório sempre juntam dinheiro para dar de presente. Na verdade, acho isso um pouco estranho, pois a maioria não se conhece muito bem.

Quando o assunto é casamento, é preciso se dirigir ao departamento de RH para receber uma folha especial, na qual cada funcionário escreve o valor que pretende oferecer para o novo casal. Sempre dou minha parte, mesmo que não conheça as pessoas envolvidas.

Cuidados com a saúde

Coreanos adoram se alongar. Eles se exercitam em todos os lugares: no escritório, na parada de ônibus, no avião. Não se surpreenda se encontrar um coreano se alongando em algum lugar totalmente aleatório. Algumas pessoas mais velhas fazem massagens com a ajuda de árvores: apoiam as costas no caule e se movimentam de um lado para o outro. Não é raro ver tais práticas nos parques públicos.

A técnica do “do-in” é bastante difundida — uma automassagem de origem chinesa e realizada com os dedos em pontos específicos do corpo para relaxar e prevenir diversas dores e doenças. Em muitos parques, é possível encontrar lugares especiais com pedras estrategicamente colocadas no chão para que se ande descalço — acredita-se que aliviará os pés das dores, mesmo que o processo seja relativamente doloroso. Nas lojas, também pode-se encontrar chinelos com palmilhas de pedra. Eu comprei um desses para que meus pés não inchassem no trabalho e deu certo.

É um item bastante popular que realmente ajuda a relaxar e manter a saúde. Há, em geral, muitos equipamentos diferentes no mercado especialmente para massagens e que são anunciados frequentemente nos meios de comunicação. Um dos mais buscados é o purificador de ar — devido à alta poluição no país.

Tecnologia

O inverno não é tão severo como na Rússia, mas ainda assim é bastante frio. E nós odiamos. Por esse motivo, os bancos nos pontos de ônibus são aquecidos para não passarmos perrengue enquanto esperamos a condução. Essa tecnologia ainda não existe em todos os lugares, mas está se espalhando pelo país.

Outra inovação tecnológica é o botão antitabagismo. Na Coreia não se deve fumar em locais públicos. A maioria das pessoas vê o fumo como um mau hábito, e o governo vem criando políticas de proteção para os não fumantes. Se alguém estiver fumando em um local proibido, por exemplo, você pode apertar um botão especial, que soltará a seguinte mensagem de voz: “Aqui é uma zona proibida”.

Os preços para internet móvel são elevados — o equivalente a cerca de 65 dólares pelo plano ilimitado. Mas há uma solução: Wi-Fi de bolso! É um pequeno dispositivo, conhecido como “ovo” e pode ser levado para qualquer lugar. As tarifas desse aparelho variam de 13 a 26 dólares (em moeda local).

Idade coreana

O Ano Novo para os coreanos é um feriado um tanto quanto depressivo, pois, segundo a crença, nessa noite “todos nós envelhecemos ao mesmo tempo”. A data do nascimento, então, não é tão importante, pois a idade se calcula da seguinte forma: quando bebês nascem, eles já têm um ano de idade (a conta começa desde a concepção e, portanto, o tempo no ventre materno é contabilizado), e a cada virada de ano, acrescentamos um ano a mais à nossa idade.

Ou seja, uma pessoa com 20 anos em 2020 nasceu em 2001 — foi concebida em 2000. Nos documentos oficiais é indicada a idade “internacional”, mas dentro do país é comum falarmos da idade seguindo o sistema que mencionei. Por isso, se alguém perguntar qual a sua idade na Coreia, é melhor dizer a opção “coreana”. O ano de alistamento militar e o de maioridade para comprar bebidas alcoólicas é determinado a partir da idade “coreana”.

Por que as coreanas são tão magras?

Não é apenas um estereótipo, mas uma realidade comprovada. Há padrões de beleza muito rigorosos na Coreia e a aparência possui grande valor. O limite entre os conceitos de “magra” e “acima do peso” é muito tênue. Nas lojas, por exemplo, o maior tamanho normalmente é o “G”, mas é preciso lembrar que o “G” coreano é bem menor que os padrões europeus.

Muitas meninas e meninos, portanto, têm medo de não atenderem às expectativas sociais de beleza e de serem julgados pela sociedade. As características físicas podem influenciar em diversos âmbitos da vida e, por isso, muitos seguem dietas rígidas. A base da cozinha local é o arroz com frutos do mar e legumes. Como sobremesa, os coreanos optam por apenas frutas. Algumas comidas fermentadas também fazem parte do menu, pois ajudam na digestão. Doces e produtos com amido são consumidos mais fora de casa e, mesmo assim, raramente. Na minha casa, por exemplo, tenho apenas um alfajor de doce, que comprei cinco meses atrás.

Bônus № 1: não diga estas frases a menos que queira irritar um coreano

  • Nihao! Quando morei em São Petersburgo, as pessoas nas ruas e no metrô me cumprimentavam assim. Essa palavra é uma das que mais irritam os coreanos quando escutam de estrangeiros. Além de nos assustarmos quando estranhos decidem falar conosco na rua, também nos ofendemos. Essa é uma saudação, mas em chinês, não em coreano. Nem todos os asiáticos são chineses. Se quiser cumprimentar, um sorriso será suficiente.

  • Você é da Coreia do Sul ou do Norte? Na verdade, essa é uma pergunta válida, mas algumas pessoas a fazem com ironia ou como brincadeira. É uma grande tragédia para o país e, por isso, abordar tópicos como esse pode não ser uma boa ideia.

  • Por que seu celular não é Samsung? Temos muito orgulho do fato de que nosso país é um grande líder em tecnologia. Mas isso não significa que não podemos ter escolha própria.

  • Você já fez cirurgia plástica? É realmente verdade que muitos coreanos já passaram pelo bisturi do cirurgião, pois a qualidade de tais serviços é excelente em todo o país — sem contar que a aparência, como já mencionei, é muito importante. No entanto, fazer essa pergunta só por alguém ser coreano é, no mínimo, estranho. Acho o assunto pessoal e delicado demais para discutir com qualquer pessoa.

  • Mar do Japão. Coreanos não gostam de quando alguém chama o “Mar do Leste” de “Mar do Japão”. Entendo que os estrangeiros não têm culpa, pois aprendem assim nas escolas, mas defendemos outra nomenclatura, pois é uma questão ainda em aberto e não houve acordo com o Japão.

Bônus № 2: os maiores pontos positivos da Rússia em relação à Coreia

  • Aquecimento. Não é novidade para ninguém que faz muito frio na Rússia, mas poucos sabem que dentro de casa faz calor. É muito prazeroso entrar no seu apartamento quentinho depois de um passeio no parque. Durante o inverno na Coreia, é frio na rua e, também, em casa. Os pisos são aquecidos (às vezes até quentes demais), mas o ar é frio. Muitas vezes nem tiro meu casaco de inverno dentro do quarto, o que podia fazer tranquilamente na Rússia.

  • Internet barata. Em 2017, tinha um plano ilimitado e pagava o equivalente 4 dólares por mês (em rublos, moeda russa). Na Coreia, os preços começam a partir de 60 dólares — e o 5G é mais caro ainda.

  • Planícies. Foi na Rússia que vi pela primeira vez o horizonte na Terra. Tão lindo! Na Coreia, só via o horizonte do mar. Quando eu e minha mãe fizemos uma viagem de trem pela Rússia, não conseguíamos entender como havia tantas planícies e por que não plantavam arroz nelas.

  • Descontos estudantis. Mesmo que tenha uma carteira de estudante na Coreia, todos vão falar com você como se fosse um adulto qualquer. Então precisará pagar por tudo sem nenhum desconto especial.

  • Cultura. Na Rússia, fui pela primeira vez assistir a um balé e a uma ópera. Tive a sensação de que a arte era mais acessível. No primeiro show de balé não precisei pagar nada. Era uma data especial, com todos os museus gratuitos, a chamada “Noite dos Museus”. Depois, também, pude ver o “Lago dos Cisnes” pagando o equivalente a apenas 5 dólares. Os preços no meu país para tais atividades são muito mais elevados.

Caso você já tenha visitado a Coreia, o que mais te surpreendeu? Caso não tenha ido ainda, conte-nos quais das características acima achou mais interessante!

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